

O amor  invencvel


Barbara Cartland


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Coleo Barbara Cartland n 193

Ttulo original: Love is invincible
Copyright: Brbara Cartland 1987
Traduo: Erclia Magalhes Costa
Copyright para a lngua portuguesa: 1988
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Voc  minha!	Estou disposto a lutar por voc, a matar quem quiser tir-la de
mim!	O ardor, a violncia e a sinceridade que havia na voz do marqus
fizeram Lucille tremer de amor e prazer.	Dominada por doce xtase e
arrebatamento, escondeu o rosto no peito dele, notando que seus coraes
batiam em um ritmo desvairado.
Queria am-lo, dizer que seria dele para sempre, mas tinha medo medo de
ser enganada por aquele homem rico, belo e poderoso.	Sabia que o marqus
no podia se casar com uma simples plebia!

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Nota da autora



A  poltica vitoriana  relativa  ndia era regida em  grande  parte  pelo
temor  que  os  ingleses  tinham  de  que  a Rssia pudesse  invadir  aquele  pas,
principalmente  atravs  do  ponto  mais  vulnervel  da fronteira que  ficava ao
noroeste,  na divisa  com  o  Afeganisto    a passagem  de  Alexandre  para a
ndia.
O  Afeganisto  era um  vizinho  nada confivel,  e  os  habitantes  da regio
da fronteira pertenciam  a tribos  de  muulmanos  sem  lei  e  sem  lealdade  a
soberano  algum,  o  que  dificultava o  estabelecimento  de  uma linha firme  de
defesa.
Por essa razo criou-se O Grande Jogo, ao qual todo ingls inteligente
e  corajoso  desejava pertencer,  pelos  riscos,  pela excitao  e  pelo  sigilo  que
envolviam as atividades da organizao.
Os  russos  avanavam  inexoravelmente  pelo  leste  e  pelo  sul,
conquistando as tribos dos cs da sia Central, uma aps a outra, preparando
o cerco da ndia.
Eles  j  estavam  construindo  uma  ferrovia atravs  da  Sibria,  at  o  Extremo
Oriente;	comentava-se,  embora no  se  pudesse  confirmar,  que  os  russos
tambm  haviam  iniciado  a construo  de  outra ferrovia no  Turquesto  e  que
planejavam a anexao do Tibete.
A rainha Vitria preocupava-se muito com seu imprio e mantinha-se em
contato freqente com o vice-rei.
Os  britnicos  foram  estabelecendo  suas  tropas  o  mais  perto  dos  russos
quanto  lhes  foi  possvel  e  pensavam  que  seria necessria a posse  do
Afeganisto.
O  exrcito  britnico  na ndia,  sobre  o  qual  Kipling  escreveu  to
magistralmente, teve sua fama legendria nascida nas rochas e nas barrancas
dos rios do noroeste, onde as tribos selvagens montavam emboscadas atrs de
cada pedra.
Alm  das  tribos  selvagens,  pairava o  perigo  representado  pelos  afegos
e, atrs de todos esses, achavam-se os russos.






















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CAPTULO I



1887

Cavalgando rapidamente, Lucille aproximou-se da cerca e fez seu cavalo
salt-la em  grande  estilo.  Dando  umas  palmadinhas  no  pescoo  do  animal,
exclamou:
	 mesmo um bom menino! Sinto-me bastante orgulhosa de voc!
Puxando  as  rdeas,  fez  o  cavalo  ir  parando  gradativamente.  Naquele
instante,  um  belo  e  elegante  cavalheiro,  que  se  achava ao  abrigo  de  umas
rvores, montado em seu garboso garanho, aproximou-se e tirou o chapu de
copa alta, ao dizer:
	Permita-me  cumpriment-la pelo  que  acabo  de  presenciar!  Eu
pensava,  exatamente,  em  fazer  meu  cavalo  saltar  aquela cerca,  mas  receio
que no o faramos com tanto brilhantismo.
Lucille constatou que, afinal, achava-se diante do marqus de Shawforde
e sorriu para ele.
O  marqus  notou  as  duas  covinhas  que  se  formaram  aos lados  da boca
da jovem, que era, na verdade, uma das mais bonitas que ele j encontrara.
Naquele traje de montaria verde, com os cabelos loiros brilhando ao sol,
os  olhos  lmpidos  como  um  regato  das  montanhas,  ela  era uma criaturinha
fantstica.
Devia ser uma visitante quela parte do pas.
Depois de um instante, Lucille disse:
	Estou esperando para ver sua proeza, marqus. O marqus ergueu as
sobrancelhas.
	Se j me conhece, deve apresentar-se.
	Meu nome  Lucille Winterton. Ele pareceu ficar pensativo.
	No a vi em Londres, pois, se a tivesse visto, no teria esquecido suas
feies.
	No me viu em Londres pela simples razo de que nunca estive nessa
cidade.
	Mora aqui?  ele perguntou, incrdulo.
	Moro alm da vila, perto do porto principal de sua propriedade.
	Ento no a perderei.
Lucille  riu,  achando  o  marqus  um  tanto  presunoso.  Ele  conduziu  seu
cavalo para mais perto dela ao dizer:
	Deve estar ciente de que se acha cavalgando em minha propriedade,
e no  correto faz-lo sem autorizao.
	A  propriedade    mesmo  sua.  Mas  esta parte,  exatamente,  tem  sido
usada h anos, seno h sculos pelo pessoal do lugar como pista de corrida.
No  s  os  moradores  da vila,  como  os  de  todo  o  condado,  cavalgam,  fazem
corridas, praticam saltos com obstculos aqui.
Dando  uma	rpida	olhada	para	ver  a	reao  do  marqus,  ela
acrescentou:
	Se proibir que venhamos a este lugar, haver uma revoluo.
O marqus riu.
	Prometo  no  proibir  nada,  especialmente  depois  de  encontrar  aqui,

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nesta manh, algum como voc.
Os  olhos  de  Lucille  brilharam,  e  no  lhe  passou  despercebido  que  ele
acentuara a palavra voc.
	Nem imagina como todo o pessoal da redondeza vai invejar-me!
	Por que a invejariam?
	Porque  todos  gostariam  de  conhec-lo.  Tambm  sei  que  ficaram
desapontados  por  no  terem  sido  convidados  para as  festas  grandiosas  que
oferece na manso.
O marqus no pde evitar o riso.
	Esperavam que eu fizesse uma coisa dessas?
	Naturalmente.  Todos  esperavam  que  o  novo  herdeiro  desta vasta
propriedade  mudasse  um  pouco  os  costumes  na Casa Grande,  mas  seus
vizinhos  perceberam  que  tudo  continua como  antes  e  que  eles  no  so  ao
menos notados.
	Bem, isso pode ser remediado. Quando poder jantar comigo?
	Agora est me  deixando  embaraada.  Faz-me  sentir  como  se
estivesse tentando obter um convite.
	Ora, est sendo convidada para um jantar, e no importa se forou ou
no tal convite.
Ele  olhou-a  demorada e  atentamente  como  se  duvidasse  de  que  fosse
real; em seguida perguntou-lhe:
	H outras jovens lindas como voc morando to perto dos portes de
minha propriedade? Mal posso acreditar!
	Ter de  descobrir  por  si  mesmo    respondeu  Lucille,  sorrindo.  
Tudo  o  que  desejo  fazer  agora    partir  a galope  e  contar  l em  casa  que  o
conheci!
	Vai partir assim, deixando-me com a sensao de ter-me comportado
mal?
	E comportou-se mal!
O  marqus  riu  novamente,  mostrando-se,  ao  mesmo  tempo,  surpreso.
Lucille era a jovem mais linda que j havia conhecido, fosse em Londres ou em
qualquer outro lugar. Ela tambm era diferente das garotas caladas e inspidas
que ele procurava evitar nas festas e bailes aos quais comparecia.
	Vai responder se aceita meu convite para jantar?  ele perguntou em
voz alta.
Lucille desviou o olhar ao dizer:
	Duvido que me deixem aceitar um convite desses.
	E quem iria impedi-la de aceit-lo?
	Minha irm. E, se papai fosse vivo, tambm me faria recus-lo.
	Por qu?
	Papai nunca aprovou o modo como o falecido marqus, pai  de Vossa
Senhoria,  tratava as  pessoas  mais  pobres.  Quanto  a minha irm,  esta
considera um insulto as festas que tm sido realizadas na manso.
	Um insulto?!  o marqus no escondeu sua surpresa.  Mas o que
ela sabe sobre tais festas?
Lucille riu.
	Naturalmente  no  ignora,  meu  senhor,  que  tudo  o  que  acontece  no
que  o  povo  chama de  Casa Grande,  fica sendo  do  conhecimento  dos
moradores  da vila,  e  as  notcias  espalham-se  pelo  condado  como  se  voassem


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nas asas do vento.
	No tinha a menor idia de que isso acontecesse.
	Bem, at a sua chegada  manso, no havia muito para se comentar
 disse ela com franqueza.  Acredito que os rumores que circulam pela vila
tenham fundamento.
Ela estava pensando  nos  criados  mais  novos  que  haviam  comeado  a
trabalhar  na manso  desde  que  o  marqus  a herdara e  que  eram,  em  sua
maioria,  rapazes  e  moas  da vila.  Eles  costumavam  comentar  o  que  se
passava na  Casa Grande,  deixando  os  ouvintes  em  permanente  estado  de
choque.
O  ltimo  marqus  estivera doente  por  um  longo  tempo,  e  a manso
permanecera durante  anos  mergulhada na tristeza.  Quando  ele  morreu,  os
moradores  do  condado  compareceram,  em  peso,  s  cerimnias  fnebres
realizadas  na	igreja	da	vila,  que  ocupava	um  canto  do  parque,  e
acompanharam-no   ltima morada,  no  cemitrio  ao  lado  da igreja,  onde
tambm haviam sido enterrados outros membros da famlia Shaw.
A morte do quarto marqus parecia ter marcado o final de uma era.
Os moradores do lugar imaginavam, otimistas, que tudo iria melhorar da
para diante.  Assim,  no  se  achavam  preparados  para o  impacto  causado  pela
chegada do jovem quinto marqus.
Seis  meses  depois  da morte  do  pai,  ele  ofereceu  sua  primeira festa,
enchendo a manso com seus amigos de Londres.
O  pessoal  da  vila desculpou  a atitude  do  marqus,  achando  que  era
natural  ele  querer  divertir-se,  ter  a companhia dos  amigos  e  das  lindas
mulheres e reabrir o imenso salo de baile que ficara tantos anos fechado.
Na verdade  ningum  esperava que,  sendo  jovem,  o  marqus  tivesse  o
mesmo comportamento do pai, velho e doente.
  Mas  festa   uma coisa,  e  orgia   outra,  completamente  diversa!  
comentara acidamente a sra. Geary, dona da mercearia.
Todos haviam concordado com ela.
E  os  comentrios  fervilhavam:  dizia-se  que  os  cavalheiros  bebiam
demais,  as  mulheres,  de  rosto  muito  pintado  e  lbios  carmesins,  tomavam
parte nas brincadeiras barulhentas. Convidados escorregavam pelos corrimos
das escadas, e houve at quem danasse no telhado, ao luar.
Em  cochichos  escandalizados  espalhava-se  que  muitas  mulheres
danavam apenas de camisola!
Nos amplos sales, depois do jantar, uma das brincadeiras prediletas era
a da caa  raposa,  e  os  cavalheiros,  depois  de  fazerem  ecoar  as  trompas  de
caa, saam ao encalo das raposas, no caso as mulheres presentes  festa.
Cada uma delas  procurava um  bom  esconderijo  e  quando  capturada
passava a pertencer ao cavalheiro que a apanhasse. O que acontecia depois
da captura,  era repetido  com  bastante  reserva por  ser  altamente  imprprio
para os  ouvidos  de  qualquer  jovem,  exceto  para os  das  filhas  do  coronel
Winterton.
O  coronel  Robert  Winterton,  descendente  de  famlias  ilustres,  possua
uma grande  propriedade  rural,  no  entanto,  no  to  vasta quanto  a do
marqus, seu vizinho.
A  famlia Winterton  morava no  solar  de  Little  Bunbury  h  mais  de  um
sculo, mas o velho solar era bem mais antigo.


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A vinda do novo marqus de Shawforde, o quinto na linha de sucesso,
havia causado  grande  alegria em  Little  Bunbury.  Todavia,  at  o  momento,
ningum na vila o conhecia pessoalmente, pois ele no passara nem mesmo a
infncia na manso Shaw.
A razo daquele afastamento foi que seus pais se separaram quando ele
era ainda muito  novo.  No  querendo  divorciar-se,  por  achar  o  divrcio  uma
vulgaridade,  o  quarto  marqus  aceitou  apenas  a separao,  indo  a marquesa
morar com os pais e o filho no norte da Inglaterra.
O  marqus  era um  diplomata e  trabalhara em  embaixadas  do  Extremo
Oriente. Quando vinha  Inglaterra ficava por um breve perodo na manso da
famlia, onde tambm moravam duas tias solteironas. Com o passar do tempo,
os trs foram ficando cada vez mais velhos, e a manso parecia um asilo.
Assim,  a chegada do  novo  marqus  era esperada com  ansiedade  pelo
povo de Little Bunbury.
Naturalmente,  comentrios  sobre  ele  no  faltavam.  Dizia-se  que  era
extremamente  bonito,  que  adorava a vida noturna e  que  possua  excelentes
ces de caa, os quais dominava com grande percia.
Durante a temporada, Lucille ficou sabendo que o marqus havia aberto
o pavilho de caa em Leicestershire, levando a mais seleta matilha de ces de
que se tinha conhecimento no condado.
Um  lugar  pequeno  e  despretensioso  como  Little  Bunbury,  em
Hertfordshire, no poderia interessar ao jovem marqus.
Seus moradores tiveram de esperar ms aps ms, resignadamente, que
o  senhor  da Casa Grande,  proprietrio  de  quase  tudo  naquele  lugar,
aparecesse.
Mas o marqus, considerando a pequena distncia em que a manso se
achava de Londres, reservou o lugar para os fins de semana.
A primeira festa oferecida pelo jovem marqus foi esperada na vila com
entusiasmo.  Alguns  dos  moradores  e  arrendatrios  at  mesmo  pensaram  que
seriam convidados.
Os fazendeiros, por sua vez, queriam pr o marqus a par das colheitas
e  das  plantaes;  os  pastores  desejavam  falar  sobre  os  rebanhos,  os
cavalarios,  cansados  da inatividade,  sonhavam  com as  baias  todas  cheias  de
puros-sangues.
O sonho destes ltimos foi o primeiro a tornar-se realidade. Lucille ouvira
extasiada  a descrio  que  lhe  haviam  feito  sobre  os  cavalos  rabes  trazidos
para os estbulos da manso. Ela havia imaginado a soma astronmica gasta
em cada um dos soberbos animais.
Sem  dizer  nada  a Delia,  sua irm,  Lucille  fora at  a manso  assim  que
soubera que o marqus havia voltado para Londres. Ela conhecia Hanson, que
h quarenta anos era cavalario na manso Shaw e convenceu-o a mostrar-lhe
os novos puros-sangues.
	So  absolutamente  magnficos,  Delia   ela dissera   irm,  ao  voltar
para casa.  Nunca vi cavalos to maravilhosos!
Como  resultado,  ouvira da irm a maior  repreenso  por  ter  ido   Casa
Grande sem ser convidada.
A partir daquele dia, passou a ir  manso sem contar nada  irm.
Agora,  vendo  o  marqus  montado  em  um  dos  cavalos  que  tanto  havia
admirado, ela disse:


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	Que  tal  apostarmos  uma corrida?  Poderemos  comear  l no  fim  da
pista, daremos trs saltos naqueles obstculos e voltaremos, indo at a moita
de rododendros.
Enquanto falava, ela indicava o caminho com a mo.
	E qual seria o prmio para o vencedor?
	Dar uma volta em um dos seus cavalos!
	Posso pensar em algo muito melhor, mas s direi depois que eu tiver
ganhado a corrida.
	No conte com a vitria antecipadamente!
Ambos  tomaram suas posies e  partiram para o que Lucille considerou
uma corrida excitante.  Ao  saltar  o  ltimo  obstculo,  mesmo  estando  atrs  do
marqus, achou que nunca se divertira tanto.
O  galope  at  o  marco  de  chegada havia sido  desenfreado.  Os  dois
contiveram seus animais rindo descontraidamente.
	Voc monta melhor do que qualquer mulher que eu conheo!
	Obrigada   respondeu  Lucille,  ofegante  ,  mas  minha  irm cavalga
muito melhor do que eu!
	Mas, se me disser que ela  mais bonita do que voc, no acreditarei.
	Ela  mais bonita! Talvez um dia se digne a conhec-la.
	Est dizendo que eu j deveria ter ido visit-las? Lucille riu.
	 o que esperam quase todos os seus vizinhos.
	Vejo  que  voltamos  ao  mesmo  ponto.  Mas  depois  de  ter  conhecido
voc, apreciarei seguir sua sugesto.
	Talvez  eu  deva	lembr-lo,  meu  senhor,  de  que  no  fomos
apresentados formalmente  observou Lucille de modo um tanto afetado.
	  muito  tarde  para isso.  Mas  tendo  eu  vencido  a corrida,  voc  me
deve  um  prmio.  Direi  qual  ser esse  prmio  quando  vier  jantar  comigo  esta
noite.
	Vai mesmo oferecer outra festa?
	Na verdade, minha inteno era voltar para Londres, mas, se aceitar
jantar comigo, nada me far deixar a manso!
	Est sugerindo que jantaremos a ss?  perguntou Lucille com os
olhos arregalados.
	Naturalmente!  Tenho  tantas  coisas  para dizer-lhe,  e  isso  seria
impossvel fazer em meio a uma poro de pessoas.
	Agradeo  muito  a Vossa Senhoria pelo  amvel  convite,  mas  lamento
inform-lo de que tenho um compromisso.
	O que quer dizer com isso?
	Se  quer  mesmo  saber  o  motivo  de  minha recusa,  devo  ser  franca:
jamais,  em  circunstncia alguma,  eu  teria permisso  de  jantar  sozinha com  o
to falado marqus de Shawforde!
	Ora, quanta bobagem! Eu desejo v-la!
Lucille preferiu no responder. O marqus no se conteve e, cavalgando
ao lado dela, perguntou-lhe:
	Est mesmo falando a srio? No posso t-la como convidada para o
jantar esta noite?
Lucille  olhou  altivamente  para o  marqus  por  baixo  dos  longos  clios,
muito escuros, contrastando com os cabelos loiros.
	Asseguro-lhe que, se estiver interessado, ir descobrir que sua fama 


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tal  que  mes  escondem  as  filhas  e  maridos  trancam  as  esposas  assim  que
ouvem falar que Vossa Senhoria est por perto!
O marqus jogou a cabea para trs, dando uma boa risada.
	 mesmo to ruim a minha fama?
	At pior  respondeu ela com franqueza.
O  marqus  puxou  as  rdeas  de  seu  cavalo  e  Lucille,  automaticamente,
fez o mesmo.
	Ento o que iremos fazer? Voc sabe, Lucille, desejo v-la novamente.
Por  um  momento  seus  olhos  se  encontraram,  sendo-lhes  difcil  afast-
los.
	Acho que  problema seu. At logo, meu senhor, e obrigada!
Antes  mesmo  de  o  marqus  perceber  o  que  Lucille  fazia,  ela  tocou
levemente seu cavalo com o chicote e afastou-se a galope.
Ele  seguiu-a com  o  olhar,  notando  como  se  desviava agilmente  dos
galhos  das  rvores,  parecendo  conhecer  muito  bem  aquele  caminho  que
conduzia a uma das  entradas  da vila.  Era aquele  o  atalho  mais  curto  at  o
lugar conhecido por todos como pista de corrida.
O  marqus  esperou  Lucille  sumir  de  vista.  Em  seguida  foi  cavalgando  a
passo lento atravs do parque, em direo a sua casa.

Chegando  ao  solar,  Lucille  foi  diretamente  ao  estbulo.  Um  cavalario
correu ao seu encontro para segurar o cavalo.
	Fez um bom passeio, srta. Lucille?
	Maravilhoso! Andorinha saltou todos os obstculos, e estou decidida a
tomar parte na prxima corrida de steeple-chase.
	Deve mesmo fazer isso, srta. Lucille.
Ela sorriu  e  correu  para o  solar,  que  era um  prdio  muito  bonito,  cuja
construo datava da poca da dinastia Tudor.
Todos  os  moradores  do  solar  haviam  feito  alguma melhoria no  prdio
desde  ento.  A  prpria me  de  Lucille  havia  redecorado  completamente  a
residncia assim  que  viera morar  ali,  logo  depois  de  casada.  Nos  anos
seguintes poucas alteraes ocorreram no solar.
Lucille entrou correndo no grande salo, no andar trreo, o qual abria-se
para o jardim de rosas com seu relgio de sol no centro.
Delia encontrava-se no salo arrumando os primeiros botes que haviam
sido colhidos na roseira favorita da me.
Ela ergueu  a  cabea para olhar  a irm,  que  acabava  de  entrar  com  o
costumeiro entusiasmo.
Era impressionante  a semelhana entre  as  duas  moas.  Mas,  quanto  ao
carter e  personalidade, eram bem diferentes.
Um  bom  observador,  porm,  notaria nos  olhos  e  na aura de  cada uma
das irms a diferena que havia entre ambas.
Delia tambm  era loira,  mas  seus  olhos  eram  cinzentos.  Havia algo  de
etreo em sua figura, o que lhe conferia um ar reservado e ao mesmo tempo
espiritual. Delia era linda!
Lucille era exuberante, risonha e sua beleza to evidente quanto um raio
de sol, to radiosa quanto um cu sem nuvens.
	Delia! Delia! O que voc acha?  gritou Lucille.  Conheci o marqus!
Delia ficou ereta, retendo na mo um boto de rosa entreaberto.


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	O marqus? Onde o encontrou?
	Na pista de  corrida.  Oh,  ele    to  extraordinariamente  bonito,
absolutamente encantador!
	Voc conversou com ele?
	Claro!  Tambm  cavalgamos  juntos  e  ele  ganhou  a corrida de
obstculos.  Montava o  cavalo  mais  fantstico  que  se  possa imaginar!  S
poderia ser mesmo o vencedor!
	Acho que deveria ter-lhe recomendado para no ir cavalgar no parque
estando o marqus na manso  disse Delia vagarosamente.
	Sabe  muito  bem  que  no  h outro  lugar  onde  se  possa  cavalgar.  De
qualquer  forma,  teramos  de  acabar  conhecendo  o  marqus,  mais  cedo  ou
mais tarde. Eu lhe disse que ele poderia ter-nos feito uma visita.
	Lucille! No acredito que tenha feito isso!
	Mas fiz. Ele me convidou para jantar. Delia deu um pequeno grito de
horror.
	Oua,  Lucille.  No  toquei  nesse  assunto  antes  por  achar  improvvel
que viesse algum dia a encontrar-se com o marqus.
Mas,  agora que  at  j falou  com  ele,  devo  dizer-lhe  que  nunca mais
repita o que fez hoje.
	Por qu?
	Sabe a resposta to bem quanto eu. O comportamento dele tem sido
reprovvel,  e  todos  no  condado  ficaram  chocados  ao  ouvirem  os  comentrios
sobre suas festas.
	Se  voc  nunca esteve  presente  a nenhuma dessas  festas,  no  pode
afirmar que os rumores que correm na vila sejam verdadeiros. E se forem um
amontoado de mentiras?
	Acredito  que  h  exagero  e  muita fantasia no  que  dizem.  Ao  mesmo
tempo,  pessoas  que  o  conhecem  afirmam  que  o  comportamento  dele  em
Londres , da mesma forma, desabonador.
	Bem,  eu,  pessoalmente,  achei  o  marqus  verdadeiramente  adorvel!
 O tom de Lucille era provocador.
	Minha querida,  na minha opinio  voc  no  tem  experincia alguma
para poder julgar um homem desse tipo.
	Quero jantar com ele.
	Impossvel!  Completa e  absolutamente  impossvel!  Papai  ficaria
horrorizado.
	Voc alega que  o comportamento dele  reprovvel. Talvez eu possa
persuadi-lo a comportar-se melhor.
O riso cristalino de Delia ecoou na sala.
	Agora minha irm est querendo  representar  o  papel  de  uma das
heronas dos ridculos romances que l!
	Por qu?
	Porque elas sempre conseguem reformar o libertino, o qual, da noite
para o dia se transforma, passa a ter um comportamento exemplar e no volta
a pecar. Pois fique sabendo que isso no acontece na vida real.
	Tenho  certeza de  que  acontece,  s  que  no  ficamos  sabendo  que
aconteceu.
	O  meu  receio    que  a vida  prove  o  quanto  se  engana.  Mas,  de
qualquer forma, a resposta  no!


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	Agora est sendo  injusta e  odiosa!  Eu  adoraria ir  jantar  com  o
marqus na manso, pelo menos poderia ver as mudanas que ele fez na casa
desde que passou a morar ali.
	E  causar  um  escndalo  em  todo  o  condado?  Voc  vai  comear  a
freqentar  festas  este  ano,  e    muito  importante,  querida,  que  cause  boa
impresso.  Se  tiver  m reputao,  duvido  que  as  mes  das  jovens  de  sua
idade iro convid-la para festas e bailes.
A expresso no rosto de Lucille revelava que ela reconhecia ser verdade
tudo o que a irm lhe dizia.
Delia ps o vaso sobre a mesa e foi sentar-se ao lado da irm mais nova.
	Oua,  minha querida.  Sei  que  ficou  frustrada por  no  poder  ser
apresentada na corte, na primavera, por ainda estarmos de luto pela morte de
papai.  Mas  a sua madrinha  prometeu  oferecer-lhe  um  baile,  em  outubro.  A
partir da poder aceitar outros convites, que sei que sero muitos.
	Enquanto  isso,  eu  fico  conversando  com  as  paredes!    replicou
Lucille, zangada.
	 claro que poder fazer alguma coisa um pouco melhor, no? Mas eu
gostaria de  discutir  com  voc  a respeito  de  alguns  jantares  que  poderamos
oferecer.
	Posso convidar o marqus?
	No!
	Por que no? Afinal ele  nosso vizinho!
Delia levantou-se e foi at a lareira, caminhando com graa.
	Voc sabe o quanto detesto falatrios e tambm no ignora como Fl
e as outras criadas so mexeriqueiras.
Lucille concordava com a irm naquele ponto. Fl morava na vila e toda
manh chegava no solar falando sobre os mais recentes mexericos. E quando
comeava a falar nada conseguia faz-la parar.
	Fl  disse    continuou  Delia   que  o  marqus,  alm  de  estar
envolvido  com  lady  Swinneton,  famosa por  sua beleza,  est noivo  de  uma
jovem muito importante e pretende se casar.
	Noivo e prestes a se casar?
	No  prestei  muita ateno,  mas  parece  que  a noiva   filha  de  um
duque.
Depois de ficar algum tempo em silncio, Lucille disse com voz sumida:
  O  que  est querendo  dizer,  na verdade,    que  ele  no  estaria nada
interessado em uma garota da vila.
Acho  que  um  outro  cavalheiro  poder  interessar-se  por  voc,  querida.
Voc    muito,  muito  bonita,  alm  de  ser  uma pessoa alegre.  Mas  sabe  que  o
marqus jamais pensar em t-la como esposa.
	Por que no?  perguntou Lucille bruscamente.
	Porque, querida irm, entre aristocratas, sangue azul s se casa com
sangue azul e em geral os casamentos entre eles so arranjados.
	Ento para casar-me com um marqus meu pai teria de ser tambm
um marqus ou, melhor ainda, um duque!
	Exatamente. E a noiva certa  muito importante para o casamento ser
feliz.
	Como assim?
	No caso do marqus, por exemplo, sua me era muito rica e herdeira


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de grande fortuna, mas o casamento no foi feliz.
	O que houve de errado nesse casamento, para haver a separao dos
dois?
	Honestamente, no sei. Papai costumava dizer que o falecido marqus
era um homem obstinado e desagradvel.
Lucille emitiu um som revelador de toda a sua exasperao.
	 engraado. Vivo sentadinha nesta casa sem ter o que fazer ou com
quem  conversar.  E  quando  conheo  um  homem  bonito,  encantador,  vem
algum e me diz para me afastar e que nada tenho a ver com ele!
	Sinto  muito,  querida,  mas  fao  isso  porque  a amo  e  desejo  que  seu
dbut seja um sucesso. No vai ser o  marqus ou qualquer outra pessoa que
ir estragar tudo.
Lucille levantou-se da cadeira na qual se jogara.
	Compreendo,  Delia.  Pode  acreditar  nisso!  Sei  que  s  pensa no  meu
bem.  Mas  deve  reconhecer  que  h uma escassez  de  homens  nesta parte  do
mundo,  no  momento.    Com  voz  sarcstica,  ela continuou:    Os  que  so
jovens  como  eu  no  tm  uma boa conversa;  os  outros  so  velhos  como
Matusalm.
Delia riu.
	Tudo  vai  ser  diferente  quando  for  para Londres.  Agora,  por  favor,
querida,  seja	sensata!  Voc  sabe  to  bem  quanto  eu  que  qualquer
relacionamento  com  o  marqus  de  Shawforde  no  ser bem  recebido  nos
melhores crculos.
Sem poder evit-lo, Lucille comeou a rir.
	Suponho que os melhores crculos sero pomposos, crticos e muito,
muito  enfadonhos.  Sinto-me  inclinada a arriscar-,  me  e  escolher  o  marqus,
assim me divertirei mais.
	Oh, Lucille, por favor!  suplicou Delia.
Mas  a irm j havia sado  do  salo.  Delia ouviu  apenas  seus  passos  no
hall.
Ela suspirou  e  terminou  de  arrumar  as  flores.  Felizmente  uma prima
delas  viria para o  solar  servir-lhes  de  chaperon  e,  quanto  mais  cedo  aquilo
acontecesse, melhor.
Depois da morte do pai, Delia achou que no havia necessidade de uma
mulher  mais  velha	para	fazer-lhes  companhia.  Agora,  tendo  Lucille
permanentemente  em  casa,  pois  no  voltaria para o  colgio,  a presena da
velha prima no solar seria no apenas til, mas necessria.
Nos  dois  ltimos  anos  Delia cuidara  do  pai  devotadamente,  o  que
significou  para ela o  afastamento  de  qualquer  atividade  social,  no  teve  nem
mesmo seu dbut.
Os bailes e festas programados especialmente para ela no aconteceram
por  causa da doena do  pai.  Delia  iria  fazer  vinte  e  um  anos  e  achou  que  j
tinha idade  suficiente  para cuidar  da impetuosa irm  sem  precisar  de
assistncia.
Mas agora no tinha certeza daquilo.
Ela sabia que Lucille era, sem dvida, adorvel e que os homens sentir-
se-iam atrados por ela assim que a vissem.
Alm  disso,  Lucille  recebera educao  esmerada no  colgio  para moas
que freqentara, na Frana, o que eliminara toda a timidez que porventura lhe


11




restasse  e  lhe  dera um  porte  altivo,  cultura e  refinamento  que  as  jovens
inglesas em geral no possuam.
Ela ser um tremendo sucesso em Londres, pensou Delia, confiante.
Delia cuidara do  pai  durante  tanto  tempo  que  nem  pensava em  ter  ela
prpria uma vida social.  Sua preocupao  era que  a irm  tivesse  as  chances
que ela no tivera e que brilhasse nas festas e bailes.
Para ver  seu  sonho  realizado,  no  permitiria que  Lucille  se  envolvesse
com  um  homem  cujo  comportamento  era reprovado,  no  apenas  em  Little
Bunbury, mas tambm em Londres.
Delia no teria tanta convico sobre o mau comportamento do marqus
se  no  tivesse  recebido  uma carta de  uma das  primas  de  Londres  contando
horrores sobre ele.
A finalidade da carta era informar Delia sobre os preparativos para a ida
de Lucille a Londres. Porm, entre outras coisas, a prima havia escrito:

 claro, farei o que for possvel pela prima Lucille. Mas fique tranqila,
pois  no  pode  haver  melhor  chaperon  para ela do  que  lady Morgan,  a quem
todos  admiram  e  que  oferece  festas  maravilhosas.  Fui  convidada para apenas
uma dessas  festas,  mas  jamais  esquecerei  aquela noite.  Os  convidados  eram
pessoas agradveis e distintas, e conheci um fascinante prncipe espanhol.
Infelizmente, vim a saber, mais tarde, que o prncipe tinha uma pssima
reputao. Falarei sobre isso em outra ocasio.
Por  falar  em  reputao,  devo  tambm  dizer-lhe  que  seu  vizinho,  o
marqus de Shawforde, conseguiu deixar chocada toda a nossa sociedade.
Contam  at  que  todas  as  mais  importantes  anfitris  pensam  em  riscar-
lhe  o  nome  das  listas  de  convidados.  Isso,  no  entanto,  no  ir aborrec-lo,
tampouco preocupar a sociedade frvola na qual ele circula.
Tem havido muitos comentrios sobre um envolvimento entre ele e lady
Swinneton,  uma linda mulher  cuja beleza atrai  uma  pequena multido  para
Rotten Row, no Hyde Park, quando ela cavalga ali.
Correm  rumores  de  que  lorde  Swinneton  pretende  duelar  com  o
marqus, mas, como sabe, o duelo  proibido por lei.
Mas  lady Swinneton  no    a  nica!  Comenta-se  que  Sua Senhoria
entrou,  pela janela,  no  quarto  de  certa lady,  muito  linda e  importante  e
descobriu que ela no se achava sozinha!
Contarei  mais  quando  nos  encontrarmos.  Enquanto  isso,  diga a  Lucille
que j estou  pensando em algum cavalheiro elegante e atraente para ser seu
par.
Envio a vocs, queridas primas, todo o meu carinho

Depois  de  ter  lido  a carta,  Delia ficara contente  ao  saber  que  Lucille
estaria muito bem quando fosse para Londres.
Ao  mesmo  tempo  ela s  poderia lamentar  a irresponsabilidade  do  seu
vizinho.  Havia tantas  coisas  que  precisavam  ser  feitas  na vila!  O  velho
marqus  alm  de  ser  uma pessoa desagradvel,  jamais  gostara de  gastar  a
menor quantia que  fosse para fazer uma benfeitoria para os que trabalhavam
em suas terras.
O  novo  herdeiro  do  ttulo  fora to  esperado!  Sonhavam  que  ele  fosse
diferente  e  que  se  interessasse  pela propriedade  e  pelo  bem-estar  de  tantas


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famlias que serviam na Casa Grande h muitas geraes.
Aquele  povo  precisava de  um  incentivo,  de  algum  que  se  preocupasse
com seu modo de vida, com o que comiam, com o que produziam.
Afinal,  a  vida no  campo  era rdua,  incerta e  precria.  Ningum  podia
prever  se  o  tempo  seria favorvel  ou  se  arruinaria a colheita.  Poderia haver
nevascas  na primavera,  matando  os  cordeiros  recm-nascidos.  A  seca ou
chuva em demasia eram igualmente desastrosas.
Mesmo  o  mais  experiente  e  habilidoso  fazendeiro,  sitiante  ou
arrendatrio,  gostava que  o  senhor  das  terras  estivesse  a par  dos  seus
problemas e lhes desse apoio.
Mas  ningum  conseguiria fazer  com  que  um  homem  ainda jovem  e
amante  dos  prazeres  viesse  a interessar-se  por  sua propriedade  e  pelos  que
nela labutavam.
Delia voltou  a pensar  na irm.  Precisava cuidar  dela.  Jamais  havia
pensado  que  o  marqus  pudesse  interferir  em  suas  vidas  calmas  e  sem
incidentes.
Se  o  marqus  resolver  ficar  na Casa Grande,  preciso  levar  Lucille  para
longe, pensou Delia, decidida.
Em  seguida,  achou  que  estava pintando  as  coisas  mais  pretas  do  que
realmente eram.
Fl  havia dito  que  todos  os  convidados  do  marqus  haviam  partido,  e
ele, naturalmente, no ficaria sozinho na manso.
Mas parecia-lhe estranho o fato de o marqus ter convidado Lucille para
jantar. Um cavalheiro no faria tal convite a uma garota inocente.
Delia assustou-se com seus pensamentos.
Saindo do salo, subiu depressa as escadas, indo ao encontro de Lucille.

































13




CAPTULO II



Montando  seu  cavalo,  Lucille  comeou  a subir  lentamente  a encosta
ngreme  que  conduzia ao  belvedere.  Este  ficava no  alto  da colina e  dali
avistava-se toda a imensa propriedade do marqus.
O belvedere havia sido construdo pelo segundo marqus de Shawforde,
famoso  por  sua excentricidade.  Era um  lugar  aprazvel  com  um  pavilho  em
estilo  oriental  feito  de  alvenaria e  trelia,  tendo  no  centro  uma esttua de
Krishna,  o  deus  indiano  do  amor.  A  parte  superior  do  pavilho  era uma torre
bem alta e estreita quase como a de um farol.
As  crianas  das  vrias  geraes  adoravam  ir  at  o  belvedere,  onde
brincavam de esconde-esconde entre os arbustos que o circundavam e depois
subiam  a escada  em  caracol  com  degraus  de  pedra e  deleitavam-se  com  a
vista panormica dos arredores.
Apesar  da proibio  de  Delia,  Lucille  havia encontrado  o  marqus
novamente, diversas vezes, na pista de corrida.
Na manh anterior ele havia sugerido:
	J que  no  aceitou  meu  convite  para jantar,  poderemos  almoar
juntos, sozinhos, sem ningum saber que nos encontramos.
	Irei  consider-lo  esperto  demais  se  conseguir  encontrar  um  lugar
sossegado nos arredores, sem ter ningum bisbilhotando  respondera Lucille,
olhando sobre os ombros, apreensiva.
	J escolhi o lugar:  o belvedere.
Ela olhou  surpresa para o  marqus,  em  cujo  rosto  havia um  sorriso
triunfal, depois disse alegremente.
	 uma boa idia!
	Meu  pai  manteve  o  lugar  fechado  para o  pblico  em  geral,  o  que
causou grande descontentamento na vila. Portanto, ali ficaremos a ss.
	Tem razo, mas no posso aceitar, novamente, o convite.
O marqus insistiu, argumentou que se encontrariam bem cedo na pista
de corrida, e Lucille, achando impossvel dizer no, acabou cedendo.
Ficou  combinado  que  ela viria pela manh,  como  costumava fazer,  
pista de corrida e casualmente encontraria o marqus.
Delia havia voltado  a censurar  o  vizinho  e,  com  grande  firmeza e
eloqncia, deixara bem claro que a irm no podia, em hiptese alguma, v-
lo novamente, mantendo-se assim a salvo de seus ardis.
Lucille  no  se  deixara convencer  e  depois  que  a  irm  sara,  sentada na
sala, pensava no quanto o marqus era bonito e divertido.
No  colgio  as  colegas  costumavam  contar,  depois  das  frias,  os
incidentes  romnticos  que  lhes  haviam  acontecido.  Lucille  achava  aborrecido
ter  de  ouvir  as  narrativas  das  colegas  empolgadas  e  manter-se  calada,  pois
nada havia de interessante em Little Bunbury ou em suas redondezas.
E agora, que teria tanto o que contar sobre o marqus, fazendo inveja s
colegas, no voltaria para o colgio.
Vou voltar a V-lo, ela pensou,  noite, no escuro de seu quarto.
Com  um  sentimento  de  rebeldia avolumando-se  dentro  do  peito,
adormeceu.
Lucille  acordou  bem  mais  cedo  do  que  costumava e  no  conseguiu

14




permanecer na cama.
L fora,  a manh mostrava-se  radiosa,  e  os  pssaros  cantavam.  Ela
estava decidida a montar Andorinha e praticar saltos de obstculos.
No  porque Delia me probe de ver o marqus que vou arriscar-me a
no vencer a corrida de steeple-chase!, ela pensou.
Participavam daquela corrida os fazendeiros, arrendatrios e senhores de
terras.  Havia tambm  a modalidade  feminina,  que  contava com  excelentes
competidoras.
Naquele ano Lucille estava determinada a ser a vencedora.
Ela levantou-se,  vestiu  depressa uma blusa e  a saia  de  montaria.  No
vestiu o casaco por achar que estava calor. Para no usar chapu ela fez uma
longa trana com os cabelos e enrolou-a na nuca, formando um coque, tendo o
cuidado de prend-lo bem.
Mal  olhando-se  no  espelho  desceu  depressa as  escadas,  o  mais
silenciosamente possvel para no acordar Delia.
Se  aquilo  acontecesse,  iria ouvir  uma vez  mais  as  recomendaes
insistentes para no ver o perigoso marqus. As palavras da irm martelavam
ainda em seus ouvidos:
Se,  por  acaso  encontr-lo,  seja	educada,  mas  volte  para	casa
imediatamente.
Mas  certamente  no  iria encontrar  o  marqus  quela hora da manh,
Lucille pensou. Todavia alimentava um irresistvel desejo de v-lo no parque.
E no ficou desapontada.
O  marqus  j se  achava na pista de  corrida do  parque,  esperando  por
ela.
Vendo  Lucille  cavalgando  ao  seu  encontro,  ele  tirou  depressa o  chapu;
ela achou-o ainda mais lindo.
	No esperava v-lo aqui to cedo!
	Sabia disso. Eu precisava ver voc. Tinha de v-la!
Os  dois  olharam-se  por  um  momento;  no  havia necessidade  de
palavras. Com esforo, Lucille desviou o olhar.
	Minha irm insiste em me proibir de encontr-lo.
	J esperava por isso, mas sabe que temos necessidade de nos ver.
	Eu no devo desobedec-la.
	Por que diz tal absurdo?
	Delia disse que no posso arruinar minha reputao e que, quando eu
for a Londres, ningum me convidar para bailes.
O marqus ficou calado por um instante, depois perguntou:
	E voc, o que acha? Quer mesmo que eu me afaste? Lucille entreabriu
os lbios, prestes a dizer o que o crebro
lhe  ordenava,  mas,  olhando  fixamente  para aquele  homem  fascinante  
sua frente, sentiu-se perdida.
	Ento,  escute.  No  tenho  a menor  inteno  de  mago-la nem  de
compromet-la.  Juro  que  no  faria coisas  desse  tipo!  Fiquei  acordado  a noite
toda pensando  em  voc  e  no  desejo  que  sinto  de  continuar  a v-la.    Antes
que Lucille pudesse contestar, ele prosseguiu:  Algo imperioso me faz vir at
voc;  quero  falar  com  voc;  quero  olhar  para voc!  Temos  tanto  o  que
descobrir um sobre o outro!
Aquele  modo  sedutor  de  falar  fez  com  que  todos  os  bons  propsitos  de


15




Lucille lhe fugissem da cabea.
Ambos  partiram  a galope,  apostando  corrida.  Depois  de  o  marqus  ter
ganhado  duas  vezes  consecutivas,  Lucille  reclamou,  alegando  que  o  cavalo
dele era muito melhor, e ambos trocaram de montaria.
Daquela vez  foi  ela a vencedora.  Apesar  de  sua vantagem  ter  sido
apenas  por  um  nariz,  ela  ficou  exultante,  imaginando  que  jamais
experimentara tamanha emoo.
Por prudncia, o marqus props:
	Se  vamos  continuar  a nos  ver  sem  que  voc  se  arrisque  a ouvir
repreenses,  melhor nos separarmos agora.
Lucille  ia demonstrar  seu  desalento  com  uma exclamao  de  tristeza,
mas o marqus acrescentou:
	Mas preciso encontr-la outra vez, ainda hoje. Onde nos veremos?
	Sei que minha irm ter uma reunio na igreja s trs e meia.
Assim  os  dois  passaram  a encontrar-se  diariamente.  Cavalgavam  ao
amanhecer  do  dia,  certos  de  que  no  eram  vistos.  Sempre  que  era possvel
marcavam  encontros  	tarde,  em  um  dos  bosques  mais  densos  da
propriedade.
Foi  em  um  dos  encontros  que  o  marqus  havia sugerido  o  almoo  no
belvedere. Achando a idia original e divertida, Lucille no recusara o convite.
Para justificar sua sada, ela disse a Delia que iria fazer uma visita a uma
amiga, a filha do delegado do condado.
	Esse  passeio  vai  fazer-lhe  muito  bem    havia dito  a  irm.  
Aproveite para convidar Eileen para o jantar de quarta-feira; poderemos reunir
alguns amigos.
	Pode deixar que a convido.
	Acho  que  Timothy  Bladen  estar em  casa na quarta   disse  Delia,
pensativa.  Tambm poderemos convid-lo.
Delia no  viu  a careta que  Lucille  havia feito,  pois  achava-se  entretida
organizando  uma lista dos  rapazes  que  moravam  nas  redondezas,  para
convid-los, com toda a certeza.
s onze e meia, vestindo seu melhor traje de montaria e usando chapu
para parecer mais formal, Lucille deixou o solar.
Delia viu-a  afastando-se,  muito  elegante  e  extremamente  bonita.  Pela
primeira vez  ocorreu-lhe  que  a irm talvez  no  devesse  ir  fazer  um  passeio
distante desacompanhada de um cavalario.
Lucille, porm, sempre cavalgava sozinha e os dois cavalarios que ainda
mantinham na propriedade j estavam envelhecendo. E o mais importante era
que naquele lugar to pequeno, no campo, todas as pessoas eram conhecidas,
tampouco havia necessidade de protocolo.
Lucille  j   uma moa,  e  creio  que  precisarei  contratar  um  cavalario
mais jovem, pensou Delia.
O  pensamento  foi  apenas  momentneo,  sendo  esquecido  assim  que  ela
entrou  na casa.  Depois  da morte  da me,  ficaram  sob  sua responsabilidade
pequenas, porm inumerveis, tarefas.
Lucille  cavalgara sem  pressa.  Tinha tempo  de  sobra para  chegar  at  o
belvedere e no queria ficar esperando pelo marqus.
Ele  quem deve esperar por mim, pensou.
Viera-lhe  mente o que uma de suas coleguinhas francesas, mais velha


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do que ela, dissera certa vez, ensinando a como atrair um homem.
O maior erro que se pode cometer  dar a impresso de estar correndo
atrs de um homem; faa-o correr atrs de voc! A mulher deve ser evasiva.
Foi o que minha irm me ensinou.
A  irm em  questo  era casada,  mas  o  casamento  havia  sido  arranjado
pelos pais, e a verdade era que ela no amava o marido.
Lucille lembrava-se de ter perguntado, depois de ouvir, fascinada, o que
a colega contara.
	Est dizendo  que,  mesmo  sendo  casada,  sua irm tem  admiradores
correndo atrs dela?
	Isso mesmo!  respondera a garota francesa.  Sua casa, em Paris,
est sempre  cheia de  rapazes  que  lhe  escrevem  poemas,  pedem  para as
criadas  entregarem-lhe  cartas  de  amor  e  um  deles  at  bateu-se  em  duelo
porque um outro homem a insultou.
Tudo o que ouvira lhe soara extraordinariamente romntico, mas Lucille
nunca chegara a pensar  que  algum  dia  pudesse  viver  emoes  daquela
natureza.
Devo  deixar  bem  evidente  que  no  sou  uma  jovem  leviana ou  imoral,
como as mulheres que, segundo Fl, o marqus costuma receber na manso,
pensava ela durante o caminho.
No  era nada difcil  obter  informaes  de  Fl,  que,  quando  encontrava
uma ouvinte interessada, contava tudo o que ouvira, com detalhes.
Mesmo subtraindo s narrativas vividas da criada uma boa porcentagem
de exagero e imaginao, as festas oferecidas pelo marqus pareciam ser pelo
menos  bem  tumultuadas  e,  inegavelmente,  um  contraste  absoluto  com  a
austeridade e pompa que sempre existiram na manso.
Lucille at compreendia que, sendo ainda jovem, o marqus gostasse de
diverses e que pouco se importasse com o que o pessoal simples, do campo,
pensasse dele. Ao mesmo tempo ela era bastante inteligente para no querer,
nem  por  sombra,  que  ele  a comparasse  com  qualquer  uma das  suas
convidadas,  mulheres  que  gostavam  de  danar  nos  telhados,  de  camisola,  e
que  se  divertiam  deslizando  pelos  corrimo  das  escadas,  mostrando  sem  o
menor recato uma boa parte das pernas.
Tendo  estudado  em  um  colgio  em  Paris,  Lucille  podia  imaginar,  at
muito  melhor  do  que  Delia,  o  que  acontecia nas  festas  como  as  do  marqus,
consideradas  indecorosas,  s  quais  compareciam  mulheres  que  ela imaginava
serem uma verso inglesa das cortess francesas.
Apesar de saberem muito pouco sobre tais imprprias criaturas e de ser
proibido falar sobre elas, as internas do colgio iam aumentando cada vez mais
seus  conhecimentos,  repetindo  em  discretos  cochichos  o  que  ouviam  dos
irmos, primos, tios e at mesmo dos pais.
s  vezes  elas  encontravam  fotografias  dessas  mulheres  em  revistas  e
jornais.  Sempre  conseguiam  lev-las  para o  colgio,  s  escondidas  e  as
fotografias eram passadas a todas as amigas.
Desse modo, Lucille sabia muito bem que havia uma linha divisria entre
uma lady e uma cortes e que ambas nunca poderiam estar ligadas.
Subitamente  ocorreu  a Lucille  o  que  Delia havia dito  sobre  o  marqus
estar noivo de uma jovem de famlia muito importante. Sendo assim, ela devia
ter muito cuidado, comportar-se bem e mostrar que era uma lady.


17




Todavia,  parecia-lhe  impossvel  que  o  marqus  pudesse  pensar  a
respeito dela qualquer coisa que no fosse digna. Afinal ela era filha do coronel
Winterton, um homem que tinha orgulho de seus antepassados.
O  marqus  de  Shawforde,  no  entanto,  na hierarquia  nobilirquica
achava-se  a apenas  um  degrau  de  realeza.  Era normal  que  considerasse
qualquer pessoa hierarquicamente inferior de pouca importncia.
Essa mesma atitude  era comum  entre  os  aristocratas  franceses.  Pelo
menos  metade  das  suas  colegas  do  colgio  certamente  j haviam  sido
destinadas  a determinados  maridos,  escolhidos'  de  acordo  com  os  interesses
dos pais.
Uma linhagem  antiga no  podia ser  arruinada com  sangue  plebeu.  Ao
saber  disso,  Lucille  achara que  aquele  era um  costume  estrangeiro  e  ficou
chocada ao descobrir que o mesmo acontecia na Inglaterra.
Ao  aproximar-se  do  belvedere,  ela sentiu-se  culpada  por  comportar-se
como uma colegial cabulando aulas e por enganar Delia, a quem tanto amava.
No  mesmo  instante  justificou-se,  achando  que  no  fazia  nada errado  e
que tinha certeza de que seria tratada com todo o respeito pelo marqus.
No h mal nenhum em passar algumas horas no campo em companhia
de  um  cavalheiro  agradvel,  ela pensou,  tentando  aplacar  a conscincia.
Tenho to pouca coisa para fazer at ir para Londres!
Subitamente seu corao deu um salto; reconheceu o cavalo amarrado a
uma rvore.  O  marqus  j havia chegado  e  certamente  a  observara o  tempo
todo enquanto subia a colina.
Lucille fez o cavalo parar e viu o marqus surgir  sua frente, saindo do
meio de uns arbustos.
Ele ergueu-a da sela, colocando-a no cho.
Um estremecimento percorreu-lhe todo o corpo. As mos dele pareceram
segur-la pela cintura por mais tempo do que o necessrio.
	Voc veio mesmo! Tive medo de que alguma coisa pudesse impedi-la.
	Detesto mentir, mas tive de faz-lo.
	Est adorvel! To adorvel que chego a pensar que voc no  real.
	Sou  bem  real  e  estou  faminta!    disse  Lucille  sorrindo.    Estive
imaginando como voc iria conseguir trazer nosso lanche para c sem ningum
saber.
 Fui muito esperto  disse ele sem modstia.  Avisei o mordomo de
que  pretendia dar  uma volta para explorar  a propriedade  e  que  queria levar
um  lanche  comigo.  Pedi-lhe  que  ordenasse  ao  chef  para embalar  o  que
tivssemos de gostoso e em quantidade suficiente para eu repartir com algum
fazendeiro ou outra pessoa com quem estivesse conversando no momento.
Lucille riu, e ele acrescentou:
	Vamos! Veja o que a espera e diga se no fui mesmo talentoso!
No degrau de mrmore sobre o qual Krishna danava, estava espalhado
o que o marqus trouxera para aquele almoo no campo.
Havia ali  iguarias  que  ela certamente  no  teria comido  ao  almoo,  no
solar.  Alm  de  uma grande  variedade  de  queijos,  Lucille  viu  caviar,  pat  de
foie gras e aspic de galinha.
O  chef,  obviamente,  escolhera um  lanche  apropriado  para um  homem,
no esquecendo uma garrafa de champanhe.
	Um banquete dos deuses!  exclamou Lucille.


18




	E  tambm  de  uma deusa!    o  marqus  acrescentou.  Lampejou  pela
cabea de Lucille  que era assim  que desejava que ele a imaginasse. Sentindo
calor, ela tirou o casaco e o chapu.
	O que fez desde que nos vimos pela ltima vez?  ela perguntou.
O  marqus  a olhava fixamente  e  Lucille  achou  difcil  falar  sobre
frivolidades.
	Fiquei pensando o tempo todo em voc e esperando encontr-la aqui.
	Sinto-me  lisonjeada,  ao  mesmo  tempo  espero  que  tenha dado
ateno ao que lhe disse ontem.
  Sobre  conhecer  os  fazendeiros  e  arrendatrios  e  sobre  interessar-me
pelos que trabalham em minhas terras? Se for isso, visitei um deles ainda esta
manh.
  mesmo? Que bom!
	Estive com Jackson, um homem muito agradvel. Ele falou-me sobre
seus problemas, e prometi-lhe mandar fazer os reparos necessrios nas casas
dos colonos e no telhado da casa dele.
  Que  notcia maravilhosa!    exclamou  Lucille  juntando  as  mos.  
Tenho certeza de que todos reconhecero que tm agora um senhor de terras
que  se  importa com  eles.  Mas  h muitas  outras  coisas  que  exigem  sua
ateno.
Lucille  achou  que  havia sido  bastante  habilidosa em  descobrir  o  que
precisava ser  feito  com  mais  urgncia nas  terras  do  marqus.  Depois
conseguira que ele se interessasse pelos que trabalhavam naquelas terras.
J comeava a colher  os  frutos  de  seu  trabalho.  O  marqus  mostrava
que podia ser um bom patro e estava ficando mais tempo na Casa Grande.
Por  intermdio  de  Fl,  ela ficara sabendo  que  os  criados  da manso
estavam  estranhando  a atitude  do  marqus;  ele  parecia contente  em
permanecer ali sozinho, sem os amigos.
	A  sra.  Geary  acha que  ele  est apaixonado    havia dito  Fl.    Mas
certamente  no  escolher para esposa nenhuma das  criaturas  que  costuma
receber na Casa Grande.
	Por que no?  perguntara Lucille, fingindo inocncia.
	Porque essas mulheres no so do tipo de uma senhora distinta, como
sua me,  por  exemplo,  gostaria que  a  filha  viesse  a  conhecer.  E    bvio  que
nenhum cavalheiro tem necessidade de se casar com uma mulher dessas.
Mesmo  sendo  uma  tagarela incorrigvel,  Fl  percebera que  havia sido
indiscreta demais  e  voltou  a cuidar  da limpeza da lareira,  Agora,  sentada no
degrau inferior, Lucille perguntou:
	Podemos  comear  a nos  servir?  Confesso  que  estou  com  grande
apetite.
	Gostaria de poder pintar o seu retrato. No me ocorreu que este lugar
fosse to apropriado para nosso encontro.
	Apropriado? Por qu?  ela perguntou, servindo-se dei um pouco de
caviar.
	Por que  o templo do deus do amor.
Lucille  ergueu  a cabea e  ficou  olhando  para o  deus  danante,  j um
pouco  danificado  pela ao  do  tempo.  Havia nele,  porm,  uma grande  fora
expressiva.
Observando-o,  notava-se  que  ele  personificava a alegria e  a juventude,


19




qualidades que os hindus associavam ao deus Krishna.
	Talvez Krishna nos esteja dando a sua bno  observou o marqus.
	Duvido.  bem mais provvel que ele reprove meu modo de agir.
	Que tolice!
	Ontem  noite fiquei pensando durante muito tempo sobre o que Delia
me  disse  e  achei  que  minha irm tinha razo.  Se  qualquer  um  dos  nossos
vizinhos souber que estive aqui com voc, condenar meu comportamento.
	Por que algum deveria saber?
	At  mesmo  as  abelhas  e  os  pssaros  do  campo  podem  ser
bisbilhoteiros. Francamente, estou assustada.
	Est tentando  dizer  que  no  pretende  mais  me  ver?    indagou  o
marqus, com um tom estranho de voz.
	Claro  que  desejo  v-lo.  Seria muito  aborrecido  ficar  neste  lugarejo
sem ter voc por perto. Ao mesmo tempo, devemos ser prticos.
	Essa ltima palavra,  sim,    extremamente  aborrecida.  Da mesma
categoria so: sensato, razovel e, claro, fazer a obrigao!
Sem poder evit-lo, Lucille comeou a rir.
Depois do delicioso lanche e de ter tomado um pouco de champanhe, ela
sentia-se diferente. Estava decidida a apostar no futuro.
Ela jogou  as  migalhas  para os  pssaros,  enquanto  o  marqus  atirou  a
garrafa de  champanhe  para bem  longe,  entre  os  arbustos,  para no  ser
encontrada facilmente.
Lucille  foi  apanhar  o  casaco  e  o  chapu;  enquanto  a  acompanhava,  o
marqus lhe disse:
	Diga se gostou do nosso piquenique.
	Foi adorvel!
	Poderemos fazer outro, qualquer dia destes?
Havia ansiedade  na voz  dele.  Ela virou-se  e  ficou  parada entre  duas
colunas, olhando para a paisagem ensolarada.
	Pensei que precisasse voltar para Londres.
	No pretendo deix-la!
Vendo que Lucille ficara em silncio, ele exclamou:
	Oh, pelo amor de Deus, Lucille, sabe que estou apaixonado por voc!
No consigo pensar nada mais, a no ser voc, e quando no se acha ao meu
lado  fisicamente,  fica dentro  de  mim,  em  minhas  lembranas,  em  meus
pensamentos!
Lucille virou-se, lentamente.
	O que est dizendo?
	Ser que  preciso  repetir?  Amo-a e  desejo,  como  nunca desejei  na
vida, beijar voc!
Ele estendeu os braos, mas ela afastou-se.
	No!
	Por que no?
	Porque  nunca fui  beijada,  mas  sei  instintivamente  que  no  devo
fazer isso. Seria um erro.
	Um erro? Por qu?
	Estamos sozinhos aqui e devo saber cuidar de mim mesma,
	Como  pode  dizer  isso?  Estou  aqui  e  cuidarei  de  voc.  Prometo  que
no a magoarei. Amo-a demais, Lucille, e tenho de v-la! Tenho de estar com


20




voc!
Mais uma vez ele tentou enla-la em seus braos, mas viu-a escapar.
Ento ela pegou a chapu e o casaco, encaminhando-se para a porta. O
marqus no a seguiu: ficou observando-a e, quando ela ia saindo, perguntou:
	Para onde voc vai?
	Para casa.
	Por qu?
Lucille permaneceu um instante em silncio, depois respondeu
	Porque  um  sentimento  que  eu  considerava	apenas  uma
camaradagem, est ficando srio e isso  um engano.
	No que me diz respeito, no h engano, nenhum, e eu sei exatamente
que no est sendo sincera. Pensa numa coisa e diz outra.
Ela ergueu  os  olhos  e  fitou-o.  Durante  alguns  segundos,  nenhum  dos
dois  se  mexeu,  ficaram  se  olhando  em  silncio.  Em  voz  baixa e  suave,  o
marqus disse:
	Nunca fiz  isto  antes  em  minha vida,  mas  vou  pedir-lhe  uma coisa,
Lucille: quer ser minha esposa?

As portas duplas abriram-se e o mordomo anunciou:
	Lorde Kenyon Shaw, milady!
A  condessa de  Dulwich  levantou-se  com  uma exclamao  	alegria ao
ver o irmo entrando na sala.
  Kenyon!  S  ontem   noite  fiquei  sabendo  que  se  achava de  volta e
nem tenho palavras para dizer-lhe o quanto estou feliz em v-lo!
Os  dois  irmos  estavam  agora bem  prximos,  e  lorde  Kenyon  beijou  o
rosto de Charlotte, dizendo com um sorriso:
	Recebi  seu  bilhete.  Por  que  mandou  me  dizer  que  precisava ver-me
com  urgncia?  O  que  aconteceu?  Meu  cunhado,  a  quem  tenho  em  alta
considerao, teria fugido com uma danarina da noite?
	Ora,  Kenyon,  Lionel  nem  pensaria  em  fazer  algo  to  repreensvel  
respondeu  a condessa,  parecendo  chocada.  Percebendo  depois  que  o  irmo
apenas  a provocava,  observou:    Est com  uma  tima  aparncia,  Kenyon,
apenas um pouco magro. O que tem feito?
	Na verdade, tenho tido bastante servio, por isso no pude vir antes.
E ainda sou obrigado a suportar o calor da ndia.
Ele sentou-se em uma poltrona confortvel enquanto falava. A condessa
observava o  irmo,  achando  que  seria  impossvel  um homem  ser  mais  bonito
ou atraente do que ele.
O  terceiro  marqus,  pai  de  ambos,  tivera quatro  filhos:  dois  rapazes  e
duas garotas. Todos eles lindos.
As  duas  garotas  tornaram-se  adolescentes  e  depois  adultas,  sendo
sempre aclamadas por sua beleza, e ambas fizeram excelentes casamentos.
O  mais  jovem  da famlia era lorde  Kenyon,  que  contava  no  momento
trinta e trs anos.
Sendo o caula, ele havia sido o dolo dos irmos mais velhos; as irms,
principalmente, sempre o mimaram demais, desde o nascimento.
J adulto,  se  eram  verdadeiros  os  relatos  sobre  Kenyon,  um  grande
nmero  de  lindas  mulheres  tambm  se  havia empenhado  em  deix-lo  mal
acostumado.


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Mas lorde Kenyon, desde que deixara Eton, no quis saber da vida social
que  tanto  fascinava  suas  irms.  Tampouco  quis  imitar  o  irmo  mais  velho,  o
quarto marqus, que seguira carreira diplomtica.
Lorde Kenyon optou pela carreira militar.
Na ndia,  tendo  sido  encarregado  de  tarefas  especiais,  passou  a ter
tanto interesse por seu trabalho que raramente visitava a Inglaterra.
Agora, ali se achava, em seu pas.
	O que o trouxe de volta?  perguntou-lhe a irm.
	No posso responder a essa pergunta.
	S posso deduzir que esteve em perigo novamente. Lions contou-me
que  voc  foi  brilhante  na ajuda prestada ao  vice-rei  e  que teria ganhado  pelo
menos meia dzia de medalhas se que fez no fosse em misso secreta.
	Lionel  devia	aprender  a	ficar  calado!    lorde  Kenyon  disse
firmemente.
	Posso lhe assegurar que Lionel  a discrio em pessoa e o que disse
ficou apenas entre ns dois.
	O que quer que tenha ficado sabendo, jamais comente com ningum
 advertiu o irmo.
	Sabe  muito  bem  que  no  sou  uma pessoa leviana.  Mas  seja sincero
comigo, correu muito perigo, no?
	s  vezes  me  encarrego  de  misses  bem  perigosas!  No  momento
recebi  ordens  de  voltar  para o  meu  pas  e  ficar  bem  quieto.  Isso  responde  
pergunta que fez quando cheguei. Mais que isso, no posso dizer.
A condessa deu um profundo suspiro.
	Espero que tudo o que tem feito e os riscos que vem correndo valham
a pena e  que  o  Imprio  reconhea seu  valor  e  sacrifcio.  No  desejo  que
nenhum mal lhe acontea, Kenyon, isso me mataria de desgosto.
	Bem, at o momento nada me aconteceu. Aqui estou, so e salvo.
Embora falasse  com  um  ar  despreocupado,  lorde  Kenyon  pensava que
no  morrera por  questo  de  dcimos  de  segundo  quando  realizara sua ltima
faanha como  elemento  do  que  os  inglesa da ndia chamavam  de  O  Grande
Jogo.
Ele  sabia que  aquela urgncia  em  mand-lo  de  volta  para seu  pas
significava que se tornara um homem marcado.
Lorde  Kenyon  conseguira entrar  disfarado  no  Afeganisto  descobrindo
assim os planos dos russos para causar agitao em toda a fronteira noroeste.
Aquele seria o primeiro passo para a invaso da ndia.
A  misso  de  lorde  Kenyon  fora um  triunfo,  mas  s  o  vice-a e  os  chefes
do  estado-maior  souberam  dela.  A  portas  fechada|  o  vice-rei  dissera ao
valoroso oficial:
	Por  justia voc  deveria ser  condecorado  por  bravura.  Mas,  como
elemento d'O Grande Jogo, deve ficar no anonimato, por isso agradeo-lhe do
fundo do corao por ter salvado a vida de nossos soldados e, quem sabe, por
ter salvado a prpria ndia.
Lorde  Kenyon  voltara para a sua ptria com  aquelas  palavras  ecoando
nos ouvidos.
Agora,  na casa da irm,  depois  de  ter  passado  com  sucesso  por  tantos
perigos, tentava imaginar, achando aquilo tudo muito divertido, que problema
estaria afligindo a condessa para ela ter-lhe escrito um bilhete solicitando sua


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presena com urgncia.
O  que  poderia sua querida irm querer  para pedir-lhe  que  viesse  v-la
imediatamente?
Antes que ele fizesse qualquer pergunta, a porta abriu-se e o mordomo,
um  senhor  j de  cabelos  grisalhos,  que  se  achava  trabalhando  naquela casa
desde  que  a condessa se  casara,  entrou  trazendo  uma  bandeja de  prata com
uma garrafa de champanhe e duas taas.
Ele serviu lorde Kenyon, mas a condessa aceitou apenas um pouquinho.
Erguendo a taa, lorde Kenyon fez um brinde:
	A voc, Charlotte e  alegria de estar de volta!
Depois de tomar um pequeno gole de bebida, ele depositou a taa sobre
a mesinha que estava ao seu lado.
	Agora, Charlotte, conte-me o que a preocupa.
	 sobre Marcus, e sei que isso no o surpreende.
Lorde Kenyon sorriu.
	O que o rapaz andou fazendo desta vez? Espero que ele esteja apenas
cometendo  as  loucuras  da juventude  e  acho  que,  se  for  isso,  no  tem  nada
demais.
	Loucuras  da juventude!  Voc  nem  faz  idia do  que  esse  rapaz  tem
feito. Seu comportamento  pssimo.
	Ser melhor me contar tudo.
Ele acomodou-se mais confortavelmente em sua poltrona, pensando que
suas irms sempre faziam uma tempestade num copo d'gua.
Seu  sobrinho  herdara o  ttulo  ainda muito  jovem,  com  apegas  vinte  e
dois  anos;  era de  esperar  que  quisesse  pr  fogo  na  cidade.  Mas  ele  estava
passando apenas por uma fase e logo ficaria curado.
Quando a cunhada de lorde Kenyon, a marquesa de Shawforde, deixou o
marido,  levando  o  filho  consigo,  fora para Northumberland  e  ali  o  havia
educado at uma certa idade.
Marcus  tivera preceptores  em  vez  de  ir  para Eton,  onde  o  pai  e  o  tio
haviam  sido  educados.  Mais  tarde  ele  fora para uma tima  escola em
Edimburgo,  pois  a marquesa achava  que  aquela escola  era mais  rigorosa do
que qualquer uma das do sul.
Lorde  Kenyon  era um  grande  observador  e  profundo  conhecedor  do  ser
humano. No fosse a sua percepo, seus feitos no teriam sido to brilhantes.
Portanto, ele havia previsto que, ao completar a maioridade o sobrinho,
achando  que  era senhor  de  si,  tornar-se-ia um  rebelde.  Lorde  Kenyon  no  se
enganara.
Marcus  fora reprimido  desde  criana e  sempre  achara  a vida tediosa;
aquilo o levara a esperar com ansiedade a hora de libertar-se.
Aos vinte e dois anos, depois da morte do pai, Marcus tornou se o quinto
marqus  de  Shawforde.  Surgia,  afinal,  sua liberdade,  e  sua me  no  podia
mais cont-lo.
Bem  humorado,  lorde  Kenyon  ouviu  a irm relatar  os  primeiros
escndalos do marqus.
Ela falou sobre as festas ruidosas e, logicamente, sobre as mulheres com
quem Marcus se envolvia. Estas iam desde as danarinas da Drury Lane at a
linda lady Swinneton, a qual parecia achar o marqus cativante.
O marido, lorde Swinneton, tinha toda a razo de estar furioso.


23




Nada do  que  foi  contado  causou  surpresa a lorde  Kenyon,  at  sua irm
dizer:
	Mas o pior ainda no contei! Vai ficar to chocado quanto eu!
	Pior?
	H j algum  tempo  estou  planejando  o  casamento  de  Marcus  com  a
filha do duque e da duquesa de Cumberland. Naturalmente voc deve lembrar-
se de que Emily Cumberland sempre foi uma grande amiga minha, e sua filha
  to  adorvel  quanto  a me.  A  jovem    linda,  tem  maneiras  elegantes,  
refinada e ser este ano a debutante mais notvel.
	O que diz Marcus sobre tudo isso?
	Ele acha que seria uma boa unio,  especialmente por Sarah ser uma
excelente  amazona e  por  conduzir  com  percia seus  ces  de  caa.  Marcus
tambm concorda em que ela  quase to admirvel quanto ele prprio.
	Ento, o que h de errado?
	Marcus e Sarah iriam anunciar seu noivado no jantar solene que eu ia
oferecer esta semana, mas ele foi para o campo dez dias atrs e at agora no
voltou.
Lorde Kenyon pareceu intrigado, e a irm continuou:
	Uma pessoa em  quem  confio  contou-me  que  o  pobre  rapaz  caiu  nas
garras de uma garota do campo, uma qualquer, que mora perto da manso e,
embora eu  mal  possa acreditar,  parece  que  Marcus  est cego,  pois  at  acha
que se apaixonou por ela.
	Uma qualquer! Mas no faz sentido! No est de acordo, pelo que eu
saiba, com o bom gosto que meu sobrinho tem demonstrado ultimamente.
	Seja sensato,  Kenyon    retrucou  a condessa em  tom  severo.    O
rapaz    impulsivo  e  pode  ter-se  deixado  envolver  por  uma garota  esperta e
completamente diferente das que encontra em Londres.
Com voz cortante ela acrescentou:
	Ela deve ser ardilosa e inteligente o bastante para t-lo persuadido a
se casar com ela.
 Se for assim, tal casamento ser um erro.
	Um  erro?    a condessa gritou.    Ser um  desastre!  Sabe  to  bem
quanto  eu  que,  embora tendo  defeitos,  os  Shaw,  em  toda a sua histria,
jamais  mancharam  ou  desonraram  nossa linhagem.    verdade  que  j houve
alguns  escndalos.  Seu  tio-av  manteve  uma atriz  durante  muitos  anos,  mas
no se casou com ela.
Notando  que  o  irmo  no  parecia estar  impressionado  o  bastante,  ela
lembrou com a voz cheia de orgulho:
	Basta olhar  em  nossa rvore  genealgica para constatar  que  todo
marqus  de  Shawforde  teve  como  esposa uma mulher  do  mesmo  nvel  social
que o dele.
Como se adivinhasse o que o irmo pensava, ela fez um aparte:
  Reconheo,  naturalmente,  que  a me  de  Marcus  procedeu  muito  mal
separando-se  de  George,  mas  ela era  filha de  um  conde,  alm  de  ser  muito
rica. Suponho que devemos perdo-la.
	No  estou  pondo  em  dvida que  Marcus  tenha sido  muito  bem
cuidado.  Sempre  demonstrou  ter  bero  e  ter  tambm  muita inteligncia.  Por
essa razo, no acredito que seja to estpido a ponto de fazer um casamento
com uma mulher de baixo nvel, de quem ele acabaria se envergonhando.


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 Mas  exatamente o que ele est tentando fazer. Foi por isso que lhe
pedi  para vir  ver-me  com  urgncia.  No  h outra pessoa melhor  do  que  voc
para conversar com Marcus!
	Por que eu?
	Ora, no seja tolo, Kenyon! Marcus sempre o admirou.
 Lorde Kenyon deu um sorriso discreto e no quis interromper.
	Sempre  mantive  correspondncia  com  nosso  sobrinho,  pois  ele
morava no  norte  e  quase  no  nos  vamos.  Posso  assegurar-lhe  que  Marcus
sempre  achou  que  voc  era o  nico  membro  da famlia  que  fazia coisas
interessantes.
	Para ele  saber  a  meu  respeito,  certamente  voc  lhe escreveria sobre
mim.  Ele franziu as sobrancelhas.  Espero que no tenha sido indiscreta!
	Claro que no, contava-lhe que voc era tido em grande considerao
na ndia e que trabalhava pelo nosso pas. Toda vez que Marcus vinha me ver
em Londres, a primeira pessoa sobre quem perguntava era voc.
A condessa ia dizer, mas parou a tempo, o que Marcus havia perguntado
algum tempo atrs:
	O  que  tio  Kenyon  andou  fazendo?  Ouvi  comentrios  no  clube  de  que
os russos esto querendo a cabea dele. Tambm disseram que ele  mais do
que um mestre em matria de disfarces.
Se  a condessa fizesse  uma observao  desse  tipo,  sabia que  deixaria o
irmo furioso. Assim, prudentemente limitou-se a acrescentar:
	Procure  compreender;  nosso  sobrinho  nunca via o  pai  e  passou  a
admirar o tio.  por isso que s voc poder falar com ele.
	Francamente,  diante  disso,  at  sinto  o  peso  dos  meus  anos  Voc
parece  ter  esquecido  que  George  era vinte  anos  mais  velho  do  que  eu  No
acredito que me parea com um pater-familia
	No  importante o que voc parea ou deixe de parecer. O que tem a
fazer  apenas ir  manso e descobrir o que est acontecendo.
	Pois no tenho a menor vontade de fazer isso.
A  condessa ignorou  as  palavras  do  irmo  e  continuou  a dar  suas
instrues.
	Se essa tal garota estiver mesmo tentando agarrar Marcus, vamos ter
de pagar para ela desaparecer do caminho dele.
 Como pode ter certeza de que tudo no passa de um engano?
A  condessa ficou  pensativa por  um  instante  e  decidiu  contar  ao  irmo
como ficara a par do envolvimento do sobrinho.
	Tenho  razo  para no  duvidar  do  que  lhe  disse.  Minha criada de
quarto,  que  j trabalha comigo  h mais  de  trinta anos,    irm de  Jones,  a
encarregada da criadagem  em  Shaw.  Voc  deve  lembrar-se  de  Jones,  uma
mulher esqueltica e sombria, mas excelente no desempenho de suas tarefas.
	Eu  j devia ter  imaginado  que  voc  andou  prestando  ateno  a
mexericos de criados!  disse lorde Kenyon com ironia.
	Jones  no    apenas  uma criada!    quase  uma pessoa da famlia;  j
est conosco  h anos.  Foi  ela quem  manteve  Shaw  sempre  bem  cuidada
quando  George  passava o  maior  tempo  fora,  em  algum  lugar  remoto,  no
Oriente.  Eu  mesma constatei  que  a  manso  continuava  a mesma quando
estive  l,  no  funeral  de  nosso  irmo.  Tudo  estava como  nos  tempos  de
mame, e graas  dedicao e cuidados de Jones.


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	E Jones sabe quem  a tal mulher?
	Sim.  O  sobrenome  dela   Winterton.  At  pensei  ter  conhecido  os
Winterton,  mas  no  posso  ter  certeza.  Mas  eles  no  so  pessoas  de
importncia, naturalmente.
Ela fez um gesto com as mos.
	Seria um  desastre,  um  completo  e  absoluto  desastre  se  Marcus  se
casasse com uma jovem que no soubesse comportar-se como a marquesa de
Shawforde  concluiu a condessa.
	Nesse  ponto  concordo  com  voc.  Certamente  no  queremos  um
divrcio na famlia, ou outra separao, como a dos pais de Marcus.
	Nem  pense  em  algo  to  terrvel    ela gritou,  alarmada.    Um
divrcio, principalmente, seria uma humilhao para todos ns!
	No    nada confortvel  ter  que  ir  at  Shaw  depois  da viagem
cansativa que  acabo  de  fazer  para voltar   ptria,  mas  farei  o  que  me  pede.
Amanh mesmo estarei com Marcus e saberei o que se passa.
Suspirando, ele levantou-se.
	Espero  que  esteja fazendo  uma tempestade  em  um  copo  d'gua  e
que as intenes de Marcus no sejam srias.
	Queira Deus  que  seja apenas  isso!    disse  a condessa com
veemncia.  Muito obrigada, Kenyon, querido, sei que posso contar com sua
ajuda para nos salvar!








































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CAPTULO III



Lucille olhou fixamente para o marqus; parecia no ter entendido o que
ele acabara de dizer. Ele aproximou-se mais e ela perguntou, incrdula:
	Voc perguntou mesmo se eu queria ser sua esposa?
O marqus envolveu-a em seus braos.
	Amo  voc!  Amo-a demais  e  tenho  certeza  de  que  jamais  senti  uma
emoo to forte como a que estou sentindo.
Os dois apenas se olharam.
Surpreendendo-a,  ele  a beijou  suavemente,  como  se  tivesse  medo  de
tocar-lhe os lbios.
Um estremecimento percorreu todo o corpo de Lucille.
Eles  permaneceram  algum  tempo  abraados,  como  se  fossem  duas
crianas  que,  depois  de  ficarem  amedrontadas  no  escuro,  subitamente
sentiram-se seguras de novo.
O marqus tornou a beij-la at que, desviando a cabea, ela conseguiu
dizer:
	No! Por favor no!
	Por que no? Este  o momento mais maravilhoso que j vivi.
	Voc no pode se casar comigo!
	Tenho  a mais  firme  das  intenes  de  faz-la minha esposa!    ele
disse com emoo na voz.
	Delia me disse que j est noivo de outra.
O marqus apertou-a mais fortemente.
	Mesmo  que  eu  estivesse  noivo  ou  casado  com  cinqenta mulheres,
no deixaria de am-la e desej-la!
A voz do marqus soou forte e ecoou por todo o belvedere. Olhando para
ele,  Lucille  pareceu  ver,  subitamente,  junto  dela um  homem  mais  velho  e
senhor  de  si,  diferente  do  rapaz  que  estava acostumada a ter  em  sua
companhia.
Mas precisava saber a verdade.
	 verdade que est noivo?
	No  estou  noivo!    respondeu  ele,  zangado.    Mas  minha tia est
querendo  forar-me  ao  casamento;  ela  vive  fazendo  planos  para mim  desde
que meu pai morreu.
	E voc concorda com tais planos?
	Apenas digo que vou pensar no assunto. Agora, por exemplo, ela vai
oferecer  um  jantar  ao  qual  estar presente  uma bonita  jovem,  e  prometi  no
faltar a esse jantar. Isso  tudo!
Lucille  afastou-se  de  seus  braos.  Sentindo  que  mal  podia ficar  em  p,
sentou-se no degrau onde eles haviam almoado.
O  marqus  sentou-se  ao  lado  dela e  ficou  olhando-a;  a expresso  em
seu rosto revelava que ele estava sendo sincero. Tomando a mo dela, beijou-
a, dizendo depois:
	Meu  amor  por  voc    to  imenso  e  to  verdadeiro  que  nada,  nem
ningum, ir impedir-me de faz-la minha esposa.
	Teremos de pensar no assunto.
	Por  qu?    preciso  pensar  em  alguma coisa?  Eu  a amo  e  voc  me

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ama. Seremos muito felizes.
Depois de um sorriso, ele acrescentou:
	Vou tornar-me o melhor senhor de terras, o mais compreensivo deste
condado, e voc ter orgulho de mim.
	J sinto orgulho de voc pelo seu esforo. Mas Delia tem razo sua
famlia jamais me aceitar.
Surpresa, ela viu o marqus rir.
	Ningum  me  aceitou  ou  se  preocupou  comigo  antes  de  meu  pai
morrer.
	Ouvi dizer que voc morava no norte  Lucille murmurou
	Eu  vivia mais  ou  menos  preso  l no  norte,  ao  lado  de  minha  me.
Como eu provavelmente no herdaria o ttulo to cedo, pois todos acreditavam
que  papai  viveria muitos  anos,  ningum  mantinha contato  comigo,   exceo
de tia Charlotte, que me escrevia.
	Achava-os indelicados?
	Indiferentes    a	palavra	exata.  Mas  tudo  mudou  quando
descobriram que podiam obter algo de mim.
	Est sendo ctico!
	No  sou  um  ctico,  mas  acho  divertido  ver  como  todos  me  adulam
agora que sou muito rico, alm de ser o chefe da famlia.
Lucille  no  fez  nenhum  comentrio.  Olhava para longe,  e  o  marqus,
notando a expresso em seu rosto, perguntou, ansioso:
	Em que est pensando?
	Mais  uma vez  acho  que  Delia estava certa quando  me  disse  que
aristocratas s se casam com aristocratas. Embora meu pai sempre tenha tido
muito  orgulho  de  seus  antepassados,  suponho  que  eles  no  podem  ser
comparados com os seus.
	No estou querendo me casar com seus antepassados, mas com voc!
Lucille suspirou.
	Mas sei o que seus parentes vo dizer.
	E o que eles diro?
	Em  primeiro  lugar,  que  voc    to  importante  e  to  rico  que  pode
escolher  para esposa a filha de  um  duque;  em  segundo,  que  eu  sou  jovem
demais e nem sei o que quero.
O marqus abraou-a novamente.
	Voc  me  ama,  Lucille?  Diga se  me  ama pelo  que  sou  e  no  por  meu
ttulo.
	Amo voc por ser o homem mais atraente que j conheci, mas sei que
eles diro que no tenho experincia alguma com os homens e que no posso
estar certa de meus sentimentos.
	Quem so eles?
	Bem,  Delia principalmente.  Meus  pais  morreram  e,  alm  de  minha
irm, no tenho mais ningum para cuidar de mim.
	Eu tomarei conta de voc  disse o marqus com ardor.  Mas, se a
sua irm quiser mesmo que v para Londres, talvez eu venha a perd-la.
	E vai achar isso timo  ela disse em tom provocador. Ele seguro-
lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto, fazendo-a fit-lo.
	Oua: desde o primeiro instante em que nos vimos, ambos soubemos
que  algo  havia acontecido  entre  ns.  De  minha Parte,  assegurou-lhe  que  a


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emoo daquele momento foi inigualvel.
Lucille  respirou  fundo,  como  se  aquelas  palavras  descrevessem
exatamente o que ela ento sentira.
	Voc  minha! Estou disposto a lutar por voc, a matar Quem quiser
tir-la de mim!
O  ardor,  a violncia e  a sinceridade  que  traduzia aquela voz  fizeram  o
corao  de  Lucille  saltar  dentro  do  peito.  Sempre  sonhara encontrar  um
homem como o marqus: veemente e dominador.
Como  ele  era diferente  dos  rapazes  vazios  e  medocres  que  Delia  ia
convidar para o jantar!
Lucille tivera contato com aqueles rapazes durante as frias, em caadas
ou  algumas  festas,  e  sempre  achava que  eles  a olhavam  com  o  que  ela
costumava chamar de olhos de carneiro.
Tambm  havia conhecido  irmos  de  suas  colegas  francesas  e  em  geral
achara-os no muito diferentes dos rapazes de sua terra.
O marqus era sem igual!
No  era apenas  a beleza fsica do  marqus  ou  a aura  que  havia ao  seu
redor,  devido   sua posio,  que  a  atraa tanto.  Havia,  como  ele  mesmo
dissera,  uma  ligao  entre  ambos.  Ela  sentira aquilo  no  primeiro  instante  em
que  se  encontraram  na pista de  corrida do  parque  e  notara essa ligao
estreitando-se mais e mais a cada momento em que se achavam juntos.
	Em  que  est pensando?    perguntou  ele  novamente,  como  se
sentisse a resistncia dela.
	Estava pensando  que  se  estamos  decididos  a continuar  juntos,
devemos ser cautelosos.
	No  seria bem  mais  simples  irmos  juntos  contar  a sua irm que  nos
amamos e que desejo casar-me com voc?
	Se fizermos isso, tenho certeza de que Delia me levar daqui.
	Como sabe que ela faria isso?
	Sempre  fomos  muito  unidas  e  posso  at  saber  o  que  ela est
pensando.  Quando  nos  vimos  pela primeira vez,  contei-lhe  sobre  nosso
encontro;  repreendeu-me  e  proibiu-me  de  tornar  a v-lo.  Sei  que  nesse
momento  pensava em  afastar-me  daqui,  caso  eu  insistisse  em  continuar  a
encontr-lo.
	Temos de evitar que isso acontea!
	  por  esse  motivo  que  acho  que  devemos  ter  cuidado  para ela no
desconfiar de nada.
Lucille deu um profundo suspiro.
	Ao  mesmo  tempo,  no  podemos  viver  numa felicidade  ilusria,
acreditando que ningum sabe o que estamos fazendo.
	O que quer dizer com isso?
	Quero  dizer  que  neste  lugarejo  h olhos  per  todos  os  lados  e,  mais
cedo  ou  mais  tarde,  um  dos  criados  ou  outra pessoa ir contar  a Delia sobre
nossos encontros.
Notando a preocupao dela, o marqus puxou-a para bem junto de si.
  Se  pensa que  algum  pode  tir-la de  mim  ou  que  a perderei,  est
muito enganada!  Os lbios do marqus tocaram a maciez do rosto de Lucille
antes  de  ele  prosseguir:    Concordo  quanto  a sermos  cautelosos,  mas  o  que
desejo mais ardentemente  que se case comigo.


29




Seus  lbios  encontraram  os  dela e  no  havia mais  necessidade  de
palavras. Ambos se beijaram at ser-lhes difcil respirar.
Lucille  e  o  marqus  sentiam-se  to  felizes  que  at  pareciam  estar
ouvindo Krishna, o deus do amor, tocando sua flauta. Dominada por um xtase
e  um  arrebatamento,  ela escondeu  o  rosto  no  peito  dele,  notando  que  seus
coraes batiam em unssono e no mesmo ritmo desvairado.

Conduzindo  ele  prprio  a carruagem  leve  do  sobrinho,  a qual  estavam
atrelados  quatro  puros-sangues  castanhos,  lorde  Kenyon  deixou  Londres  na
manh seguinte, bem cedo.
Ele  estranhara que  Marcus  no  tivesse  levado  aquela  carruagem  e  os
cavalos para Shaw. Mas ficou sabendo que o grupo que estivera hospedado na
manso h duas semanas havia viajado de trem.
Certamente havia sido mais complicada a viagem de trem, mas fora, ao
mesmo  tempo,  mais  confortvel.  Conhecendo  o  sobrinho  e  sabendo  como
costumavam ser as festas que oferecia, podia imaginar que as mulheres muito
pintadas,  vestidas  de  seda e  enfeitadas  com  plumas  e  penas  haviam  feito  a
viagem em grande estilo.
Um vago particular havia sido engatado no trem, em Euston, e durante
o trajeto no muito longo haviam sido servidas as refeies e bebidas.
quela hora da manh era muito  agradvel  conduzir  a  carruagem,  e
lorde  Kenyon  seguia feliz,  sentindo  a brisa fresca em  seu  rosto  e  aquele  sol
radioso que, na Inglaterra, jamais seria sufocante como na ndia.
Mesmo  estando  h tanto  tempo  sem  conduzir  uma carruagem  Puxada
por  quatro  cavalos,  ele  no  perdera	a	prtica	e  seguia	pelas  ruas
movimentadas  da cidade  com  grande  percia,  para espanto  e  admirao  do
cavalario que se achava ao seu lado.
Entrando  na estrada,  j no  campo,  a carruagem  desenvolveu  maior
velocidade. Em duas horas lorde Kenyon achava-se diante do majestoso porto
de ferro todo trabalhado que se abria para a alameda que conduzia  manso.
Ele  subiu  pela  alameda ladeada de  carvalhos  vetustos  invadido  pela
estranha sensao de nostalgia. Era bom estar de volta  casa que havia sido
seu lar durante a infncia, apesar de haver passado ali bem pouco tempo, pois
logo fora para o colgio interno.
Depois da morte do pai, o irmo mais velho, George, herdara o ttulo e a
propriedade.
Ao  pensar  em  George,  lembrou-se  do  desastre  que  havia sido  seu
casamento. Tambm havia sido um erro Marcus ter sido educado to longe da
famlia e de modo to diferente.
Ele  poderia ter  ido  para Eton,  depois  para Oxford  e,  o  mais  importante,
teria pertencido a um regimento.
Alguns  Shaw  haviam  servido  na	Guarda	Pessoal  e  outros  nos
Granadeiros. Marcus seria bem recebido em qualquer um desses regimentos.
Em vez de ter dado ao filho essas oportunidades, a me de Marcus fizera
questo de mant-lo no norte, onde proporcionara a ele uma vida confinada.
Era bvio que, uma vez livre, Marcus haveria de querer divertir-se. Era o
que fazia agora, deixando todos chocados com seu comportamento.
Se  algum  devia ser  considerado  culpado,  esse  algum  seria a me  de
Marcus,  uma pessoa considerada enfadonha e  excessivamente  puritana.  Mas


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ela j estava morta.
Nem toda a riqueza imensa da me de Marcus pudera compensar o que
ele perdera por no ter recebido uma educao  altura, por no ter tido bons
amigos  e,  principalmente,  por  no  ter  tido  a disciplina e  o  esprito  de
camaradagem que teria em um regimento.
Tenho pena do pobre rapaz, pensou lorde Kenyon.
Ao mesmo tempo, tinha plena convico de que Charlotte estava coberta
de razes em querer evitar que o sobrinho fizesse um casamento inadequado,
o que seria desastroso, no apenas para si prprio mas para toda a famlia.
Lorde Kenyon sabia muito bem do que uma mulher sem princpios seria
capaz,  se  estivesse  mesmo  disposta  a pr  suas  garras  em  um  homem  e
convenc-lo a despos-la.
Ele j era um homem experiente e tivera muitas mulheres em sua vida,
a maioria delas ladies encantadoras e sofisticadas. Com elas tivera agradveis
affaires  de  coeur  que  terminaram  sem  qualquer  conseqncia para ambas  as
partes envolvidas.
Mas lorde Kenyon tambm tivera um ou dois casos de envolvimento mais
dramtico. As mulheres em questo perseguiam-no sem descanso, dispostas a
no desistirem enquanto no o fizessem despos-las.
quele  simples  pensamento  lorde  Kenyon  sentiu  um  sbito  calafrio
percorrer-lhe todo o corpo. Em vrias ocasies ele tivera de agir com a mesma
habilidade,  a mesma astcia e  o  mesmo  sangue-frio  que  havia  demonstrado
quando lidara com os russos.
Realmente no havia sido fcil.
Nesses  casos  s  h duas  alternativas:  ou  lutar  pela  liberdade  ou  ficar
preso pelo resto da vida a uma esposa indesejvel, o que  seria o mesmo que
estar amarrado pelo pescoo a uma pedra de moinho.
O  rapaz    muito  jovem  e  inexperiente  para saber  como  lidar  com
mulheres  vividas  e  cheias  de  artimanhas,  lorde  Kenyon  pensou,  exibindo  um
brilho frio no olhar e certa rigidez nas linhas do queixo.
Ele  precisava salvar  Marcus,  mesmo  que  a tarefa fosse  extremamente
desagradvel.
Avistando a manso, lorde Kenyon achou-a ainda mais magnfica com o
sol  reverberando  nos  vidros  das  janelas,  como  se  fosse  um  sorriso  dourado
dando-lhe as boas-vindas.
Era freqente  ter  lembranas  de  Shaw  quando  se  achava distante,  na
ndia,  quer  estivesse  transpirando  no  calor  insuportvel  das  plancies  ou
rastejando sobre rochas ou nos brejos, nas noites frias da fronteira noroeste.
Vinham-lhe  ento    mente  os  amplos  gramados  verdejantes,  os  lilases
carregados  de  flores  roxas  ou  brancas,  o  lago  cuja superfcie  lisa e  tranqila
mais parecia um espelho.
Essas  lembranas  infundiam-lhe  renovado  alento,  e  ele  tinha certeza de
que  sobreviveria para poder  voltar   Inglaterra.  Ento  iria rever  e  apreciar  a
beleza da casa onde passara a infncia.
Lorde  Kenyon  tinha  sua prpria casa,  em  Somerset,  e  pretendia ir  para
l o mais depressa possvel. Mas ainda havia muito o que fazer em Londres, e
Charlotte havia atrapalhado o programa cuidadoso que ele preparara.
Sua visita  embaixada era no  s  necessria,  mas  urgente,  pois  tinha
muitas  informaes  para transmitir.  Alm  disso,  o  primeiro  ministro,  o


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marqus  de  Salisbury,  assim  que  soubesse  de  sua chegada  Inglaterra iria
exigir a sua presena.
A seguir, pretendia visitar a rainha no castelo de Windsor. Portanto, fazia
votos  de  que  sua misso  em  favor  da famlia  no  tomasse  muito  do  seu
precioso tempo.
Farei  a jovenzinha ver  que  ser impossvel  a realizao  de  seu
casamento  com  Marcus,  ele  ia	pensando.  Se  houver  ainda	alguma
dificuldade, ento, como Charlotte sugeriu, uma grande soma em dinheiro ir,
indubitavelmente, abrandar a dor de um corao partido.
Lorde  Kenyon  atravessou  a ponte  sobre  o  lago  e  viu-se  diante  da
imponente  manso.  Ele  no  pde  evitar  o  pensamento  de  que  a futura
marquesa de  Shawforde  devia ser  uma pessoa especial  para ser  digna  de
ocupar, naquela casa, o lugar que havia sido de sua me.
A  esposa do  terceiro  marqus  havia  sido  amada,  admirada e  respeitada
por  todos,  desde  a rainha,  que  a fizera uma das  damas  da corte  real,  at  os
velhinhos do asilo construdo pelo av de lorde Kenyon, o segundo marqus.
At  mesmo  s  crianas  que  freqentavam  a escola da vila,  construda
tambm pelo segundo marqus, adoravam a marquesa.
Assim  que  lorde  Kenyon  desceu  da carruagem,  dois  criados  estenderam
um tapete vermelho sobre os degraus, e o mordomo, de quem ele lembrava-se
bem, surgiu  porta de entrada.
	Bom-dia, Newman!  disse lorde Kenyon, estendendo-lhe a mo.
	Bom-dia, milorde!  respondeu o mordomo.  Que surpresa!
	Acabo de chegar  Inglaterra e desejo ver Sua Senhoria.
	Receio que fique desapontado, milorde.
	Desapontado?
	Sua Senhoria foi passar o dia fora. Disse que pretendia dar uma volta
pela propriedade e levou consigo o que comer, pois no voltar para o almoo.
Entrando  no  hall,  lorde  Kenyon  ficou  pensativo  por  um  instante,  depois
disse ao mordomo:
	Nesse  caso,  como  tenho  tambm  uma visita para fazer  na vila,  irei
agora at l, mas almoarei aqui em Shaw.
	Perfeitamente, milorde. Mas no aceitaria um copo de vinho antes de
ir fazer sua visita?
	No, Newman. Obrigado. Espero no me demorar muito.
Ao descer os degraus, viu que a carruagem j estava sendo levada para
os  estbulos.  Ele  parou  o  cavalario  e,  tomando-lhe  as  rdeas  da mo,  foi
descendo,  na carruagem,  o  caminho  que  conduzia ao  porto,  sem  ter,
deliberadamente,  dito  para onde  ia.  No  seria conveniente  despertar  a
curiosidade dos criados. Chegando ao porto principal, lorde Kenyon pediu que
o  cavalario  descesse  e  fosse  chamar  o  guarda.  Mas,  antes  que  o  homem
executasse sua ordem, ele mudou de idia e perguntou:
	Voc tambm  um morador da vila, no?
	Sim,  milorde,  mas  Sua  Senhoria  quis  que  eu  fosse  trabalhar  em
Londres, pois precisava de meus servios.
	Ento  no  h necessidade  de  aborrecer  o  guarda.  Voc  deve  saber
onde os Winterton moram.
	Sim, milorde, claro. O solar fica  esquerda, a caminho da vila.
Lorde  Kenyon  no  fez  mais  perguntas  e  deixou  o  cavalario  gui-lo  at


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os portes de uma propriedade da qual ele se lembrava vagamente.
No  havia guaritas  ou  guardas  nos  portes  e,  entrando  com  a
carruagem, ele foi subindo pelo caminho ladeado de rododendros.
O caminho era curto, e logo lorde Kenyon viu-se diante de um solar no
muito grande, mas muito bonito e bem conservado, uma agradvel construo
em estilo elizabetano.
Os  tijolos  aparentes  haviam  ganhado  com  o  tempo  um  suave  tom
rosado, e as janelas, cujas vidraas formavam figuras losngicas, conferiam 
casa um aspecto gracioso.
Lorde Kenyon parou a carruagem  porta da frente, passou as rdeas ao
cavalario e desceu. No havia ali criado algum para estender-lhe o tradicional
tapete vermelho.
Ele tocou a sineta de ferro, mas ningum veio atender  porta. Depois de
alguma hesitao, resolveu entrar no hall.
Ali, analisou o ambiente, notando que tudo harmonizava-se com o estilo
da casa. Admirou os painis e a escada, ambos entalhados em carvalho.
Era estranho no ver criado algum e a porta no estar trancada a chave.
 frente dele devia ficar o cmodo principal do solar, e lorde Kenyon caminhou
para l.

Delia havia deixado a porta da frente encostada ao entrar em casa, vindo
do  jardim,  onde  estivera colhendo  flores.  Agora arrumava-as  em  vasos  e
floreiras, no salo.
Fazia questo  de  manter  a casa sempre  florida e  a conservava como  a
me a havia decorado. Da mesma forma que a me, Delia achava que as flores
davam alegria ao ambiente.
Todavia,  depois  da  morte  dos  pais,  parecia-lhe  que  a  casa ficara mais
sombria, mesmo com as flores.
Com  o  tempo,  Delia passou  a sentir  vividamente  que  os  pais  no  a
haviam  abandonado.  Sentia a presena deles,  como  se  ambos  estivessem  ao
seu lado, e ento lhes falava sobre seus problemas.
Naquele instante pedia a ajuda da me para que tudo corresse bem num
acontecimento  muito  importante  para Little  Bunbury:  a exposio  anual  de
flores.  Havia prmios  para os  mais  belos  arranjos  apresentados  e  para as
melhores hortalias cultivadas.
Delia organizava a exposio  e  sempre  enfrentava muitas  dificuldades.
Uma delas  era evitar  que  todos  os  prmios  ficassem  para os  jardineiros  e
hortelos da Casa Grande.
Os outros competidores no apenas se ressentiam disso, mas acabavam
ficando  desencorajados,  no  demonstrando  desejo  de  participar  da exposio
novamente.
Naquele ano Delia introduzira inovaes; haveria prmios especiais para
os jardineiros e hortelos no profissionais, dos quais no participariam os que
cuidavam  das  hortas  e  jardins  das  grandes  propriedades  da redondeza.  Essa
medida fora tomada para que  no  se  repetisse  a  injustia do  ano  anterior,
quando  o  prmio  para a melhor  e  maior  abbora,  que  devia ser  para  a sra.
Geary, fora entregue, pelo juiz, a um dos hortelos do marqus.
A sra. Geary, sentindo-se injustiada e sendo muito tagarela, reclamara,
acusara o  juiz  de  ser  um  esnobe  e  bajulador,  interessado  nas  pessoas  que


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tinham um ttulo de nobreza.
O  pior  foi  que  ela  no  queria mais  participar  de  exposio  nenhuma,
tampouco  pretendia dar  sua colaborao  a Delia.  Esta tivera de  usar  todo  o
seu poder de persuaso e seu charme para convencer a sra. Geary de que sua
participao era imprescindvel.
Para maior  brilhantismo  da exposio haveria prmios  especiais  para os
melhores  produtos  cultivados  em  pequenas  hortas  e  jardins  domsticos;  as
crianas  da escola  iriam  competir  fazendo  arranjos  de  flores  silvestres;  outra
modalidade que concorreria a prmios seria a da mais bela coleo de folhas e
ervas.
A  notcia causou  grande  contentamento  na vila,  pois  quase  todos
poderiam concorrer a prmios.
Delia achava-se  entretida,  arrumando  automaticamente  as  flores  nos
vasos, pensando na exposio e em Lucille.
A  irm no  mais  a preocupava,  pois  mostrava-se  bem  mais  alegre
ultimamente  e  parecia interessar-se  pelos  vizinhos.  Lucille  sempre  saa para
fazer  visitas,  muitas  vezes  demorava-se  bastante,  indo    casa de  amigos  do
outro lado do condado.
Delia vivia to ocupada que concordara sem discusses com o pedido da
irm para ir  cavalgar  todas  as  manhs  pela vizinhana.  Muitas  vezes  Lucille
avisava  que  no  a  esperasse  para o  almoo,  pois  ia a  algum  lugar  mais
distante, ficando para almoar em companhia dos amigos.
Pelo  menos  Lucille  encontrou  um  modo  de  se  distrair  antes  de  ir  a
Londres,  pensava Delia,  contente.  Eu  gostaria tanto  de  acompanh-la,  mas
no momento preciso acabar de organizar a exposio de flores.
O que mais preocupava Delia naquele instante era organizar a contento a
distribuio  dos  lugares  para os  boxes  de  cada expositor  de  Little  Bunbury  e
ainda reservar espao, no pavilho, para os participantes de outras vilas.
A  exposio  havia  sido,  inicialmente,  s  para os  habitantes  de  Little
Bunbury.  Mais  tarde  Bigger  Bunbury  e  Water  End,  duas  vilas  a apenas  trs
quilmetros de distncia, mas localizadas em direes opostas, passaram a ter
representantes naquele acontecimento anual.
Agora uma outra vila queria inscrever-se como participante, e Delia no
podia recusar sua incluso no evento.
	Receio que o pavilho seja pequeno para tanta gente  dissera ela ao
pastor.
	J pensei  nisso    ele  respondera ,  mas  certamente  ser um  belo
dia de sol, e todos apreciaro ficar ao ar livre, podendo, alm de tudo, admirar
seu bonito jardim.
A exposio anual de flores e hortalias sempre era realizada no grande
pavilho do solar Winterton. Um dos prazeres dos que compareciam ao evento
era passear durante a tarde pelo jardim de rosas, andar por entre as alias de
arbustos e sentar nos gramados verdes bem cuidados.
Delia sempre  contava com  a ajuda de  colaboradores,  e  era servido  um
ch aos presentes.
Para a organizao do esperado evento, Delia tambm  tinha a ajuda de
muitas pessoas, mas era ela a principal encarregada da grande tarefa. Com o
maior empenho e cuidado planejava tudo, sabendo que daquilo iria depender o
sucesso da exposio.


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Aliviada, terminou  de arrumar o ltimo vaso de flores. Estava pensando
em  ir  verificar  se  os  homens  encarregados  de  trazer  madeiramento  e  lona
haviam  chegado,  quando  viu,  surpresa,  algum  entrando  no  salo.  Aquele
homem era um estranho.
	Por favor, perdoe-me  ele disse a Delia assim que a viu.  Toquei a
sineta, e, como ningum atendeu, entrei!
	Oh,  receio  que  a sineta tenha se  quebrado  novamente!  Os  criados
esto todos ocupados na cozinha.
Delia havia dado  ordens  para os  criados  separarem  todos  os  pires  e
xcaras  e  deix-los  em  ordem  para o  ch a ser  servido  durante  a exposio.
Havia uma grande quantidade daquela loua guardada para essas ocasies, no
poro. Delia costumava tir-las da caixa e lav-las com antecedncia.
	Eu poderia ver o sr. Winterton?  perguntou lorde Kenyon.
	Lamento inform-lo de que papai j  falecido.
Lorde Kenyon desconhecia aquele fato.
	Sinto muito. Poderia, ento, falar com a senhorita?
	Naturalmente.
Mesmo olhando rapidamente para aquele estranho, ela notou que, alm
de ser muito bonito, vestia-se com muita elegncia. Quem seria ele?
	Creio que deva me apresentar. Sou lorde Kenyon Shaw.
Delia susteve a respirao.
	No  quer  sentar-se?  Suponho  que  tenha chegado  h bem  pouco
tempo da ndia.
	Sabia que eu me achava na ndia?
	Creio  que  foi  o  nico  parente  a no  comparecer  ao  funeral  de  seu
irmo.
	Tem  razo,  mas  teria sido  impossvel  chegar  a tempo.  Cheguei  a
Londres  anteontem  e  tive  notcias  desagradveis  sobre  o  comportamento  de
meu  sobrinho,  o  atual  marqus,  e    por  essa razo  que  vim  procurar  o  sr.
Winterton.
Delia mostrou-se surpresa; lorde Kenyon acomodou-se em uma poltrona
perto da lareira, e ela sentou-se de frente para ele.
Num  lampejo  passou-lhe  pela cabea que  lorde  Kenyon  talvez  tivesse
ouvido falar a respeito das festas oferecidas pelo sobrinho e resolvera procurar
um dos respeitveis moradores do lugar para saber qual teria sido a reao da
vila diante do comportamento vergonhoso do novo marqus.
Lorde  Kenyon  fez  uma	pequena	pausa,  como  se  escolhesse
cautelosamente as palavras, para ento dizer:
	Fiquei  sabendo  que  meu  sobrinho,  apesar  de  estar  comprometido,
prestes a anunciar seu noivado, envolveu-se com voc
Delia encarou-o, atnita.
Em  primeiro  lugar,  ele  naturalmente  a tomava por  Lucille;  em  segundo,
no  poderia ser  verdade  o  que  acabara de  insinuar.  Ela  confiava na irm e
havia acreditado que Lucille estava seguindo fielmente seu conselho de no se
encontrar com o marqus.
Naquele  instante,  pela primeira  vez,  ocorreu-lhe  que  Lucille  a  vinha
enganando. Mas o impulso de proteger a irm foi imediato.
	Eu no entendo aonde quer chegar  disse ela, consciente de estar
faltando com a verdade.


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	Ora,  vamos,  srta.  Winterton.  Soube  de  boa fonte  que  voc  e  meu
sobrinho  tm  estado  juntos  com  muita freqncia,  fato  extremamente
repreensvel, estando ele comprometido.
	 verdade  disse Delia suavemente.  Ouvi dizer que o marqus ia
anunciar  oficialmente  seu  noivado,  portanto,  creio  que  Vossa Senhoria
cometeu um engano ao assegurar que ele envolveu-se comigo.
	Creio que no me enganei; todavia posso ter sido mal informado e, se
isso  aconteceu,  pedirei  desculpas.  Por  essa razo,  gostaria que  dissesse  com
franqueza, ou, se preferir, que me desse sua palavra de honra de que voc e
meu sobrinho nada tm a ver um com o outro.
Aquilo,  Delia pensou,  ela poderia fazer  sem  estar  mentindo.  Mas,
pensando em Lucille e sem saber exatamente que atitude tomar, disse, depois
de alguma hesitao:
	Creio que seria mais justo, meu senhor, que me dissesse exatamente
o que ouviu a respeito desse envolvimento de seu sobrinho.
	Muito  bem,  srta.  Winterton,  se    o  que  deseja  A  verdade    que
minha  irm foi  informada de  que  voc  est tentando  casar-se  com  meu
sobrinho,  e  esse  casamento,  deve  saber  muito  bem  disso,  ser,  do  ponto  de
vista dele, um desastre absoluto.
Aquele modo de falar, to ferino, incitou a fria de Delia. Aquele homem
no  poderia ter  sido  mais  rude;  Lucille  no  viera da sarjeta.  Ela pertencia a
uma famlia respeitvel e quase to ancestral quanto a dele.
Quanto ao pai, o coronel Winterton, havia servido ao pas, com denodo,
da mesma forma que lorde Kenyon.
	Creio,  meu  senhor    ela disse  com  calma ,  que  est  sendo
desnecessariamente  insultante.  Se  o  que  sua irm ouviu  for  mesmo  verdade,
tal  casamento  poderia vir  a ser,  do  ponto  de  vista de  sua famlia,  infeliz,
talvez, mas nunca um desastre absoluto, como disse h pouco.
Lorde Kenyon permaneceu um instante em silncio.
	No  tive  inteno  de  ser  rude,  srta.  Winterton,  posso  assegurar-lhe.
No  entanto,  no  ignora que,  tendo  uma posio  excepcional  na vida,  o
marqus de Shawforde escolher uma esposa  sua altura.
	Essa pode ser a sua opinio, meu senhor, e no deixa de ser a opinio
tradicional  ou  convencional.  Mas  ns,  os  moradores  deste  lugar,  sabemos
muito  bem  que  o  falecido  marqus  fez  o  tipo  de  casamento  do  qual  acaba de
fazer  a apologia e  no  foi  um  homem  feliz,  nem  seu  casamento  convencional
foi um sucesso!
Delia surpreendeu-se  a si  mesma por  ter  dito  aquilo.  Mas  fora aquele  o
modo  que  encontrara de  defender  Lucille,  depois  das  palavras  ofensivas  de
lorde Kenyon.
	 verdade. Justamente pelo fato de meu irmo ter sido to infeliz, no
desejo que seu filho tenha o mesmo destino.
	Receio  que  acabe  descobrindo  que  o  atual  marqus  talvez  no  seja
um  partido  to  vantajoso  quanto  os  seus  antepassados.    Delia notou  que
lorde  Kenyon  ergueu  as  sobrancelhas,  mas  permaneceu  calado,  enquanto  ela
continuava:    O  marqus  j escandalizou  as  pessoas  que  trabalham  em  sua
propriedade,  os  moradores  da vila e  os  vizinhos  com  as  festas  que  tem
oferecido desde que herdou a manso.
	Mesmo assim, ainda deseja casar-se com ele?


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	No disse que quero me casar com ele. S estou tentando mostrar-lhe
que  uma aristocrata,  de  sangue  azul,  talvez  no  esteja to  ansiosa para
tornar-se a marquesa de Shawforde, como est pensando!
	O  que  est dizendo    uma grande  tolice!    exclamou  lorde  Kenyon
com  altivez.    O  duque  e  a duquesa de  Cumberland  esto  muito  felizes  em
conceder  a mo  de  sua filha  Sarah  ao  meu  sobrinho,  e  o  noivado  oficial  de
ambos ser anunciado assim que ele retorne a Londres!
Havia uma expresso  dura em  seu  olhar  quando  ele  encarou  Delia para
dizer:
	O que lhe peo,  srta. Winterton,  que pare de tentar persuadir meu
sobrinho  a permanecer  aqui,  no  campo,  e  que  o  deixe  fazer  o  que  a famlia
deseja que ele faa.
	Mas, e se no for esse o desejo do marqus?
Ela estava argumentando  por  estar  indignada com  o  que  lorde  Kenyon
havia dito.  Ao  mesmo  tempo  pensava,  desesperada,  em  como  poderia livrar
Lucille daquela situao infeliz sem comprometer sua reputao.
	Tenho certeza de que, assim que eu tiver a oportunidade de conversar
com meu sobrinho, ele far o que eu lhe pedir. Creio que no conhece Marcus
h muito tempo, srta. Winterton, e ignora que ele seja cnscio de seus deveres
para com a famlia.
	Parece  que  no    o  que  ele  tem  demonstrado  desde  sua vinda para
Shaw    Delia retrucou  em  tom  cortante.    Mas,  naturalmente,  Vossa
Senhoria saber ser bastante persuasivo!
Ela levantou-se ao dizer aquelas palavras, e lorde Kenyon no teve outro
jeito seno levantar-se tambm.
	No  a procurei  para discutirmos,  srta.  Winterton    ele  disse,  mais
amvel.  Minha inteno era apenas apelar para a sua compreenso.
	Deve ser honesto consigo mesmo, meu senhor, e admitir que veio at
aqui  procurando alcanar seus prprios objetivos. O  que posso responder-lhe,
diante  disso,    que  a deciso  logicamente  s  pode  ser  tomada por  seu
sobrinho. Portanto, nada mais tenho a acrescentar ao que j foi dito.
	Mas permitir que ele parta?
Delia deu um sorriso irnico.
	O que sei sobre o marqus  que ele tem vinte e trs anos e vontade
prpria.  Eu  ficaria  bastante  surpresa se  ele  demonstrasse  ser  como  uma
marionete, que agisse conforme Vossa Senhoria fosse puxando os cordes.
	Oua, srta. Winterton
	Creio,  meu  senhor,  que  nada mais  temos  a  dizer  sobre  o  assunto.
Como tenho muitas coisas para fazer, qualquer argumento que apresente seria
perda de tempo. Meu e seu!
Lorde Kenyon ficou surpreso ao constatar que, pela primeira vez na vida
sofria uma derrota. Como se enganara com Delia! Assim que a vira, achando-a
to jovem, imaginara que seria muito fcil convenc-la do que quer que fosse,
pois ficaria muito impressionada, ou mesmo intimidada, com ele.
Agora,  porm,  compreendia que  naquele  dilogo,  ou  melhor,  naquele
duelo verbal, sem dvida ela se sara vencedora. Mas pelo menos ele dissera
o que tinha para dizer.
Olhando  para Delia,  naquele  momento,  com  o  intuito  de  analis-la,
constatou  que  era linda.  Era compreensvel  que  o  jovem  Marcus  tivesse


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perdido a cabea e talvez o corao.
Delia permaneceu de p, esperando que o importuno visitante sasse.
Mais  uma vez  lorde  Kenyon  olhou  para a jovem   sua frente  e  pensou
que  ela era de  fato  diferente  de  todas  as  mulheres que  j havia conhecido.  E
era tambm a mais linda
Apesar de vestida com simplicidade, nem mesmo uma rainha poderia ter
porte mais majestoso do que o de Delia. Olhar para a figura quase etrea ali,
bem junto dele, fez lorde Kenyon pensar em uma tela de Botticelli ou em uma
composio de Chopin.
Ento  veio-lhe   mente  que  via diante  de  si  a mulher  que  tinha toda a
inteno de agarrar-se a Marcus e que, obviamente, estava determinada a ser
a marquesa de Shawforde.
Fazendo  um  esforo,  pois  percebia  claramente  que  Delia esperava
ansiosa que ele a deixasse, lorde Kenyon continuou:
	Pretendo  conversar  com  meu  sobrinho,  o  que  ainda no  fiz,  pois  ele
no  se  achava em  casa.  Depois  que  o  fizer,  poderia voltar  a v-la,  srta.
Winterton?  Farei  questo  de  compens-la por  quaisquer  iluses  ou  falsas
esperanas  que,  porventura,  talvez  at  mesmo  sem  querer,  Marcus  a tivesse
feito acalentar.
Por um instante Delia pareceu no ter entendido, mas, em seguida seus
olhos cinzentos tornaram-se escuros e ela disse com vagar:
	S  espero,  lorde  Kenyon,  jamais  ter  a	infelicidade  de  v-lo
novamente!
E saiu do salo, deixando-o sozinho.




































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CAPTULO IV



Lucille entrou depressa em casa, vindo dos estbulos.
Delia a esperava no salo e, ao ver a irm, notou como estava adorvel.
H tempos no a via to linda nem to feliz. Certamente no vinha prestando
muita ateno a ela nos ltimos dias, o que considerou negligncia sua.
	Aqui estou!  exclamou Lucille.
	Eu a esperava para podermos conversar.
O  tom  de  Delia fez  Lucille  ficar  apreensiva,  mas  ela tentou  parecer
indiferente.
	Sobre o qu?
	Confiei em voc! Jamais me passou pela cabea que iria enganar sua
prpria irm!
Lucille susteve a respirao.
	Oh isso
	Sim! Isso! E estou muito contrariada.
	Achei mesmo que ficasse aborrecida ao saber. Mas quem lhe contou?
	Lorde Kenyon Shaw!
Lucille olhou  para a irm com os olhos arregalados,  numa expresso de
incredulidade.
	Lorde Kenyon?! Mas como ele pde isto , onde o encontrou?
	Ele  veio  at  aqui  para falar  com  voc.  Na verdade  queria apenas  lhe
dizer que o marqus est comprometido e que pretende casar-se logo.
	Isso  no    verdade!  E  no  entendo  como  lorde  Kenyon  tenha ficado
sabendo sobre Marcus e mim. Pensei que estivesse na ndia.
	 bvio que voltou. E foi extremamente ofensivo.
	Ofensivo??!  Lucille no escondeu a surpresa.
	Insinuou	que	voc	anda	envolvendo	o	marqus,  convencendo-o  a
ficar na manso, em vez de ir cuidar de seus deveres, em Londres.
	Ele disse isso?!
O  tom  de  Delia,  propositalmente  de  enfado  e  cansao,  tinha  como
objetivo impressionar a irm. E ela prosseguiu:
	Lorde  Kenyon  tambm  disse  que,  se  o  marqus  se  casar  com  voc,
esse casamento s poder ser um desastre completo.
Para sua surpresa,  Lucille  no  pareceu  zangada.  Ela  caminhou  at  a
janela e ficou ali, de p; depois de um momento, disse:
	Acho que  voc tem razo.
	O que quer dizer?
	Marcus pediu-me em casamento mas
	Ele pediu-a em casamento?
	Por  que  essa surpresa?  Ns  nos  amamos,  mas,  agora que  lorde
Kenyon voltou, tudo vai ser bem diferente.
	Voc aceitou o pedido de casamento?
	Tenho tentado convenc-lo, em todos os momentos em que estamos
juntos, que seria um erro eu tornar-me sua esposa isto , do ponto de vista
dele.
	Mas ele a ama?
	Marcus  diz  que  me  ama e  s  isso  importa.  Eu  acreditei  no  que  ele

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disse, at ficar sabendo que lorde Kenyon esteve aqui.
	No  consigo  entender;  o  que  tem  o  tio  de  Marcus  a ver  com  tudo
isso?
	Aqui  no  campo  quase  ningum  sabe  quem    lorde  Kenyon,  mas  em
Londres  ele    tido  como  uma pessoa fantstica!  Marcus  me  disse  que  todos
falam dele com admirao.
	Por qu?
	Parece que seus feitos, na ndia, tm sido admirveis. Ele faz parte de
um  grupo  cujas  operaes  so  secretas,  conhecidos  como  O  Grande  Jogo.
Mas no creio que voc j tenha ouvido falar nisso.
	Lembro-me de ter ouvido mencionar O Grande Jogo. Mas est dizendo
que  lorde  Kenyon    um  desses  ingleses  que  se  disfaram  e  se  infiltram  nas
tribos  e  tm  estratgias  admirveis  para evitar  que  a fronteira noroeste  da
ndia seja tomada pelos russos?
	Marcus  me  disse  que  so  estratgias  ultra-secretas  e  que  nunca se
deve  falar  sobre  o  assunto.  Admira demais  o  tio  e  no  quer  que  ele  corra
riscos. Se souberem quem lorde Kenyon  na verdade, sua vida corre perigo.
	Nunca imaginei  que  lorde  Kenyon  fosse  um  homem  desse  tipo!  
Delia murmurou.
	Ele foi rude com voc?
	Em  minha opinio  foi  rude,  muito  rude,  mas  no  comigo  e  sim  com
voc.
Notando que a irm no havia entendido, ela explicou:
	Lorde  Kenyon  veio  at  nossa casa  para ver  papai.  Ao  saber  que  j
havia falecido, conversou diretamente comigo, supondo que falava com a srta.
Winterton  que  estava dando  em  cima  do  marqus,  tentando  arruinar-lhe  a
vida.
Lucille ficou pensativa, depois disse:
	Bem, j que lorde Kenyon est na Casa Grande, Marcus acatar tudo
o que ele disser.
	Se  ele  a ama de  verdade,  no  ouvir nenhum  dos  parentes,  nem  se
deixar influenciar por ningum.
	Marcus no se importa mesmo com a opinio dos parentes, uma vez
que  eles  tambm  no  se  interessaram  por  ele  antes  de  tornar-se  o  quinto
marqus. Mas lorde Kenyon  diferente.
O modo desalentado como Lucille falou enterneceu Delia. Atravessando o
salo, ela foi para junto da irm.
	Sinto muito, querida! Como detesto v-la magoada ou infeliz!
	Ele  me  ama!  Tenho  certeza de  que  me  ama!  Queria vir  at  aqui
conversar com voc, e fui eu quem o impediu. Ia dizer a voc que desejava se
casar  comigo;  foi  pensando  nele  e  no  que  os  parentes  iriam  dizer  que  eu
resolvi me sacrificar.
Lucille sofria tanto que Delia a abraou.
	Sinto  muito  se  tornei  as  coisas  ainda piores,  mas  eu  s  pensava em
defend-la das  cruis  acusaes  de  lorde  Kenyon.  Afinal  ele  nos  fez  parecer
camponesas maquiavlicas!
Mesmo  tendo  usado  um  termo  forte,  Delia achou  que  estava sendo
bastante  delicada,  pois  lorde  Kenyon  havia insinuado  que  sua irm era uma
mulher  indesejvel.  Uma mulher  sem  princpios,  interessada apenas  em  pr


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suas garras no marqus simplesmente por causa do seu ttulo.
Mas  no  poderia dizer  aquilo  claramente  a Lucille  e  deix-la ainda  mais
infeliz.
Delia repetiu:
	Sinto muito, querida. Sinto terrivelmente, mas s quis defend-la.
	Amo Marcus! Amo-o desde a primeira vez em que o vi.
	  que  voc  quase  no  conheceu  outros  rapazes    disse  Delia
suavemente.
	J esperava que dissesse isso. Mas acredito que o amor seja algo to
maravilhoso,  to  forte  to  diferente  de  tudo  o  que  se  sentiu  antes!  Ele
acontece independentemente do tempo que as duas pessoas que se amam se
conhecem.  Assim  que  vemos  essa	pessoa	especial,  a	reconhecemos
imediatamente    como  se  j nos  tivssemos  encontrado  em  outra vida,
talvez.
	  assim  que  se  sente?    perguntou  Delia,  olhando  surpresa para a
irm.
	Marcus  tambm  se  sente  assim.  J leu  muitos  livros  sobre  a  ndia,
justamente por se interessar tanto pelo tio e o trabalho que ele realiza naquele
pas.  Marcus  me  contou  que  desde  o  momento  que  nos  encontramos  no
parque  sabia que  pertencamos  um  ao  outro.  Explicou-me  que  os  indianos
acreditam  que  essa forte  intuio    um  sinal  de  que  nos  conhecemos  numa
vida anterior a esta.
	Nunca esperei  ouvi-la falar  desse  modo!  Eu  costumava conversar
muito  com  papai  sobre  a ndia,  mas  sempre  achei  que  voc  era  muito  jovem
para compreender os assuntos sobre os quais discutamos.
	Mas  j tenho  idade  suficiente  para me  apaixonar  e  percebo  como  o
amor  nos  faz  sofrer.    Lucille  deu  um  pequeno  grito  e  acrescentou:    Oh,
Delia,  voc  acha que  Marcus  ir voltar  para Londres  e  nunca mais  me  ver,
nem pensar em mim?
	Se fizer isso  porque no a ama. Ento ser melhor para ambos que
se afaste.
	Para ele pode ser a melhor coisa, mas no para mim. Voc pode no
acreditar mas sei que nunca mais amarei outro homem como amo Marcus.
Falou com voz baixa e impregnada de dor. Em seguida saiu do salo e foi
para o hall, sem olhar para trs.
Delia apenas a acompanhou com o olhar, sem fazer qualquer movimento
para ir atrs da irm. Sabia que Lucille desejava ficar sozinha.
Ela podia muito  bem  avaliar-lhe  o  sofrimento,  apesar  de  jamais  ter
esperado  que  algum  to  jovem  e  despreocupada pudesse  sofrer  com  aquela
intensidade.
Como tudo isso pde acontecer?, interrogou-se Delia. Suponho que eu
tenha sido a culpada.
Fazendo  uma reviso  dos  acontecimentos  dos  ltimos  dias,  constatou
que  estivera to  preocupada e  atarefada com  a exposio  que  no  percebera
que  a alegria de  Lucille  era grande  demais  para nada de  anormal  estar
acontecendo.
Foi  minha culpa,  mame,  disse,  do  fundo  do  corao.  Eu  deveria ter
cuidado melhor de Lucille; a exposio poderia ter ficado em segundo plano.
Todavia era tarde  demais,  e  o  corao  da irm j havia sido  magoado.


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Delia tentou  convencer-se  de  que  Lucille  logo  se  recuperaria,  mas  bem  no
fundo  tinha o  desagradvel  pressentimento  de  que  o  amor  que  a irm nutria
pelo marqus era mais profundo do que ela podia imaginar.
Sendo  a irm mais  velha,  Delia encarregara-se  de  dirigir  a casa depois
da morte  da me.  Tambm  cuidara do  pai  durante  sua doena;  quanto  a
Lucille,  praticamente  a educara,  e  aos  seus  olhos  ela no  passava de  uma
criana.
Dessa forma no  previra que  ela pudesse  apaixonar-se  por  homem
algum, muito menos o to falado marqus de Shawforde.
Ah,  ele  conseguiu  envolver  Lucille,  uma jovem  inexperiente,  ela
pensou.
Mas reconheceu que no poderia culpar homem algum de ficar gostando
da irm. Ela era adorvel, era fora do comum.
Alm  disso,  a necessidade  de  se  encontrarem  s  escondidas  contribua
para tornar ainda mais romnticos seus passeios secretos, em meio  beleza e
ao lirismo da ensolarada paisagem campestre.
Tambm  no  havia ningum  para interromper  os  dois  enamorados  e
ambos podiam viver um idlio como os descritos em romances de amor.
Eu  devia  ter  desconfiado  do  que  estava acontecendo  e  interrompido
esse namoro impossvel!, Delia se recriminava.
Novamente  uma voz  interior  a apaziguava,  fazendo-a perceber  que
mesmo estando a par de tudo no conseguiria que Lucille se resignasse a no
ver mais o marqus.
Delia vira Marcus apenas uma vez, a distncia, no funeral do pai dele, e
no ignorava o quanto era atraente.
Depois  no  voltara a v-lo,  mas  ouvira  falar  sobre  seu  comportamento
ultrajante  em  Londres  e,  finalmente,  sobre  as  festas  na manso,  que  haviam
escandalizado a vila.
Talvez  o  fato  de  Marcus  ser  considerado  um  desordeiro  tenha feito
Lucille ach-lo ainda mais atraente.
Mas no! Aquilo no podia ser verdade. Depois de ter visto lorde Kenyon,
ela constatara que  os  Shaw  eram  bonitos  e  exerciam  uma atrao  fora do
comum. Por ali no havia quem se lhes pudesse comparar.
Agora sentia-se  assustada  pelo  que  viria a acontecer  a Lucille.  Como  a
irm mesma  dissera,  nunca mais  poderia amar  outro  homem  como  amava  o
marqus.
Naquela confuso de sentimentos que a agitavam, Delia raciocinava que
s  desejava a felicidade  de  Lucille,  mas  que  ela no  seria feliz  ao  lado  do
marqus.  Mesmo  que  ele,  contrariando  a vontade  do  tio,  insistisse  em  se
casar, aquele casamento no estaria fadado a dar certo.
Delia no admitira aquele fato diante de lorde Kenyon por ele ter sido to
rude que ela resolvera enfrent-lo.
Estando  apaixonada,  Lucille  no  veria nenhum  defeito  em  Marcus;  o
melhor que tinha a fazer seria levar a irm para longe.
Ou  talvez  aquela medida no  fosse  necessria,  uma vez  que  lorde
Kenyon estava disposto a conseguir seu intento, que era levar o sobrinho para
Londres; ento Marcus ficaria noivo da filha do duque.
Tanta coisa havia acontecido  em  to  pouco  tempo  que  Delia sentia-se
perplexa, angustiada e insegura.


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J era hora de  trocar-se  para o  jantar.  Subiu  as  escadas  lentamente,
com  o  corao  pesado,  tentando  descobrir  um  modo  de  confortar  Lucille  sem
alimentar-lhe falsas esperanas.
Enquanto  se  despia,  pensava em  lorde  Kenyon.  Era estranho  nunca  ter
ouvido  dizer  que  ele  era um  heri.  Afinal,  morando  praticamente  ao  lado  da
manso Shaw, ela crescera sabendo tudo sobre a famlia dele, uma vez que os
Shaw eram o assunto da vila.
Delia tinha notcia de tudo o que acontecia com eles, desde a chegada de
um novo beb  morte de um parente afastado. Lamentava que, no passado, o
pai e o falecido marqus tivessem tido algumas desavenas.
Mas  o  fato  de  o  quarto  marqus  ter  sido  um  homem  extremamente
desagradvel,  intolerante  e  irascvel  era compreensvel  e  at  desculpvel.  Na
verdade, ele tornara-se um homem doente.
Sua carreira diplomtica fora bastante  agitada,  mas  ele  fora obrigado  a
afastar-se  do  servio  por  ter  contrado  no  Oriente  um  tipo  desconhecido  de
febre  que  lhe  atacara o  fgado,  provocando  crises  terrveis,  acompanhadas  de
muita  dor.  O  marqus  voltara para casa,  ainda  na meia idade,  convencido  de
que lhe restava muito pouco tempo de vida.
A  doena,  que  o  obrigava a ficar  a maior  parte  do  tempo  confinado  ao
leito,  alm  de  causar-lhe  dores  insuportveis,  transformara-o  em  um  homem
impaciente,  exaltado  e  brigo,  que  acabara causando,  sucessivamente,
inimizades com todos.
O  coronel  Winterton,  ao  contrrio,  era um  homem  encantador,  amvel,
de  boa ndole;  mas  tambm  era muito  orgulhoso.  Certa vez  censurou  o
marqus  por  exaltar-se  to  facilmente,  e  aquilo  causou  o  rompimento  da
amizade entre os senhores do solar e da manso.
Delia lembrava-se  de  que  a me,  ao  saber  da desavena tola havida
entre  o  marido  e  marqus,  tentara abrandar  a situao  com  sua costumeira
ternura.
	Ele  um homem doente  dissera a sra. Winterton.
	Doente ou no, seu modo de agir  intolervel!  retrucara o coronel,
zangado.  Bem que o mdico e o pastor j me recomendaram que evitasse ir
a Shaw para no ter aborrecimentos.
	Sei  disso,  querido.  Todos  na vila dizem  a mesma coisa.  Mas    uma
pena; no creio que o marqus melhore.
De  fato,  ele  s  piorou,  vindo  a  falecer,  porm,  muitos  anos  mais  tarde.
Seria faltar  com  a verdade  afirmar  que  os  moradores  da vila,  gente  de  bom
corao,  no  tivessem  sentido  a morte  do  quarto  marqus,  cuja famlia era
muito importante para todos em Little Bunbury.
Voltando  a pensar  em  lorde  Kenyon,  Delia achou  estranho  nunca ter
ouvido  algum  mencionar  qualquer  atividade  dele  que  no  fosse  a atividade
regular de um oficial.
O  que  ela sabia sobre  O  Grande  Jogo  limitava-se  ao  que  o  pai  lhe
contara:  era o  nome  de  uma organizao  de  espionagem  que  j conseguira
feitos fantsticos e que se estendia por toda a ndia. Seu principal objetivo era
evitar  que  os  russos  provocassem  agitao  e  discrdia entre  as  diferentes
castas.
O  pai  lhe  contara  que,  sendo  uma organizao  secreta,  O  Grande  Jogo
no conhecia seus membros por nomes, mas sim pelos nmeros de cada um.


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Apenas  o  vice-rei  e  o  comandante  supremo  costumavam  saber  a identidade
dos homens que arriscavam a prpria vida para salvar o Imprio Britnico.
Delia mostrara-se  muito  interessada pela histria e  lembrava-se  de  que
o pai lhe havia explicado:
	Alm  de  os  membros  do  Grande  Jogo  serem  muito  corajosos,  
imprescindvel  que  sabiam  guardar  segredo;  uma palavra,  mesmo  um
sussurro, pode causar-lhes a morte ou a de um companheiro.
Delia quisera saber  se  o  coronel  havia,  alguma vez,  participado  d'0
Grande Jogo.
	Participei  apenas  uma vez,  de  uma misso  perigosssima   ele
dissera.  No me importo de confessar-lhe que essa foi uma das experincias
mais assustadoras de minha vida!
Ela havia insistido para o pai contar-lhe sobre a tal misso perigosa mas
o coronel se recusara a faz-lo, justificando-se:
	No  se  deve  fazer  qualquer  comentrio  sobre  as  atividades  da
organizao. S o que lhe posso dizer  que nenhum homem pode fazer mais
pela ptria do  que  arriscar  sua vida por  ela,  e  todo  membro  d'0  Grande  Jogo
merece a Cruz da Rainha Vitria.
Lembrando-se do que o pai lhe dissera, Delia podia agora compreender a
razo de Marcus respeitar o tio e consider-lo um heri.
Ela vestiu um dos bonitos trajes de noite com anquinhas discretas e um
grande  lao  de  cetim  sobre  as  mesmas.  Enquanto  se  arrumava,  refletia com
pesar sobre o clima em que ela e lorde Kenyon se haviam encontrado.
Em outras circunstncias, tudo poderia ser bem diferente. Ela gostaria de
falar-lhe sobre a ndia, um pas que sempre a fascinara e sobre o qual j havia
lido  muitos  livros,  alm  de  ter  ouvido  o  pai  contar  sobre  aquela misteriosa
terra, conhecida como a Jia da Coroa.
Se  pudesse,  iria algum  dia conhecer  tal  jia.  No  mesmo  instante
suspirou, imaginando que tal sonho era quase impossvel de realizar.
Ao descer as escadas, concentrou seu pensamento em Lucille; no sabia
o que poderia dizer para anim-la.
A  irm,  com  certeza estivera chorando,  ento  seria mais  aconselhvel
deix-la quieta.
Logo  aps  o  jantar,  Lucille  quis  voltar  para o  quarto.  Delia achou  que
seria melhor mesmo a irm recolher-se mais cedo.
 Tambm me deitarei daqui a pouco  disse Delia.  Ainda h muito o
que fazer para a exposio, e amanh os homens viro erguer os toldos.
Lucille,  porm,  mostrava-se  completamente  alheia.  Em  seguida
levantou-se  e  foi  subindo  lentamente  as  escadas,  de  cabea	baixa,
completamente  estranha.  Perdera toda a sua vivacidade,  sua alegria,  suas
maneiras impetuosas e espontneas.
Delia foi verificar se as janelas se achavam fechadas e a porta da frente
trancada a chave.  O  velho  Hanson  andava muito  esquecido.  S  ento  subiu
para seu  quarto,  quase  to  desalentada quanto  Lucille,  e  o  futuro  parecia-lhe
sombrio.
Odeio lorde Kenyon!, disse a si mesma, zangada.
Mas no ntimo reconhecia que ele era um heri.

O  jantar  na manso  havia sido  excelente,  e  o  vinho  servido,  magnfico.


44




Lorde Kenyon achou que era chegado o momento de falar com Marcus.
Durante  a tarde  lorde  Kenyon  dera uma volta  pela casa  e  constatara,
satisfeito,  que  tudo  se  achava na mais  perfeita ordem.  Mas  o  mrito  era de
Jones. Esta e o mordomo j trabalhava para a famlia h muitos anos.
Observando 	a	criada, 	percebera	que 	ela	desejava	falar-lhe
confidencialmente.  No  entanto,  no  pretendia falar  com  ningum  antes  de
conversar  com  o  sobrinho.  Precisava saber  quais  eram  seus  sentimentos  em
relao  srta. Winterton.
Diante  daquele  pensamento,  reviu  mentalmente  a figura de  Delia.  Era,
sem  dvida,  uma jovem  linda.  Ele  estava muito  zangado  quando  fora  casa
dela,  mas  agora,  sem  estarem  os  nimos  exaltados,  reconhecia que  nunca
teria imaginado  encontrar  algum  de  beleza to  extraordinria em  Little
Bunbury.
Infelizmente  no  se  sara bem  em  seu  primeiro  contato  com  a srta.
Winterton, e aquilo lhe causava uma sensao desagradvel. Talvez lhe tivesse
faltado tato.
Mas  Charlotte  tanto  falara e  mostrara-se  to  firme  que  ele  estava
convencido de que Marcus se enredara com uma garota vulgar.
Embora	fosse  tarde  para	arrependimento,  reconhecia	que  agira
precipitadamente, sem a ponderao que lhe era peculiar.
O prprio solar j devia ser o bastante para alert-lo de que ali no podia
morar  uma camponesa sem  classe,   caa de  um  marido  rico  e  com  ttulo  de
nobreza.
Mais ao fim da tarde, lorde Kenyon foi passear pelo jardim. Todavia, ele
no notava a beleza que o circundava: s pensava na raiva que vira impressa
nos  dois  olhos  cinzentos,  no  porte  gracioso  e  na dignidade  com  que  a srta.
Winterton deixara o salo.
S  me  resta esperar  que  Marcus  tenha o  bom  senso  de  voltar  comigo
para Londres, pensou.
Quase   hora do  jantar  Marcus  apareceu  finalmente.  Lorde  Kenyon
estava na biblioteca.
O  sobrinho,  j informado  da chegada do  tio,  entrou  no  amplo  cmodo,
exclamando alegremente:
	Tio Kenyon! No tinha a menor idia de que havia voltado da ndia!
	Cheguei h dois dias.
	E  veio  at  aqui  para me  ver?  Que  timo!  Eu  j  comeava a pensar
que, no o vendo h tanto tempo, fosse apenas uma lenda.
	Estou aqui e bem vivo!  respondeu o tio com um sorriso.  Fico feliz
em rever a casa e constatar que est muito bem cuidada.
A conversa que precisava ter com o sobrinho e que o trouxera at Shaw
teria de esperar at depois do jantar. Tio e sobrinho tomaram juntos uma taa
de champanhe e foram trocar-se.
Durante  o  jantar,  o  marqus  fez  muitas  perguntas  sobre  a ndia,  s
quais o tio foi respondendo, bem humorado.
Agora cada um  deles  tinha um  copo  de  brandy	 sua frente;  lorde
Kenyon  achou  que  era o  momento  de  explicar  a razo  de  sua presena em
Shaw. Com ar casual, ele disse:
	Fiquei sabendo que est tendo alguns problemas.
Ele notou que Marcus ficou tenso.


45




	O que quer dizer com problemas?  perguntou cautelosamente.
	Sua tia Charlotte est muito preocupada com voc.
	No posso imaginar o motivo de ela estar assim.
	Ela o esperava em Londres e gostaria de poder anunciar seu noivado
com lady Sarah, mas voc no apareceu at o momento.
	Tenho  bons  motivos  para permanecer  aqui    disse  o  marqus,
depressa.  Tenho feito visitas para conhecer os fazendeiros e outras pessoas
que vivem em minha propriedade.
	 essa a nica razo?
	O que mais tia Charlotte lhe disse?
	Para ser franco, ela contou-me que se envolveu com uma jovem lady,
chamada Winterton.  Depois  de  t-la visto,  confesso  que  posso  compreender
seu interesse por ela.
	Depois de t-la visto? O que quer dizer?
	Quando  cheguei  aqui,  voc  havia  sado;  ento  fui  visitar  a srta.
Winterton.
	Impossvel!
	Por qu?
	Porque
O marqus parou de repente. Olhando fixamente para o tio, perguntou:
	O que, exatamente, andou contando  srta. Winterton?
	Disse-lhe  que  voc  est comprometido  e  que  pretende  anunciar  seu
noivado.
	Mas isso no  verdade!
	Ora,  Marcus!    repreendeu  lorde  Kenyon.    Pela informao  de  sua
tia,  o  duque  e  a  duquesa vem  com  bons  olhos  seu  casamento  com  a  filha
deles, e lady Sarah  uma moa muito agradvel.
	No  propus  casamento  a	lady	Sarah,  nem  pretendo  faz-lo!  Quando
conhecer Lucille Winterton, que pretendo desposar, ir compreender que tenho
razo de no querer outra mulher em minha vida.
	Mas j a conheci; acabei de lhe dizer.
	Tambm  disse  que  isso  seria impossvel,  uma vez  que  Lucille  e  eu
estivemos juntos a tarde toda!
Lorde Kenyon olhou surpreso para o sobrinho.
	Mas estive no solar e falei com a srta. Winterton!
	Sim.  Falou  com  a srta.  Dlia Winterton,  irm mais  velha de  Lucille.
Devo dizer-lhe que ela est convencida de que, devido  minha reputao, eu
no  seja a pessoa  certa para tornar-me  marido  da irm!  Dlia at  proibiu
Lucille de me ver!
Lorde Kenyon colocou o copo de brandy sobre a mesinha.
	Eu devo mesmo ser um obtuso, mas no estou entendendo!
	  muito  simples.  Dlia	Winterton  ouviu  falar  sobre  meu
comportamento  em  Londres  e  ficou  escandalizada.  Depois,  uns  meus  amigos
hospedaram-se  aqui  em  Shaw,  deixando  os  moradores  da vila chocados.  At
voc ficaria horrorizado se eu lhe contasse o que aconteceu.
	Posso imaginar.
	Mas,  depois  que  conheci  Lucille,  apaixonei-me  por  ela e  compreendi
que ela era a jovem a qual vinha buscando e com quem pretendo me casar.
	E  ela o  aceita como  marido?    perguntou  lorde  Kenyon  com  uma


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ligeira curva nos lbios.
	Ao  contrrio;  est com  desculpas,  mostra-se  evasiva,  simplesmente
porque sabe que minha famlia ir desaprovar nosso casamento. Eu lhe contei
que minha famlia nunca me deu ateno at eu tornar-me o quinto marqus.
Alm disso, Dlia, que deve ser a tutora de Lucille, simplesmente me considera
pssimo!
Lorde Kenyon no conteve o riso.
	Certamente nunca esperei por uma coisa dessas. Agora, ao saber que
conversei com a irm errada, sinto-me inquieto.
	Suponho que tenha sido rude com Dlia, o que s piora a situao.
	Oua, Marcus,  muito importante, no s pelo seu bem, mas pelo de
toda a famlia, que faa um casamento acertado.
	 exatamente o que pretendo fazer. Lucille  a mulher certa para ser
minha esposa. Voc pode dizer ou pensar o que quiser, mas fique sabendo de
que no vou deixar ningum escolher minha esposa.
	Soube que conheceu lady Sarah e achou-a muito agradvel.
	Reconheo que a considero uma companhia bastante agradvel, mas
no a amo. Amo Lucille, e ningum me impedir de torn-la minha esposa!
A  firmeza com  que  ele  falou  fez  o  tio  olh-lo,  surpreso.  Percebia,  pela
primeira vez,  que  no  falava com  um  rapaz  imaturo,  mas  com  um  homem
determinado,  que  sabia o  que  queria.  Lorde  Kenyon  achou  prudente  tentar
ganhar tempo. Em tom conciliatrio, disse:
	Se    como  diz,  Marcus,  respeito  seus  sentimentos  e  s  me  resta,
naturalmente,  desculpar-me  perante  a  srta.  Delia Winterton  por  tom-la por
Lucille. Espero que me apresente  verdadeira srta. Winterton, amanh.
	Isso no ser fcil.
	Por que no?
	Porque  Delia no  sabia que  Lucille  e  eu  nos  encontrvamos.  Agora,
depois  da sua visita,  ao  saber  que  vinha sendo  enganada,  tornar as  coisas
ainda mais difceis.
	Sinto muito ter sido o causador de tudo.
	Como  eu  poderia imaginar  que  voc  iria precipitar-se,  pondo  tudo  a
perder,  exatamente  quando  eu  tentava convencer  Lucille  a apresentar-me  a
Delia e tentar melhorar minha imagem aos seus olhos?
	S  posso  pedir  desculpas  por  tudo.  Talvez  seja conveniente  voltar
comigo para Londres; l conversaremos melhor sobre o assunto com sua tia.
	Posso  imaginar  claramente  o  que  tenta fazer!  Deseja  afastar-me  de
Lucille,  baseando-se  na velha  suposio  de  que  a distncia nos  far esquecer
um do outro! Minha resposta  um no absoluto! No vou abandonar Lucille,
no  vou  deix-la para outro  homem.  Pretendo  casar-me  com  ela,  assim  que
me aceite como seu marido!
O marqus saiu da sala, deixando o tio, que o fitava, atnito. Chegando
ao hall, ele subiu depressa as escadas, indo para sua sute, no primeiro andar,
no fundo do corredor.
Havia apenas mais trs sutes principais perto da que, tradicionalmente,
pertencia ao marqus. As outras ficavam na ala oeste.
Lorde  Kenyon  devia estar  ocupando  os  aposentos  ao  lado  da sute  do
sobrinho, que eram conhecidos como os aposentos do prncipe de Gales, pois
haviam sido ocupados por Jorge IV, no final do sculo anterior.


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Mal  entrou  no  quarto,  Marcus  tocou  a  sineta,  chamando  seu  valete,  e
comeou a trocar de roupa. Precisava falar com Lucille, e aquilo no seria fcil.
Ela devia estar  muito  contrariada depois  de  tudo  o  que  acontecera e
naquele momento precisava do apoio dele.
Amo-a!, disse a si mesmo, com veemncia, enquanto calava as botas
de montar. Ningum, nem mesmo tio Kenyon, ir me impedir de despos-la.
Antes  de  voltar  a falar  com  o  tio,  era imperioso  que  fosse  procurar
Lucille.
Assim que ficou pronto, desceu pelas escadas laterais que levavam para
a parte da frente da casa, no muito longe dos estbulos, na ala oeste.
O  cavalario  encarregado  do  servio  noturno  preparou  para o  amo  o
garanho  que  ele  costumava  montar,  e  o  marqus  partiu  em  direo  ao
parque.
O sol punha-se tarde naquela poca do ano, e atrs dos carvalhos o cu
mostrava algum  vestgio  das  tintas  carmesins  do  crepsculo.  As  primeiras
estrelas  j surgiam,  ainda plidas  e  tremeluzentes,  no  firmamento.  Era uma
noite de lua cheia.
Marcus seguia, rumo ao solar, pensando em como fazer para convencer
Lucille a vir cavalgar com ele. Poderiam ir para o bosque ou para qualquer um
dos esconderijos secretos que haviam descoberto durante a semana.
Tenho  de  falar  com  ela!  Lucille  precisa saber  que  nada   mais
importante do que o amor que nutrimos um pelo outro.
Sua apreenso  era  grande;  Delia  Winterton  tinha  dele  uma  pssima
impresso,  e  no  seria fcil  provar  que  ele  no  era  o  libertino  que  ela
imaginava.
Lucille lhe dissera que toda a vila comentava sobre os hspedes ruidosos
e as festas imorais oferecidas na Casa Grande. Em sua espontaneidade, ela at
perguntara se  as  ladies  danavam  mesmo  no  telhado  usando  apenas  uma
camisola.
	Algumas  delas,  sim;  no  todas    ele  respondera.  Lucille  observou,
com  seu  riso  costumeiro,  que,   medida que  a  histria ia sendo  contada,  ia
perdendo  sua veracidade,  e  que  logo  acabariam  dizendo  que  as 	ladies
danavam nuas.
	S  agora me  dou  conta de  que  fui  um  tolo  em  trazer  para Shaw
convidadas desse tipo  dissera o marqus, arrependido.  Eu poderia ter ido
para um dos hotis que alugam sales para tais festas.
	Existem lugares para isso? E se mais pessoas oferecem outras festas
ao mesmo tempo?
	  melhor  no  falarmos  sobre  isso    ele  respondera,  mudando  de
assunto.
Enquanto cavalgava, Marcus ia maldizendo-se por ter granjeado pssima
reputao, no apenas em Londres, mas tambm em Little Bunbury.
Agora era tarde para lamentar o que j havia acontecido; ele lembrou-se
de  um  velho  adgio  que  dizia:  Nenhum  pssaro  deve  enlamear  seu  prprio
ninho. E fora exatamente o que fizera.
Mas  Lucille,  sendo  to  linda,  to  ingnua e  pura,  precisava manter-se
distante  de  toda  a degradao  e  ignorar  o  lado  sujo  da vida que  at  h bem
pouco tempo ele considerava agradvel.
Olhando  para o  passado,  reconhecia  que  se  comportara de  modo


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irreverente e at indigno porque seu sentimento de rebeldia era mais forte. Os
anos que passara subjugado pela me pareciam no ter fim.
Durante toda a infncia e juventude poucas coisas lhe foram permitidas;
vivera cercado  de  tabus.  Assim,  ao  ver-se  senhor  de  si,  com  um  ttulo  de
nobreza,  rico  e  em  Londres,  deixara-se  levar  pelo  que  julgava ser  uma vida
de prazeres.
O  marqus  vivia cercado  de  mulheres lindas,  sofisticadas  e  experientes.
Elas  caam  facilmente  em  seus  braos,  bajulavam-no,  faziam-no  rir,  alm  de
lhe  ensinarem  milhares  de  coisas  que  jamais  pensara  ou  sonhara que
pudessem existir.
Com  os  homens,  costumava beber  e  fazer  apostas;  praticava com  eles
diversas  modalidades  de  esportes;  assistia a uma dezena de  competies;
seus cavalos corriam nos grandes prmios. Tudo era fascinante e to diferente
do norte!
Todavia, aqueles prazeres podiam ser comparados ao excesso de comida
ou  de  bebida:  pt  de  foie  gras  ou  champanhe  em  demasia causavam,
indubitavelmente, no dia seguinte, dor de cabea ou ressaca.
Embora lhe  pesasse  o  arrependimento  por  no  ter  sido  mais  moderado,
sentia o alvio de poder contar com a compreenso de Lucille. Ela era adorvel;
alm  de  linda,  inexperiente,  ingnua  e  natural,  era  compreensiva.  Talvez  a
educao  recebida na Frana fosse  responsvel  por  sua mente  aberta,  capaz
de distinguir as necessidades de um homem das de uma mulher.
Lucille  no  s  era  capaz  de  compreender  e  perdoar  um  homem  que
tivesse  cometido  suas  loucuras  da  juventude,  como  acreditava que  ele
pudesse  amar  uma  mulher  to  intensamente  que  as  outras  passavam  a no
mais  interess-lo.  Amo  Lucille  por  ser  assim,  to  diferente!  Passando  pelo
porto, ao fim do parque, estava bem perto do solar. Andando mais um pouco,
indo agora a passo mais lento, decidiu desmontar.
O  marqus  sabia onde  ficava o  quarto  de  Lucille,  voltado  para o  jardim
aos fundos da casa. Ela falava muito sobre seu modo de vida.
Deixando  as  rdeas  de  seu  cavalo  enroladas   balaustrada de  madeira,
foi andando pelo caminho coberto de cascalho at encontrar-se sob a janela de
Lucille.
Os criados j deviam ter-se recolhido, e ningum poderia v-lo ou ouvi-
lo.
Felizmente  a vidraa estava aberta e  via-se  luz  atravs  das  cortinas.  O
marqus  assobiou,  mas  no  houve  resposta.  A  um  novo  assobio,  ele  viu  a
cortina afastar-se  e  Lucille  aparecer   janela.  J era noite  fechada,  mas  a lua
que  subia  acima das  rvores  e  as  estrelas  agora bem  visveis  no  cu,
permitiam alguma viso. Mas, mesmo que estivesse escuro como breu, Lucille
saberia quem assobiava chamando-a. Ela inclinou-se no parapeito da janela o
mais que pde.
 Preciso v-la!   sussurrou o marqus. Lucille fez um sinal afirmativo
com  a cabea e  indicou   direita.  Ele  respondeu,  tambm  com  a cabea que
havia entendido I e foi para o lugar que fora indicado.
Lucille vestiu depressa, por cima da camisola, um bonito e elegante robe
de  cetim  azul  um  pouco  mais  claro  do  que  seus  olhos;  era enfeitado  com
rendas  e  fechado  na frente  com  botes  semelhantes  a  pequenas  prolas.
Naturalmente  seria  mais  apropriado  usar  um  vestido,  mas  Lucille  no  quis


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deixar  o  marqus  esperando;  ele  corria o  risco  de  ser  visto  no  jardim;  ou
Delia,  percebendo  movimento,  poderia vir  at  seu  quarto  para ver  se  tudo
estava bem.
Esta ltima possibilidade  era bem  remota,  pois  a irm j havia ido  para
seu quarto h cerca de uma hora. No entanto, ei prefervel no se arriscar.
Lucille  apagou  as  velas,  abriu  a porta sem  rudo  e  foi  caminhando
descala,  na ponta dos  ps,  pelo  corredor,  carregando  na  mo  os  chinelos  de
quarto.
Ao  chegar  s  escadas,  pde  ver  os  degraus  iluminados  apenas  pela luz
desmaiada  que  vinha atravs  das  grandes  janelas  antigas  que  ostentavam
brases coloridos.
No querendo abrir a pesada porta da frente, ela deu a volta e saiu pela
porta lateral, menor e mais silenciosa, que dava para o jardim.
O marqus j se encontrava do lado de fora e, mal viu Lucille, tomou-a
em seus braos, beijando-a com paixo, impacincia e arrebatamento.
Assim  que  se  viu  envolta naqueles  braos,  sentindo  a loucura daqueles
beijos,  soube  que  derramara lgrimas  desnecessrias  e  que  no  precisava
temer ser rejeitada pelo homem que amava.
Amo voc! Amo-o  tanto!, ela queria dizer, mas no havia necessidade
de palavras.
Aqueles  beijos  lhe  diziam  o  quanto  Marcus  a desejava  e  que  o  amor  de
ambos era mais forte do qualquer adversidade.
S depois de ela sentir-se transportada para o cu nos braos de Marcus,
ele ergueu a cabea e murmurou:
 Tenho de falar com voc, minha querida!
Ela fechou  a porta,  segurou  a mo  do  marqus  e  foi  conduzindo-o  para
uma sala de leitura muito atraente ao fim de um corredor longo e escuro. Ali a
me de Lucille costumava escrever suas cartas.
O  cmodo  era aconchegante  e  cheio  de  peas  valiosas,  de  famlia ou
souvenirs trazidos dos diferente lugares onde seus pais haviam estado.
Havia no  ar  um  suave  perfume  vindo  das  flores  que  Delia havia
arrumado.
Lucille  acendeu  as  velas  do  candelabro  sobre  a cornija da lareira,  e  o
marqus pde ver o retrato a leo do coronel Winterton, em seu uniforme.
 luz das velas, os cabelos dela ficaram mais dourados, e o azul de seus
olhos  mais  luminoso.  O  marqus  no  conteve  o  impulso  de  tom-la em  seus
braos  novamente.  Ela representava tudo  o  que  ele  mais  queria na vida e
jurou que no a perderia jamais.
	Amo  voc  e  no  poderia dormir  se  no  a visse,  se  no  lhe  falasse
desse amor!  ele disse com a voz ligeiramente trmula.
	Sofri tanto, imaginando que seu tio acabaria convencendo-o de voltar
para Londres e ento iria esquecer-me  disse Lucille baixinho.
	Achei  que  sua  reao  seria exatamente  essa.  Mas  disse  toda a
verdade para tio Kenyon.
	A verdade?
	Sim. Disse-lhe que a amo e que iremos nos casar!
	Oh, Marcus fala a srio?
Ele no respondeu  pergunta.
Abraando-a com fora, beijou-a loucamente, com mpeto e ardor.


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E Lucille soube ento que se pertenciam; ele no a deixaria jamais.









































































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CAPTULO V



Depois  de  um  sono  leve,  Delia acordou.  Estivera fazendo  os  ingressos
com  os  preos  para a exposio  durante  quase  o  dia todo  e  at  sonhara com
aquilo.
Respirando  aliviada,  lembrou-se  de  que  terminara a tarefa.  Comeou
ento a recordar a conversa que tivera com lorde Kenyon.
Na verdade,  no  haviam  conversado  e  sim  se  digladiado;  chegara a
sentir o forte antagonismo vibrando entre eles.
Havia sido  uma pena encontrarem-se  daquela forma;  um  pouco  triste,
ela pensou  que  nunca mais  teria a oportunidade  de  falar  com  lorde  Kenyon
novamente. Teria sido muito excitante  t-lo ouvido contar  sobre a ndia, uma
terra distante e cheia de mistrios que sempre a fascinara.
O  pai  costumava  contar-lhe  sobre  os  anos  em  que  havia servido  nos
Lanceiros  de  Bengala,  ainda no  seu  tempo  de  solteiro.  Depois  de  casado
continuara a carreira militar, mas em seu prprio pas. Depois da morte do pai,
ele  viera para o  solar  que  ficava em  sua propriedade,  no  campo,  em  Little
Bunbury.
O  coronel  jamais  se  esquecera da ndia  com  seus  encantos,  sentia
saudades  do  tempo  em  que  servira no  famoso  regimento,  notvel  por  sua
cavalaria.
Uma vez  o  coronel  Winterton  fora um  dos  elementos  d'O  Grande  Jogo.
Para Delia, a narrativa do pai sobre a misso que lhe fora confiada havia sido
mais emocionante do que ler um livro de aventuras.
O  pai  tambm  costumava falar-lhe  sobre  as  religies  da ndia.  Ao
discorrer  sobre    assunto,  ele  demonstrava grande  conhecimento  sobre  os
Vedas e sobre antigos manuscritos em snscrito.
Lorde  Kenyon  poderia contar-me  tantas  coisas  que  eu  adoraria ouvir
sobre  o  pas  que  ele  deve  conhecer  to  bem!  Delia pensou  com  um  suspiro.
Ao invs disso, houvera uma guerra entre os dois. Era melhor voltar a pensar
na exposio.  Naquele  instante  retornou   mente  uma conversa  qual  nem
prestara muita ateno. Ela estava trabalhando no escritrio, escrevendo com
capricho, em cartes, os ttulos das diversas classes de competidores, quando
Fl entrou.
Delia olhou  impaciente  para a criada,  e  esta explicou  que  viera apenas
lustrar os metais, como costumava fazer regularmente. Sem querer contrariar
a criada,  ela permitiu  sua  presena ali  e  s  esperava que  Fl  fizesse  seu
trabalho  em  silncio.  Foi  uma esperana v,  sendo  Fl  tagarela ao  extremo.
Mal comeara a polir o atiador de fogo da lareira, ela comentou:
	Dizem  que  h gente  estranha,  muito  estranha na vila.  O  que  acha
disso, srta. Delia?
Sem estar prestando ateno, Delia mal ouviu a pergunta. Mas a criada
no ficou desconcertada e prosseguiu:
	Soube  pela sra.  Geary  que  esses  estranhos  andaram  fazendo
perguntas sobre o pessoal da Casa Grande. Eu os achei muito atrevidos.
Ela terminara de  polir  o  atiador  e  havia pegado  a tenaz,  sempre
falando.
	Eles  andam  dizendo  que  vo  escrever  um  livro  sobre  as  casas

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ancestrais  inglesas,  mas  se  quer  minha opinio,  eles  no  passam  de  uns
enxeridos.  Queriam  saber  tudo  sobre  a Casa Grande,  quantos  criados  havia,
como  eram  os  aposentos  principais,  quantos  quartos  havia,  quem  dormia
neles.
Enquanto  as  mos  de  Fl  executavam  com  perfeio  sua tarefa,
deixando  cada pea  reluzente,  ela tagarelava mais  por  hbito,  pois  Delia  mal
ouvia.
  claro que a sra. Geary respondeu s perguntas, mas eu disse a ela
que no devia contar tantas coisas para estranhos. Mas ela disse  que era por
causa do  livro  que  iam  escrever.  No  confiei  nesses  estrangeiros,  esta   a
verdade! Ah, se visse esses homens, teria a mesma opinio que eu, no, srta.
Delia?
Fl esperava uma resposta e Delia disse vagamente:
	Estrangeiros?! Como sabe que eram estrangeiros?
	No  tenho  dvidas  sobre  isso!  Cabelos  negros,  olhos  negros,  pele
morena, mas do rosto salientes e, se quer saber o que penso, acho que so
de algum pas do Oriente do qual nem ouvi falar.
Depois de algum tempo, Fl saiu do escritrio carregando a caixa com o
material de limpeza.
Suspirando aliviada, Delia retomou seu trabalho.
S ento a histria de Fl voltara-lhe  cabea. Uma coisa lhe dizia que
era mesmo muito estranho haver estrangeiros, principalmente do tipo descrito
por  Fl,  em  Little  Bunbury.  De  repente,  ocorreu-lhe  que  os  tais  estrangeiros
talvez fossem russos.
Dando um grito, ela sentou-se na cama.
Claro  que  eram  russos!  E  estavam  perseguindo  lorde  Kenyon!  Por  essa
razo  haviam  feito  tantas  perguntas  sobre  a Casa Grande  e  sobre  quem
dormia nos quartos.
Delia	saltou  da	cama.  Acendeu  uma	vela	e  comeou  a	vestir
apressadamente a saia de montaria e uma blusa branca que se achava  mo.
Iria at  a Casa Grande  avisar  o  criado  que  estaria a servio  durante  a
noite,  de  que  a vida de  lorde  Kenyon  corria perigo.  Poderiam  at  rir  dela,
vendo-a chegar quela hora na manso. Mas era imperioso que o fizesse.
No  fundo  algo  lhe  dizia que  no  tinha  nada a ver  com  aquilo.  Mas  e  se
lorde  Kenyon  fosse  encontrado  morto  pela manh?  Sua conscincia no  a
deixaria em paz pelo resto da vida.
Seu  pai  lhe  dissera  que  os  membros  d'O  Grande  Jogo  conviviam  com  a
morte e um grande nmero deles morria. Por esse motivo era preciso manter
as misses em segredo: os russos tinham ouvidos que alcanavam longe. Uma
vez descoberta a identidade de uma pessoa da organizao, essa pessoa sofria
um acidente fatal ou simplesmente desaparecia.
O  coronel  costumava dizer  que,  embora fosse  muito  arriscada qualquer
misso  d'0  Grande  Jogo,  era tambm  uma glria ir  solapando  o  trabalho  do
inimigo implacvel que se empenhava em destruir a paz na ndia.
Cair nas mos do inimigo significava, quase sempre, torturas, o que era
ainda pior  do  que  a morte.  Para que  a identidade  dos  participantes  da
organizao no fosse revelada nem com torturas,  usavam-se nmeros e no
nomes.
Tudo aquilo ocorreu a Delia, que, no duvidando que os tais estrangeiros


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eram  mesmo  russos   procura de  lorde  Kenyon,  calou  as  botas  e  desceu  as
escadas depressa, sem ter pegado o chapu nem o casaco.
Aflita,  ela pensava que,  se  os  russos  pegassem  lorde  Kenyon,  talvez  o
torturassem, depois o matassem.
Ao chegar ao hall, onde havia claridade, pois o luar entrava pelas janelas
sem cortinas, Delia fez meno de ir at a porta da frente, mas deteve-se. Viu
que havia luz na sala de leitura.
Automaticamente, dirigiu-se para l e abriu a porta. Lucille e o marqus
achavam-se  sentados  no  sof.  O  brao  dele,  estendido  sobre  o  encosto,
apoiava a cabea de Lucille, que estava reclinada sobre seu ombro.
Os  trs  ficaram  meio  paralisados  pela surpresa,  mas  Delia recobrou-se
num segundo, dizendo com veemncia:
	Lorde Kenyon est em perigo! H dois russos na manso, e creio que
desejam mat-lo!
O  marqus  olhou  para ela sem  esconder  seu  espanto,  enquanto  se
levantava.
	V selar  um  cavalo  para mim!    Delia pediu-lhe.    Lucille  poder
acompanh-lo. Vou pegar algumas das pistolas de papai.
Lucille  murmurou  qualquer  coisa,  mas  a irm  j  se  afastava correndo,
indo para o hall.
Do lado oposto  porta de entrada ficava a sala de armas. Ali  havia um
grande  armrio  envidraado  onde  o  coronel  guardava diversas  armas  para
esportes  e  rifles.  Na parte  inferior  do  mvel  ficavam  as  pistolas,  algumas  j
muito antigas. Delia pegou uma delas que j usara praticando tiro ao alvo.
O  coronel  Winterton  ensinara a esposa e  as  filhas  a  atirar.  Ele  sempre
dizia que todas as mulheres precisavam aprender a defender-se.
A  sra.  Winterton  achava aquilo  desnecessrio,  mas  o  marido  pusera um
alvo no gramado e exercitava-se com a famlia. Para ele era um grande prazer
ver suas discpulas  acertarem na mosca; mais envaidecido ficava quando elas
lhe diziam que o mrito era do excelente instrutor.
Para incentiv-las  o  coronel  demonstrava sua  percia  atirando  nos
nmeros de cartas de baralho a uma boa distncia.
Quando estivera no colgio, na Frana, Lucille vangloriava-se de ser boa
atiradora e  uma vez,  tendo  sido  convidada a visitar  a famlia de  uma colega,
em  seu  chteau,  teve  de  demonstrar  sua habilidade  em  manejar  uma pistola
usada em duelos, causando a admirao dos presentes.
Com  sua pistola na  mo,  Delia escolheu  outra para o  marqus  e  uma
menor para Lucille, sabendo que a irm iria insistir em acompanh-los.
Rapidamente,  ela carregou  as  armas  e  pegou  um  bom  suprimento  de
balas extras. Ao sair da sala, atravessou o hall, abriu a porta e viu o marqus
aproximando-se,  puxando  pelas  rdeas  o  cavalo  que  acabara de  selar  para
Delia. Atrs dele vinha Lucille em seu baio favorito.
Delia mostrava-se ansiosa, imaginando se no seria tarde demais e lorde
Kenyon  j  estivesse  morto.  Ela  nem  notou  que  Lucille  estava usando  apenas
um robe.
Indo  ao  encontro  do  marqus,  Delia entregou-lhe  a pistola e	algumas
balas.	Ele	guardou-as	no	bolso	do	casaco, perguntando:
	Como sabe que os russos podem estar atrs de meu tio?
	Falarei  sobre  isso  mais  tarde    Delia respondeu  depressa.    S  h


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poucos instantes me ocorreu o que estava acontecendo.
O  marqus  ergueu-a,  colocando-a na sela.  Delia entregou-lhe  a terceira
pistola depois de ter pegado as rdeas.
	D esta arma para Lucille, e as balas tambm.
Voltando-se, ele fez o que Delia pedira e foi caminhando at o lugar onde
havia amarrado seu puro-sangue.
Delia foi seguindo pela entrada do solar; Lucille e o marqus vinham logo
atrs.  Ao  chegar    estrada,  os  trs  dobraram   esquerda,  e  poucos  minutos
mais tarde entraram no parque pelo mesmo porto que o marqus atravessara
h no muito tempo.
Ento  Delia comeou  a galopar  velozmente  sobre  o  caminho  irregular  e
acidentado. Se os russos j tivessem matado lorde Kenyon, os trs os veriam
fugindo da manso.
Ela mostrara-se to segura ao afirmar que lorde Kenyon corria perigo de
vida que o marqus ficara convencido e no fizera mais perguntas.
Eles chegavam ao fim do parque e estavam bem prximos da entrada da
manso. O marqus emparelhou-se com Delia.
Um  segundo  mais  tarde  ele  viu  uma carruagem  fechada.  Naquele
instante  a carruagem  atravessava a ponte  sobre  o  lago  e  parecia voltar  da
manso. Mas ainda estava a uma boa distncia.
Automaticamente, Delia encostou seu cavalo bem junto  cerca e os dois
acompanhantes fizeram o mesmo.
	Temos de det-los  ela sussurrou.
	Naturalmente!  respondeu o marqus.  Ningum viria visitar-me a
esta hora da noite.
	Os  russos  andaram  pela vila fazendo  perguntas  sobre  o  quarto  onde
lorde Kenyon dormia.
O  marqus  apenas  contraiu  os  lbios.  Seus  olhos  estavam  fixos  na
carruagem.  Esta  era puxada por  dois  cavalos  e  agora  j  se  achava a pouca
distncia deles.
Nesse  instante  o  marqus  foi  para o  meio  do  caminho,  Delia fez  o
mesmo  e  Lucille  ficou  do  outro  lado.  Os  trs  esperaram  a carruagem
aproximar-se.
 luz da lua os trs puderam ver dois homens sentados na bolia.
S  quando  j estava quase  em  cima  dos  trs  cavaleiros,  a carruagem
parou  por  completo,  e  um  dos  cocheiros  disse  em  pssimo  ingls,  com.
sotaque carregado:
	Ns querer passar! Ns pressa!
	Sou  o  marqus  de  Shawforde,  e  vocs  esto  em  minha propriedade.
Tenho todo o direito de saber quem so e para onde esto indo.
	Sai  do  caminho  ou  se  arrepender    disse  o  outro  homem  que  se
achava do lado do cocheiro.
Enquanto  falava,  ele  enfiou  a mo  dentro  do  casaco,  e  Delia atirou
imediatamente em seu brao. Ouviu-se um grito de dor.
Antes  que  o  outro  homem  pudesse  pegar  uma arma ou  reagir  de
qualquer outra forma, Lucille atingiu-o com um tiro no ombro.
O marqus nem sacara sua pistola. Ele conduziu seu cavalo para o lado
da carruagem, desmontou e abriu a porta.
Lorde  Kenyon  achava-se  estendido  no  banco  traseiro,  amarrado  e


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amordaado. Delia acabava de pr sua cabea para dentro da carruagem para
ver o que acontecia ali.
 No deixem esses homens escaparem!  ordenou o marqus.
Ajoelhando-se no soalho da carruagem, tirou a mordaa do tio e viu que
ele  tinha os  olhos  cerrados.  Sentindo  um  calafrio,  chegou  a pensar  que  lorde
Kenyon estivesse morto.
Um  exame  mais  cuidadoso  mostrou-lhe  que  seu  corao  batia e  sua
temperatura era normal.
O  marqus  desceu  da carruagem  e  viu  a cena l fora:  Delia,  montada,
segurava o  cavalo  dele  pelas  rdeas;  os  dois  homens,  sentados  na bolia
gemiam e encolhiam-se de dor, tendo Lucille apontando a pistola para eles.
O  marqus  arrancou  um  dos  homens  da carruagem,  atirando-o  na
grama. Em seguida fez o mesmo com o outro bandido.
Ao aproximar-se de Delia para pegar seu cavalo, ela disse baixinho.
	Creio  que    perigoso  levar  lorde  Kenyon  para a manso,  pois  outros
russos podero aparecer.
O marqus ficou pensativo.
	O que sugere?  ele perguntou.
	Ser melhor  lev-lo  para o  solar.  E  esses  dois  homens  feridos  no
podem ser encontrados em sua propriedade.
	Tem razo.
Caminhando at Lucille, o marqus disse-lhe:
	Sua irm acha mais aconselhvel no levar meu tio para a manso.
	Ele est vivo?
	Apenas  inconsciente,  graas  a Deus!  Sua irm e  eu  vamos  lev-lo
para o solar. Vou desarmar esses dois bandidos e quero que fique aqui; aponte
sua arma para eles  e  no  os  deixe  escapar.  Se  lhe  causarem  qualquer
problema, atire nas pernas deles.
	Pode deixar. Cuidarei dos dois. Mas por favor, no demore.
	Voltarei  o  mais  rapidamente  possvel,  querida,  dentro  dos  meus
limites humanos, claro.
Os dois olharam-se sorridentes e, ao v-los sob a luz do luar, Delia no
teve dvidas de que se amavam demais.
Mesmo  sem  ter  tocado  Lucille  era como  se  ele  a tivesse  envolvido  em
seus braos.
Depois  de  haver  tirado  as  armas  dos  dois  bandidos,  ele  sentou-se  na
bolia da carruagem  e  tocou  os  cavalos.  Tinha de  ir  devagar  e  com  cuidado;
Delia acompanhava-o conduzindo o belo puro-sangue.
No demoraram a chegar  propriedade Winterton.
Tendo  amarrado os  dois  cavalos   balaustrada de  madeira,  Delia correu
at a carruagem, em cujo interior o marqus j se achava, tentando tirar lorde
Kenyon do assento. Ela ajudou-o e, juntos, carregaram-no para o hall.
	Vamos  deix-lo,  por  enquanto,  no  sof,  depois  o  levaremos  para o
andar superior.
	Est bem.
Os  dois  continuaram  a carregar  lorde  Kenyon  com  alguma dificuldade
porque ele era pesado e, na sala de estar, deitaram-no em um sof.
	Temos de voltar, mas lorde Kenyon estar seguro.
	Graas  a voc!    disse  o  marqus,  agora calmo.  Tirou  a corda que


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amarrava as  pernas  do  tio,  mas  Delia  j se  afastava,  sem  esperar  o  que  ele
tinha a dizer.
Chegando  ao  hall,  ela abriu  uma arca  de  carvalho,  pegando  dali  duas
mantas de viagem, levando-as em seguida para a sala de estar.
Lorde  Kenyon  usava apenas  um  camisolo  de  dormir  e  devia estar
sentindo frio. Delia cobriu-o com as duas mantas e seguiu o marqus.
Antes  de  fechar  a porta para sair  ela olhou  mais  uma vez  para lorde
Kenyon  e  certificou-se  de  que  ele  estava confortvel,  bem  coberto  e  com  a
cabea apoiada em uma almofada de cetim.
Ele pareceu-lhe tambm muito bonito com os olhos fechados.
No  mesmo  instante  Delia sentiu  um  calafrio,  pois  aquele  belo  homem
deitado no sof deu-lhe a impresso de estar morto.
Mas  tivera apenas  um  pensamento  passageiro.  O  marqus  havia
assegurado  que  o  tio  estava apenas  desacordado.  Logo  os  trs  voltariam  e
cuidariam dele.
No  momento,  o  mais  urgente  era tirar  os  dois  seqestradores  da
propriedade do marqus.
Chegando  onde  se  achavam  os  cavalos,  o  marqus  ergueu  Delia,
colocando-a na sela e entregando-lhe as rdeas de seu prprio puro-sangue.
Subindo  rapidamente  na carruagem,  ele  fustigou  os  animais  e  partiu,
seguido de perto por Delia.
Chegaram  ao  lugar  onde  haviam  deixado  Lucille.  Ela estava adorvel
naquele robe azul. Com uma das mos segurava as rdeas do cavalo e, com a
outra, a pistola.
Os  dois  homens  achavam-se  no  mesmo  lugar  no  qual  o  marqus  os
havia jogado.  Do  pulso  de  um  dos  feridos  escorria um  filete  de  sangue,  e  no
casaco do outro formara-se uma grande mancha vermelha. Assim que viram o
marqus,  comearam  a reclamar,  mas  j foram  sendo  empurrados  para a
carruagem e atirados na parte de trs da mesma.
A  princpio  eles  falavam  em  russo,  depois  um  dos  raptores  conseguiu
dizer:
	Ns morrer! Ns precisar mdico!
	Ento vo ter de encontrar um!  respondeu o marqus batendo com
fora a porta da carruagem.
Subindo  para a bolia,  ele  tomou  as  rdeas.  Os  cavalos,  os  quais
certamente  j haviam  percorrido  uma grande  distncia,  mostravam-se  mais
lentos,  mas  prosseguiram  na maior  velocidade  que  as  foras  lhes  permitiam,
como se resignados com seu destino.
O  marqus,  seguido  das  duas  irms  Winterton,  voltou  para o  solar  pelo
mesmo caminho por onde tinham vindo.
Delia pensou  nos  dois  feridos,  achando  que  estavam  sofrendo  com  os
solavancos provocados pela corrida naquele caminho acidentado.
Merecem at mais do que isso!, ela pensou.
Mas na verdade no gostava de ver ningum sofrendo, nem mesmo um
inimigo.
Ao  chegarem   estrada,  Delia entregou  as  rdeas  do  puro-sangue  do
marqus  para Lucille  e  s  ento  percebeu  que  a irm  usava apenas  um  robe
sobre a camisola, mostrando-se surpresa, mas disse apenas:
 Vou na frente, a todo galope, cuidar do nosso paciente.


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Ela entrou  em  sua propriedade,  indo  para os  estbulos.  Felizmente
nenhum dos cavalarios estava acordado para fazer perguntas.
Deixando  o  cavalo  na baia,  ela mesma tirou-lhe  a sela e  os  arreios,
caminhando em seguida para dentro da casa.
Lorde  Kenyon  estava como  o  haviam  deixado;  ele  pareceu-lhe  um
expedicionrio das Cruzadas.
Ajoelhando-se,  ela tocou-lhe  a fronte,  constatando  que  a temperatura
estava apenas um pouco abaixo do normal.
Seria prudente  sentir-lhe  as  batidas  do  corao.  Para fazer  isso,  ela
afastou  as  mantas  e  enfiou  a mo  sob  o  camisolo  de  dormir,  sentindo-se
acanhada.
Controlando-se, Delia disse a si mesma que estava sendo ridcula; ali se
achava uma pessoa inconsciente, precisando de ajuda.
O  corao  de  lorde  Kenyon  batia,  embora fracamente.  Ela precisava
descobrir a razo de ele estar inconsciente.
Devia ter levado uma pancada na cabea. Os russos certamente haviam
entrado  em  seu  quarto,  encontrando-o  adormecido,  golpeando-o  em  seguida.
Talvez  pretendessem  interrog-lo;  nesse  caso,  a pancada no  teria sido  to
forte a ponto de prejudicar-lhe o crebro.
Delia no viu sinais de ferimentos, mas mesmo assim seria melhor lev-
lo para um dos quartos do andar superior e mandar chamar um mdico.
Havia, porm, um problema: se um mdico viesse atender lorde Kenyon,
logo  transpiraria o  que  havia acontecido.  Em  Londres  algumas  pessoas  j
sabiam das perigosas misses de lorde Kenyon na ndia; se o pessoal de Little
Bunbury ficasse a par do atentado contra o tio do marqus, a notcia espalhar-
se-ia nas asas do vento, e a identidade de lorde Kenyon como participante d'0
Grande Jogo seria do conhecimento de todos.
  importantssimo  evitar  que  isso  acontea,  pensava Delia enquanto
subia as escadas.
Entrando no quarto que havia sido de seus pais, verificou que a cama de
casal  estava arrumada.  A  criada costumava deixar  aqueles  aposentos  sempre
em ordem, no caso de aparecer inesperadamente alguma pessoa importante.
Os  lenis  e  fronhas  de  linho  arrematados  com  renda  cheiravam  a
lavanda.  Seguindo  os  mesmos  hbitos  da me,  Delia fazia questo  de  deixar
nos armrios de roupas sachs feitos com flores secas da prpria planta.
Acendeu as velas do candelabro que estava sobre a mesa de cabeceira e
foi  providenciar  algumas  bandagens,  no  caso  de  precisar  delas.  Sempre
deixava algumas prontas, para usar em alguma emergncia.
Feito  isso,  ela desceu  as  escadas  apressadamente,  esperando  que  o
marqus e Lucille chegassem logo.
Dez  minutos  mais  tarde,  os  dois  chegaram,  e  Lucille  foi  a primeira a
entrar na sala, encontrando a irm ajoelhada ao lado de lorde Kenyon.
	Como est ele?
	Sei  que  est vivo,  mas  acredito  que  seu  estado  inspira cuidados;  no
entanto, talvez no seja prudente mandar chamar um mdico.
Mesmo  sem  qualquer  explicao,  Lucille  percebeu  o  que  a irm queria
dizer e sugeriu:
	Marcus dar sua opinio. Ele foi levar meu cavalo para a baia.
	 bom deixarmos tudo em seus devidos lugares para ningum saber o


58




que aconteceu.
Delia sabia que,  se  os  moradores  da vila soubessem  o  que  havia
acontecido, ficariam escandalizados. E pensar que Lucille sara vestida apenas
com o robe sobre a camisola!
Como se percebesse o que a irm pensava, Lucille perguntou:
	Quer que eu suba e me vista?
Delia sorriu.
	Agora  tarde.
	Como  est meu  tio?    as  duas  ouviram  o  marqus  perguntar  ao
entrar na sala.
	Inconsciente, mas vivo. Precisamos lev-lo para cima.
	Muito bem.
Ele  segurou  lorde  Kenyon  pelos  ombros,  e  as  duas  moas  pelas  pernas,
carregando-o  pela escada dos  fundos,  at  o  quarto  onde  Delia estivera h
poucos minutos.
Mais uma vez ela ps a mo sobre a fronte dele e acabou de arrumar o
lenol de cima e a colcha, dizendo:
	Creio  que  lorde  Kenyon  tenha levado  uma pancada na cabea para
ficar inconsciente. Ele deve ser examinado por uma pessoa experiente.
	J pensei  nisso    respondeu  o  marqus.    Mas    de  suma
importncia mantermos  em  segredo  o  que  aconteceu.  Vou  voltar   manso
para buscar  o  valete  de  meu  tio.  Ele  era esperado  em  Shaw  esta noite,
devendo trazer a bagagem de seu amo. Higgins esteve na ndia com meu tio e
conhece todos os seus hbitos.
Percebendo que Delia mostrava-se indecisa, Marcus explicou:
	Tio Kenyon contou-me certa vez que Higgins cuidou dele quando teve
malria e tambm  quando foi baleado. Tenho a impresso de que esse valete
far a contento as vezes de um mdico.
	Ento,  por  favor,  poderia ir  busc-lo?    perguntou  Delia.    Pense
tambm em um modo de evitar conversas entre os criados. Vou me assegurar
de que aqui no solar ningum revele que lorde Kenyon se encontra conosco.
	Farei o possvel, mas no ignora que os criados falam como gralhas.
Delia no pde conter o riso, sabendo que aquilo era verdade.
O  marqus  desceu  as  escadas  e  Lucille  seguiu-o.  Delia ouviu-os
conversando  baixinho,  mas  suas  vozes  foram  sumindo  no  corredor   medida
que ambos se afastavam.
Apesar do que falavam do marqus, Delia gostara dele. No podia negar
que,  naquelas  poucas  horas  de  convivncia,  ele  mostrara-se  senhor  de  si,
apesar de ser ainda jovem. Alm disso, tinha inteligncia, presena de esprito
e autoridade.
Lucille voltou e disse ao entrar no quarto:
	Marcus e eu deixamos aqueles russos na estrada principal. Eles tero
grande  dificuldade  para explicar,  a  quem  encontr-los,  o  que  aconteceu.  
muito  provvel  que  nos  acusem  de  termos  atirado  neles  e,  se  o  fizerem,
Marcus  dir que  os  encontrou  em  sua casa,  tentando  roubar,  e  que  havia
atirado neles para defender-se.
	Tudo isso est ficando mais parecido com um romance de aventuras!
Mal posso acreditar que esteja acontecendo conosco!
	Marcus  achou  que  voc  foi  brilhante  em  descobrir  que  aqueles


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homens deviam ser russos e que estariam atrs de lorde Kenyon.
	Temos  de  agradecer  a Fl!  Esta tarde  eu  trabalhava no  escritrio,  e
ela apareceu  para polir  as  peas  da lareira.  Enquanto  fazia seu  servio
tagarelava sem  parar.  Confesso  que  nem  prestei  muita ateno  ao  que  ela
disse. Mas o fato  que acordei esta noite, depois de um sono leve, e ocorreu-
me  que  havia ligao  entre  a histria de  Fl  e  o  que  voc  me  contou  sobre
lorde Kenyon ser membro d'O Grande Jogo.
	Que  histria foi  essa e  como  descobriu  que  os  tais  russos  estavam
atrs de lorde Kenyon?
	Fl  disse  que  dois  estrangeiros  andaram  fazendo  perguntas   sra.
Geary;  queriam  saber  inmeras  coisas  sobre  a manso  e  at  perguntaram
sobre os quartos e sobre possveis visitantes!
	Naturalmente, a sra. Geary contou tudo o que eles queriam saber!
	Claro! Ela no poderia resistir  tentao!
	Bem,  pelo  menos  desta vez  a tagarelice  de  Fl  serviu  para alguma
coisa!  exclamou Lucille, rindo.
Em  seguida ela lanou  um  olhar  apreensivo  para lorde  Kenyon  e  Delia
tranqilizou-a.
	Tenho certeza de que lhe deram apenas uma pancada na cabea para
deix-lo  inconsciente.  No  tiveram  inteno  de  mat-lo;  acredito  que  o
levavam para algum lugar com o fim de interrog-lo.
	No posso acreditar que isto esteja acontecendo em Little Bunbury! E
eu que sempre imaginei este lugarejo como um buraco cheio de mortos-vivos,
onde nada acontecia de sensacional alm do canto do cuco!
A irm no conteve o riso.
	Realmente,  tivemos  muitas  emoes  em  apenas  um  dia!  Bem,  s
espero que o marqus no se demore muito.
	Por  falar  nele,  admita que  Marcus  sabe  ser  eficiente  quando  
necessrio!  exclamou Lucille, cheia de orgulho.
	Reconheo que ele foi esplndido!
Lucille notou um brilho de alegria nos olhos de Delia e ficou enternecida.
Depois de um momento, ela disse:
	Acho que uma xcara de ch iria fazer-nos um grande bem, mas ser
melhor no irmos  cozinha.
	Claro!  No  podemos  despertar  a curiosidade  dos  criados.  Primeiro
quero dizer a todos que recebemos um visitante inesperado. Vou pensar numa
histria convincente.  Talvez  eu  diga que  lorde  Kenyon    um  hspede  comum
que se sentiu mal logo aps sua chegada.
	Vamos  falar  com  Marcus;  tenho  certeza de  que  ele  pensar em  uma
boa soluo.
Lucille saiu do quarto, e quando estava chegando ao patamar, ao alto da
escada, viu o marqus.
Ele  havia sado  h pouco  mais  de  meia hora e  j estava de  volta,
fazendo-se  acompanhar  de  um  homem  magro,  mas  rijo,  revelando  que  havia
sido  um  soldado.  No  entanto  seus  modos  eram  os  de  um  valete  com  muita
prtica.
	Boa-noite,  senhorita!    disse  ele,  dirigindo-se  a Delia,  assim  que
entrou  no  quarto.    Sua  Senhoria  contou-me  que  meu  amo  teve  problemas
novamente. No me surpreendo!  s tirar os olhos de cima dele, e ele faz das


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suas!
O modo como falou fez Delia rir. Depois ela disse:
	Estou  muito  preocupada com  lorde  Kenyon,  pois  est imvel  e
inconsciente h bastante tempo!
Higgins  aproximou-se,  ficando  ao  lado  de  seu  amo.  Demonstrando  ser
um homem experiente, examinou-lhe a cabea.
	Isto  vai  doer  muito  amanh.  Bateram-lhe  com  alguma coisa pesada,
mas no h corte, apenas um galo.
	No h nada que possamos fazer?
	Por enquanto, nada. Vamos deixar que volte a si naturalmente.
Higgins  insistiu  para que  todos  fossem  dormir  e  deixassem-no  cuidando
do amo.
Delia indicou  ao  valete  o  quarto  de  vestir,  contguo  quele  no  qual  se
achavam, dizendo que ele poderia descansar ali; depois recomendou-lhe, meio
hesitante:
  Suponho  que  Sua Senhoria lhe  tenha explicado  que devemos  manter
os criados da casa longe destes aposentos.
	J dei  todas  as  ordens  a Higgins    disse  o  marqus.    Sei  que  ele
costuma manter a boca fechada.
	Tenho  tudo  aqui  dentro  de  minha cabea,  milorde!    respondeu  o
valete com um sorriso.
	Estarei em meu quarto, que fica no comeo do corredor, caso precise
de alguma coisa  disse Delia.
	Obrigado, senhorita. Em pouco tempo me oriento.
Os  trs  saram  do  quarto  e  caminharam  at  o  patamar,  ficando  ali
parados  por  alguns  minutos.  Antes  de  descer  as  escadas,  o  marqus  disse  a
Delia:
	Nem sei como comear a agradecer-lhe por ter salvado a vida de  tio
Kenyon!  Se  no  fosse  sua interveno,  s  Deus  sabe  onde  ele  poderia estar
neste instante!
	No  pensemos  nisso.    to  assustador!  Poderemos  falar  sobre  o
assunto amanh; quem sabe seu tio far alguns esclarecimentos sobre aqueles
dois homens.
	Tudo o que posso dizer  que minha vontade era que eles sangrassem
at  a morte.  Receio  que  ainda tenhamos  problemas  e  que,  de  alguma forma,
eles nos envolvam.
	Isso no pode acontecer!  exclamou Delia depressa. Ela pensava na
reputao de Lucille.
	Concordo com voc. Mas o importante  que agora tio Kenyon est a
salvo. E, j que se encontra nesta casa, poder conhecer melhor minha futura
esposa.
O  marqus  disse  aquilo  olhando  fixamente  para Delia,  e  ela percebeu
que se encontrava diante de um homem determinado a conseguir o que queria
e que era, sem dvida, muito inteligente.
	Creia que este tambm seja um assunto para ser tratado amanh 
ela respondeu suavemente.
	Estarei  de  volta amanh,  bem  cedo    prometeu  o  marqus.    Boa-
noite, srta. Winterton e obrigado, do fundo do meu corao.
Ele estendeu a mo e ao pegar a de Delia, levou-a aos lbios.


61




O marqus desceu as escadas acompanhado de Lucille. Delia foi para seu
quarto, fechando a porta atrs de si.
Parecia-lhe  impossvel  que  tanta coisa houvesse  acontecido  em  to
pouco tempo.
Enquanto  se  trocava,  viu-se  assaltada por  estranhos  pensamentos,
primeiro, que seria emocionante falar com lorde Kenyon novamente, segundo,
que,  embora seu  crebro  no  quisesse  admiti-lo,  ela  sentia que  Lucille  e  o
marqus haviam sido feitos um para o outro. Mas no mesmo instante a razo
pareceu gritar:
 impossvel! Totalmente impossvel o casamento dos dois!
A  famlia	do  marqus  jamais  aceitaria	Lucille,  lembrou  Delia,
desalentada.





















































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CAPTULO VI



Lucille tomava o caf da manh quando Delia entrou na sala de jantar.
	Como est nosso paciente?  perguntou, e Delia sorriu.
	Higgins disse-me que ele passou bem, mas cerca de duas horas atrs
comeou a agitar-se.
	Espero  que  volte  logo  a si.  Quem  sabe  consegue  lembrar-se  do  que
lhe aconteceu.
Delia achou aquilo  improvvel, mas percebeu aliviada que a irm falava
naturalmente sobre lorde Kenyon. Parecia no mostrar ressentimentos, mesmo
depois de saber qual havia sido o propsito de sua vinda a Little Bunbury.
Ela comeava a servir-se  quando  ouviu  o  barulho  de  uma carruagem
chegando.
Lucille ficou atenta e olhou ao redor.
	Tenho a impresso de que  Marcus  observou.
	To  cedo  assim?!    exclamou  Delia,  surpresa.  Lucille  estava certa  e
levantou-se num salto ao ver o marqus entrando na sala sem ser anunciado.
	O que aconteceu? Alguma coisa errada?
	Bom-dia
Ele  olhava para Lucille  de  tal  forma que  deixou  evidente  que  ia
acrescentar  uma expresso  carinhosa,  mas  parou  a tempo  e  voltou-se  para
Delia.
	Bom-dia,  srta.  Winterton.  Pensei  em  vir  falar-lhe  antes  de  ir  para
Londres.
	Vai para Londres?  gritou Lucille.  Mas por qu?
Ela sups que ele a estava abandonando e no escondeu sua apreenso.
	Vou contar-lhes tudo. Posso sentar-me?
	Naturalmente!    respondeu  Delia  depressa.    Desculpe-me,  parece
que  me  esqueci  de  minhas  boas  maneiras.  Na verdade  ainda estou  confusa
com o que aconteceu ontem  noite.
	No  de admirar!
O marqus sentou-se  mesa e Lucille perguntou:
	J tomou o caf da manh? Ou aceitaria uma xcara de caf?
	Obrigado. J tomei caf e s desejo conversar com vocs.
Lucille  sentou-se  e  Delia voltou  sua  ateno  para o  marqus,  que
comeou:
	Pensei  muito  ontem   noite  e  creio  que  arranjei  um  argumento
convincente  para justificar  aos  criados  a ausncia  de  meu  tio.  Contei  a  todos
que  ns  dois  samos   noite  para um  passeio  a cavalo  e,  subitamente,  tio
Kenyon  teve  um  ataque  de  malria.  Ningum  ignora que  uma pessoa que  j
teve a doena pode ser acometida por repentino ataque de tremores.
Delia e Lucille assentiram com a cabea.
	Como  ns  estvamos  mais  perto  do  solar  do  que  de  Shaw,  achei
melhor pararmos por ali. Ento a srta. Winterton, muito amavelmente, levou o
enfermo para cima, enquanto eu voltava para a manso  procura de Higgins.
	Acho que foi uma explicao excelente!  exclamou Lucille.
	Lorde Kenyon passou bem a noite  disse Delia em voz baixa  mas
ainda no voltou a si.

63




	Uma concusso cerebral s vezes  demorada  observou o marqus.
	Pelo menos ele est vivo  disse Lucille.
	Pensava exatamente  nisso  e  devemos  tudo   sua irm.    Ele  olhou
para Delia, dizendo:  Ainda estou pensando em como poderia demonstrar-lhe
minha profunda gratido.
	Ora,  por  favor!  Dessa forma me  deixa embaraada.  Devo  confessar-
lhe que ainda receio que aqueles homens horrveis possam tentar seqestr-
lo novamente.
	Acho  bastante  improvvel.  Mas  pretendo  tomar  minhas  precaues.
Por  enquanto,  disse  apenas  ao  meu  mordomo  que  mandasse  um  criado  para
c.  Ele  poder prestar  diversos  servios,  entre  eles,  carregar  bandejas  para o
quarto  de  nosso  paciente.  Tambm  pedi  que  ele  providenciasse  uma das
ajudantes de cozinha, pois sua cozinheira vai precisar dela.
Delia olhou  surpresa para ele;  parecia que  o  marqus  assumia o
comando da casa, deixando-a sem autoridade. Antes que ela pudesse dar seu
parecer, ele continuou:
	Outra providncia que tomei foi pedir  esposa do meu administrador,
a sra. Watkins, a quem sei que conhece, para vir dormir aqui todas as noites.
Ela garantiu-me que no haver problemas, pois tem bastante servio apenas
durante  o  dia.  Acredito  que  a presena de  uma senhora  noite,  seja
necessria.
Delia ficou tensa. Ia reclamar que aquela interferncia da parte dele era
perfeitamente dispensvel, mas ele ainda no havia terminado e acrescentou:
	Mesmo  estando  meu  tio  doente,  convm  que  Lucille  e  a senhorita
tenham uma dama de companhia.
Delia respirou  fundo.  As  palavras  que  pensara em  dizer  morreram-lhe
nos lbios.
O marqus sorriu para ela, como se lhe adivinhasse o pensamento.
	Tenho de pensar na reputao de Lucille e na sua.
	Vai  a Londres?    perguntou  Lucille,  demonstrando  o  quanto  tal
viagem a afligia.
O marqus, ento explicou-lhe:
	Ontem   noite,  ao  voltar  a Shaw  para buscar  Higgins,  este  disse-me
que  havia  trazido  algumas  cartas  para seu  amo.  Uma delas,  mandada pelo
primeiro  ministro,  dizia que  ele  soubera da chegada  de  meu  tio  e  que
precisava v-lo imediatamente.
	Mas isso  impossvel!
	Exatamente.  por isso que irei a Londres ver o marqus de Salisbury.
Direi  que  tio  Kenyon  no  pde  atender  ao  pedido  dele  e  inform-lo-ei  do  que
aconteceu ontem  noite.
Delia deu um pequeno grito.
	Acha que  prudente fazer isso?
	Se  for  mesmo  verdade  que  h outros  russos  envolvidos  no  atentado
contra lorde Kenyon, alm dos dois que apanhamos, o primeiro ministro deve
ser informado de tudo.
	Suponho que seja mesmo necessrio  disse Delia, meio  relutante.
	Quanto  mais  depressa eu  partir,  mais  depressa voltarei    ele  disse,
levantando-se.  Cuidem-se bem e creio que no haver problemas at minha
volta.


64




O  marqus  caminhou  at  a porta acompanhado  de  Lucille.  Delia no  se
moveu. O que o marqus acabara de dizer deixara-a atordoada.
	Esqueci-me  de  uma coisa   ele  disse  ,  e    muito  importante  para
mim.
	O que ?
	Eu estive pensando que, uma vez que tio Kenyon est aqui no solar,
todo o pessoal da vila vai achar que somos bons amigos; portanto, seria uma
boa idia voc convidar-me para a abertura da exposio!
Delia olhou para ele, parecendo no acreditar no que ouvira.
	A abertura da exposio?  ela repetiu tolamente.
	Lucille  me  disse  que    muito  importante  para mim  conhecer  meu
prprio povo  explicou o marqus com um sorriso.  Facilitaria muito se eu
ficasse conhecendo uma poro de pessoa ao mesmo tempo!
Delia ouviu a irm dar um grito de alegria e dizer em seguida:
	Mas    uma idia excelente!  Todos  ficaro  emocionados  com  sua
presena e  iro  querer  falar  com  voc.  H muito  que  anseiam  por  uma
oportunidade desta.
O marqus no respondeu; tinha os olhos fixos em Delia.
	Ns  ficaramos  muito  honrados,  naturalmente    ela disse  depois  de
um momento.  Vou falar com o pastor sobre isso esta manh.
	  importante  que  fale  tambm  com  a sra.  Geary    sugeriu  Lucille,
sem se conter.
	Farei  isso    prometeu  Delia,  ainda meio  atordoada,  mas  no
contendo o riso.
	Obrigado. Falaremos sobre o assunto quando eu voltar. Pela segunda
vez ele deixou a sala.
Delia sentiu  que  sua cabea girava e  o  mundo  parecia estar  de  pernas
para o ar.
Seria mesmo  verdade  que  lorde  Kenyon,  tendo  sido  atacado  pelos
russos, achava-se no momento dormindo no andar superior do solar? E que o
marqus, a despeito de sua reputao, ia participar da abertura da exposio?
No  restavam  dvidas  de  que  ainda teria muitos  problemas  pela frente.
Mas  agora o  importante  era avisar  os  Hanson  de  que  viria uma ajudante  de
cozinha e um criado para ajud-los.
Eles, obviamente, ficariam satisfeitos.
No  mesmo  instante  ela pensou  que  talvez  seus  criados  pudessem  ficar
melindrados por receberem ajudantes de fora.
Delia no conseguiu acabar de tomar o caf da manh e foi ver Lucille.
Ela estava na sala de armas limpando as pistolas que haviam sido tiradas
do  armrio  na noite  anterior.  Em  sua mo  ela segurava a pistola que
pertencera ao pai.
	O que est fazendo?  perguntou Delia.
	Marcus  pediu-me  para entregar  uma arma a Higgins  e  para uma de
ns ficar sempre no quarto de lorde Kenyon.
Delia olhou surpresa para a irm.
	Naturalmente.  Eu  devia ter  pensado  nisso.  Precisamos  nos  revezar
para Higgins ter um poupo de descanso. Imagino que voc vai dar um passeio
a cavalo.
	Pensei mesmo em ir cavalgar um pouco, mas sem Marcus no vai ter


65




graa.
Delia apertou os lbios, mas nada disse.
	Acho que no adianta mais esconder que nos encontrvamos todas as
manhs    Lucille  disse  com  franqueza.    Voc  no  pode  mais  continuar
dizendo que ele  m pessoa, pois viu como ele foi admirvel ontem  noite.
	Sim foi mesmo  Delia admitiu, depois de alguma hesitao.
Lucille deu um grito, demonstrando seu contentamento.
	Eu  tinha certeza de  que  voc  iria gostar  de  Marcus  quando  o
conhecesse e lamento, querida, t-la enganado, mas era impossvel deixar de
encontrar-me com ele.
	Compreendo    disse  Delia suavemente.    Mas  est  consciente  de
que no vai ser fcil casar-se com ele?
A felicidade desapareceu dos olhos de Lucille.
	Sei  que  vai  mesmo  ser  difcil  enfrentar  aqueles  orgulhosos  parentes
de Marcus, de nariz empinado. Eles pensam que eu armei uma armadilha para
agarrar um marqus.
	Talvez  as  coisas  se  ajeitem,  mas  medite  sobre  o  assunto  com
seriedade.
	No  fao  outra  coisa.  Amo  Marcus  e  ele  me  ama!  Isso    mais
importante do que a opinio de vrios parentes desagradveis que olham para
os outros por cima de seus narizes compridos.
Delia ficou pensativa. A famlia do marqus poderia causar a infelicidade
de Lucille se no a aprovasse, mesmo que a irm tivesse o apoio e a proteo
do homem que amava.
Mas  uma revolta crescia dentro  de  si  ao  imaginar  que  algum  pudesse
considerar  Lucille  m esposa para o  marqus.  Justamente  ele,  com reputao
nada recomendvel.
Mas de nada adiantava aborrecer a irm.
	Levarei  esta arma para Higgins  e  direi  para ele  ir  dormir  um  pouco.
Esta outra pistola fica comigo.
	S ficaram aqui pistolas muito pesadas! No terei uma arma para me
defender    Lucille  reclamou.    Ora,  ningum  tentar  seqestrar-me.  Confio
na minha sorte e no bom senso.
	Talvez  seja melhor  fazer  seus  passeios  acompanhada  por  um  dos
cavalarios  sugeriu Delia, demonstrando sbita apreenso.
	Eu  s  estava brincando!    exclamou  Lucille,  sorrindo.    Os  dois
russos,  espero,  devem  estar  completamente  fora de  cena,  e  acho  improvvel
que haja mais algum deles escondido nas redondezas.
	Sinceramente, tambm espero que no haja mesmo.
Delia falou  em  tom  srio,  mas  a irm  j ia saindo  da sala de  armas  e
corria para os estbulos.
Quem  iria imaginar  que  fosse  possvel  acontecer  tudo  isto  em  Little
Bunbury?, Delia pensava enquanto subia as escadas, ao encontro de Higgins,
levando consigo as duas pistolas.

Lorde  Kenyon  comeava a recobrar  a  conscincia.  Ele  sentia como  se
estivesse passando atravs de um longo tnel, ao fim do qual havia uma luz.
A  um  pequeno  movimento  seu,  uma  dor  aguda na  parte  de  trs  da
cabea f-lo gemer.


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Percebeu ento que uma pessoa achava-se ao seu lado e que no ar havia
um suave perfume de violetas. Uma voz macia chegou aos seus ouvidos.
	Est tudo bem. Aqui est em segurana.
A palavra segurana ficou gravada em sua mente.
Talvez  ele  tivesse  recebido  um  ferimento  e  achava-se  em  um  campo
ingls.
Veio-lhe    mente  uma caminhada longa e  penosa  por  um  terreno
montanhoso,  com  o  vento  frio  aoitando-lhe  o  corpo.  Sentia-se  extenuado,
queria descansar, mas sabia que seria perigoso.
Seus  perseguidores  no  deveriam  estar  muito  longe.  Era imprescindvel
alcanar os ingleses. A informao que ele recebera era de vital importncia.
Se  morresse  antes  de  transmitir  o  que  sabia,  talvez  centenas  ou  at
milhares de soldados poderiam perder a vida.
Em sua agonia pensava em continuar, mas suas pernas no conseguiam
mover-se.
Lorde  Kenyon  tentou  virar-se  e  gemeu  mais  uma vez.  Sentiu  uma  mo
macia pousar em sua testa e um instante depois percebeu o contato com algo
mido e frio.
	Pode  dormir,  est seguro,  ningum  ir fazer-lhe  mal  ,  ele  ouviu
novamente a mesma voz musical dizer.
Aquelas  palavras  eram  to  tranqilizadoras  que  pareciam  ter  sido  ditas
por sua me.
Lorde  Kenyon  teve  a sensao  de  estar  deslizando  suavemente,  sendo
carregado por uma nuvem.
Quando lorde Kenyon acordou novamente, sua impresso era a de haver
dormido durante um longo, longo tempo.
Ao  abrir  os  olhos  viu-se  em  um  quarto  estranho,  onde  nunca havia
estado. Ali no era o alto da montanha que vira em seus sonhos. Continuando
deitado, ele  imaginava onde poderia estar e a razo de sua presena naquele
quarto.
Algum  se  achava ao  seu  lado.  Uma voz  alegre,  porm  desconhecida,
perguntou-lhe:
	Est acordado? Pode ouvir-me?
Muito  devagar  ele  voltou-se  para a  direo  de  onde  vinha a voz.  Devia
estar  sonhando  ou  estaria morto;  nunca imaginara que  algum  pudesse  ter
aquela aparncia de anjo.
Aquela figura angelical, de cabelos loiros circundando como uma aurola
um  rosto  pequeno  onde  brilhavam  dois  enormes  olhos  azuis,  fitando-o  de
modo indagador.
	Onde estou?  quis saber lorde Kenyon.
	Est em  segurana,  e  ningum  lhe  far mal.  Gostaria  de  tomar
alguma coisa?
Sem esperar resposta, Lucille foi buscar um copo com bebida  base de
cevada e suco de limo que Dlia deixara sobre a mesinha de cabeceira.
Higgins  recomendara que  lorde  Kenyon  no  devia levantar  a cabea e,
passando  o  brao  ao  redor  dos  ombros  do  paciente,ela o  ergueu  apenas  o
suficiente para que pudesse tocar os lbios na bebida.
At mesmo o leve movimento fez com que ele estremecesse de dor.
	Logo ir sentir-se melhor. Agora durma um pouco.


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Lorde  Kenyon  quis  reclamar  que  no  tinha vontade  de  dormir.  Queria
saber onde estava e quem era aquele anjo que lhe dava de beber.
Mas  o  esforo  para  tal  seria penoso  demais.  A  dor  na parte  traseira da
cabea era intensa e ele fechou os olhos
Quando  lorde  Kenyon  acordou  novamente  ouviu  a voz  de  Higgins;  no
confundiria a voz do fiel valete com a de nenhum outro homem.
	Ele passou bem a noite, srta. Dlia; teve um sono tranqilo e acredito
que em pouco tempo voltar a ser o que era antes.
	Espero que sim. Estava preocupada com a demora de ele voltar a si.
	De agora em diante no h mais motivo para preocupaes.
	J que est tudo bem, pode ir descansar, Higgins.
	Devo  admitir  que  agora ficaria contente  em  fechar  os  olhos  por
algumas horas.
Lorde  Kenyon  ouviu  a porta fechar-se,  e  algum  aproximou-se  de  sua
cama, ficando ali, parada.
Ele  j havia sentido  antes  aquele  perfume  de  violetas  e  tambm  j
ouvira aquela voz. Ao abrir os olhos, viu o rosto de uma jovem que se achava
ajoelhada ao lado da cama.
Ela no conteve uma exclamao de alegria e perguntou:
	Pode ouvir-me?
	S-sim  ele respondeu com alguma dificuldade.
	Sabe quem  voc?
	Sim sou lorde Kenyon Shaw.
	Ento est bom! Fico to contente em saber disso!
Ele sorriu ao ver aquela alegria e perguntou:
	Onde estou?
	Est no solar. Deve lembrar-se de que esteve aqui logo ao chegar de
Londres.
	O solar! Ʌ a srta. Winterton?
	Exatamente.
Ele  ficou  pensativo  durante  um  tempo  relativamente  longo,  antes  de
dizer:
	Eu no compreendo.
	Contarei o que aconteceu assim que estiver melhor, no h pressa.
Lorde Kenyon fitou aqueles grandes olhos cinzentos, to prximos a ele.
	Voc ficou to zangada comigo!
	Sim, sei disso, mas no estou mais zangada, sinto-me realmente feliz,
muito feliz por v-lo to bem!
	O que aconteceu? Por que me encontro aqui?
	No tardar a saber de tudo, e  uma histria emocionante, mas por
enquanto  melhor dormir mais um pouco.
	J me cansei de dormir.
A voz dele soou to forte e mal-humorada que Delia sorriu.
	No  de admirar! Esteve dormindo durante trs dias. Lucille chegou a
cham-lo de Rip Van Winkle, o personagem da histria de Washington Irving!
Lord Kenyon esboou um sorriso.
	Suponho  que  tenha uma explicao  para este  meu  estranho
comportamento.
	Se  for  dormir  agora,  quando  acordar,  prometo  contar-lhe  o  que


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aconteceu.
	No vou mais dormir!
Sua voz soou com firmeza, e ele fechou os olhos por alguns segundos.
Surpreso,  sentiu  os  movimentos  suaves,  ritmados  e  vagarosos  da mo
de  Delia sobre  sua  fronte  e  deixou-se  levar  pelo  conforto  e  alvio  daquele
gesto.
No tardou a mergulhar novamente num sono profundo e restaurador.

Lucille e Delia esperavam ansiosas a volta do marqus.
	Ser que  ele  chegar aqui  antes  do  jantar?    Lucille  j perguntara
uma dzia de vezes.
Embora relutantes, ambas subiram para trocar-se.
Depois  de  uma refeio  leve,  as  duas  irms  foram  para o  salo  e
ouviram o barulho de uma carruagem chegando.
Lucille  no  esperou  que  Hanson  ou  o  novo  criado  abrisse  a porta;  ela
mesma correu para o hall e o fez.
	Est de  volta!  Que  bom  que  est de  volta!    ela exclamou,  vendo  o
marqus descendo de sua carruagem.
	Sinto muito pela demora, mas estive bastante ocupado.
Ele  tomou-lhe  a mo  e  levou-a aos  lbios.  Por  alguns  segundos  os  dois
ficaram-se olhando perdidamente. A vontade do marqus era abraar e beijar
Lucille.
Surpresa,  ela	notou  que  Marcus  estava	acompanhado  por  outro
cavalheiro. Depois de se encontrarem os trs no hall, o marqus disse:
	Posso  apresentar-lhes  o  capito  Ludlow?  Explicarei  tudo  quando
estivermos no salo.
Lucille  percebeu  que  o  assunto  era confidencial  e  no  fez  qualquer
comentrio. O criado trazia para o hall uma mala.
Conduzindo Lucille pela mo, o marqus entrou no salo; seguindo-os, o
capito Ludlow.
Delia esperava-os.
	Boa-noite,  srta.  Winterton,  perdoe-me  pelo  atraso.  Permita-me
apresentar-lhe  o  capito  Ludlow,  que  veio  de  Londres  comigo    disse  o
marqus.    O  capito  encontra-se  aqui  para  a proteo  de  meu  tio  e  veio
atendendo  a um  pedido  do  primeiro-ministro.  S  espero  no  estarmos
abusando de sua hospitalidade.
Os olhos do marqus brilhavam. Delia achou que as surpresas ainda no
haviam terminado e sorriu ao dizer:
	J estou me acostumando com o inesperado. Voc e o capito Ludlow
j jantaram?
	Sabamos  que  chegaramos  tarde  e  paramos  no  caminho  para uma
refeio ligeira. E veio mais algum conosco.
	Mais algum?  perguntou Lucille.
	Sim.  O  primeiro-ministro  insistiu  em  escolher  dois  oficiais  de  sua
confiana para cuidarem da proteo de meu tio at que sejam presos todos os
russos  envolvidos  no  atentado  contra  a vida dele.    por  isso  que  aqui  se
encontra o capito Ludlow, e o major Dawson aguarda-me em Shaw.
	Acredita que possa haver outros russos pensando em seqestrar lorde
Kenyon novamente, alm dos dois homens que ferimos?


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O marqus assentiu com um movimento de cabea.
	O  primeiro-ministro  tem  certeza absoluta disso.  O  visconde  Cross,
ministro  de  Estado  pela ndia,  est convencido  de  que  o  cabea,  por  assim
dizer,  encontra-se  bem  escondido,  esperando  que  tio  Kenyon  seja levado  at
ele para ser interrogado.
Delia soltou uma exclamao de horror.
	No deve ter medo de nada  tranqilizou-a depressa o marqus. 
Os responsveis por tudo logo estaro atrs das grades, e acabar esquecendo
todas as coisas desagradveis que aconteceram.
	  verdade,  srta.  Winterton    disse  o  capito  Ludlow.    A  nica
dificuldade no momento ser capturarmos um terceiro homem que estar, sem
dvida, dando as ordens.
	Acha que haveria um novo atentado, aqui?
	No  aqui.  Acredito  que  algum  volte   manso  na  tentativa de
apanhar lorde Kenyon.
	Esse  terceiro  homem  estar pensando  que  lorde  Kenyon  foi  levado
para l.
	Exatamente.  Por  essa razo,  no  deixaremos  nem  vocs  nem  lorde
Kenyon desprotegidos.
	Como est meu tio?  perguntou o marqus.
	Acredito que esteja um pouco melhor  disse Delia.  Se desejarem
subir para v-lo, irei providenciar que os criados nos sirvam uma bebida. Vocs
no desejam mesmo comer alguma coisa?
	No, obrigado, mas gostaria de levar o capito Ludlow at o quarto de
meu tio.
	Posso subir com vocs?  perguntou Lucille.
Como resposta o marqus estendeu-lhe a mo e ela segurou-a.
Vendo-os subirem as escadas, Delia teve novamente a sensao de que
seu mundo estava realmente desordenado.
No  tinha muita certeza de  conseguir  pr  tudo  de  volta aos  devidos
lugares.  Mas,  no  fundo,  algo  lhe  dizia que  no  seria preciso  fazer  nada.  O
marqus cuidaria de tudo e daria as ordens.
Quando  o  marqus,  o  capito  e  Lucille  voltaram  para  o  salo,  um  dos
criados  serviu  um  excelente  clarete;  trouxe  tambm  uma	garrafa	de
champanhe dentro de um balde de gelo e uma jarra de refresco.
O  marqus  serviu-se  de  um  copo  do  clarete;  o  capito  no  aceitou
bebida alcolica por estar a servio e preferiu o refresco.
Delia observou  que  o  marqus  havia tomado  s  um  pouco  do  vinho,
parecendo  querer  mostrar  que  seus  dias  de  irresponsabilidade  haviam
terminado.
Pouco  depois  o  marqus  foi  para a manso,  onde  o  esperava o  major
Dawson; o capito Ludlow ficou no solar.
Lucille  e  Delia subiram,  mas,  antes  de  se  dirigirem  para os  seus
aposentos,  passaram  pelo  quarto  de  lorde  Kenyon  para ver  se  ele  ainda
dormia.
	Tudo isso est ficando cada vez mais excitante!  exclamou Lucille.
	Mas muito assustador  replicou Delia.
	Tenho certeza de que esses oficiais e, claro, Marcus, apanharo esses
russos que tentaram seqestrar lorde Kenyon. Ento tudo voltar ao normal.


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	Espero que sim.
Delia no  pde  deixar  de  pensar  que,  assim  que  tivessem  resolvido  o
problema de lorde Kenyon, restaria ainda o de Lucille. Ela no havia esquecido
a razo de ele ter vindo a Little Bunbury.
No poderia mesmo ter-se esquecido daquele cavalheiro que viera  sua
casa pensando  em  afastar  do  caminho  do  marqus  a mulher  vulgar  que
tentava agarr-lo  em  suas  teias.  Lorde  Kenyon  propusera-lhe  at  mesmo
compens-la por ter acalentado falsas esperanas em relao a Marcus.
Imagine!  Ele  chegara a insinuar  que  poderia oferecer-lhe  dinheiro  para
que ela desaparecesse do caminho do marqus de Shawforde!
S lhe restava esperar para ver o que ele faria depois de se recuperar e
ver as coisas com clareza.

Dois dias mais Delia ficou  cabeceira de lorde Kenyon, que se manteve
imvel durante vrias horas, dormindo sempre.
Delia observara-o o tempo todo e teve certeza de que no odiava aquele
homem. Aquele sentimento seria absurdo depois dos momentos de ansiedade
que sofrer por causa dele; depois de senti-lo to perto e de ver o quanto era
bonito e, finalmente, por pensar nos perigos pelos quais ele j havia passado e
em sua bravura.
Por  intermdio  do  capito  Ludlow,  Delia ficara sabendo  alguma  coisa
sobre  as  arriscadas  misses  de  lorde  Kenyon,  na ndia.  Mas  fora o  marqus
quem esclarecera muitos pontos.
Na verdade  todos  se  mostravam  apreensivos  pelo  fato  de  os  russos
terem  alcanado  lorde  Kenyon  to  depressa.  Ningum  duvidava que  eles
estariam determinados a interrog-lo.
	Ser que pretendiam tortur-lo?  perguntara Delia, em voz baixa e
assustada.
	Primeiro,  era certo  que  o  torturariam;  depois  o  matariam    havia
assegurado o marqus.
Delia dera um grito de horror.
	Como podem acontecer tais barbaridades na Inglaterra?
	Tio  Kenyon  desempenhou  uma misso  importantssima e  o  fez  com
excepcional  coragem.  As  informaes  que  ele  conseguiu  foram  vitais  para o
governo  britnico,  mas  o  inimigo  quer  livrar-se  de  todos  os  que  estejam
ligados  organizao que  to importante pra os ingleses.
	Suponho  que  nunca saberemos  nem  a metade  dessas  misses  de
lorde Kenyon  disse Delia melancolicamente.
	Muito menos da metade. Se tentarmos fazer tio Kenyon falar sobre o
assunto, ele ir fechar-se como uma ostra.
	As raras pessoas que sabem um pouco sobre as arriscadas tarefas de
lorde  Kenyon    observara o  capito  Ludlow    so  unnimes  em  afirmar  que
ele  ,  alm  de  corajoso,  espertssimo  e  que,  em  pelo  menos  uma dezena de
vezes,  salvou-se  de  situaes  incrveis,  praticamente  impossveis  de  algum
sobreviver.
	Ser que ele estar a salvo em nossa casa?
	O  major  Dawson  e  eu  faremos  o  possvel  para que  tenha toda  a
segurana  respondera o capito calmamente.
Delia sabia que os dois oficiais estavam bem armados.


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O  capito,  desde  a sua chegada,  passara a dormir  no  quarto  de  lorde
Kenyon,  onde  permanecia a maior  parte  do  tempo,  e  descia ocasionalmente,
deixando Higgins em seu lugar.
Ningum fora daquela casa fazia idia do que eles estavam vivendo ali. O
mais inquietante era ficar  espera de algo que viesse a acontecer.
Delia parou  de  massagear  a testa  de  lorde  Kenyon  e  levantou-se;
olhando  mais  uma vez  para seu  paciente,  achou-o  muito  vulnervel.  Com  um
calafrio, passou-lhe pela cabea que ele talvez tivesse algum dano cerebral em
virtude do golpe recebido.
Por  favor,  meu  Deus,  permita	que  lorde  Kenyon  fique  bom
rapidamente, ela suplicou, do fundo do corao.
Nem lhe ocorreu que aquele homem  sua frente era um estranho, com
quem no devia preocupar-se.
Delia caminhou at a janela, sentando-se no sof que havia ali.
Ao  olhar  para a enorme  cobertura que  havia sido  erguida junto  aos
estbulos, ocorreu-lhe que a abertura da exposio anual de flores e hortalias
seria no dia seguinte.
A  notcia auspiciosa  de  que  naquele  ano  o  marqus  faria a abertura da
exposio correu pela vila como fogo em capim seco.
A  sra.  Geary  falou  muito  sobre  o  assunto.  Todos  estavam  muito
interessados  em  se  encontrarem  com  o  marqus  pela primeira vez.  Assim,
outros assuntos passaram a ser secundrios ou nem mesmo vinham  baila, e
ningum se mostrou curioso a respeito do que acontecia no solar.
Delia teve vontade de rir ao saber que todas as mulheres mostravam-se
preocupadas em parecerem elegantes diante do grande senhor de terras.
At Fl, no dia anterior, lhe perguntara:
	Ser que  no  teria algumas  flores  para emprestar-me?  Tenho  muita
vontade de enfeitar o chapu que vou usar para ir  exposio.
	Flores?  repetira Delia.
	Sabe, srta. Delia, flores de seda, como as que usa em seus vestidos.
Quero estar bem arrumada diante de Sua Senhoria.
Delia respondera com um sorriso:
	Tenho certeza de que ele ir apreciar seu esmero.
Entre  seus  guardados  ela encontrara algumas  rosas  cor-de-rosas  e  uns
buqus de miostis, dando-os a Fl.
Lucille e Delia ainda usariam roupas lilases como luto aliviado, por mais
um ms ainda.
A cor lils ficava muito bem em Delia, e seus olhos cinzentos ganhavam
uma tonalidade  prxima do  violeta.  Ela toda ficava linda como  aquelas  flores
cujo  perfume  usava e  era destilado  por  ela mesma das  violetas  colhidas  na
primavera.
Distraidamente  ela  pensava no  sucesso  que  o  marqus  causaria na
exposio; os moradores de Little Bunbury simpatizariam com ele e acabariam
por  esquecer  os  rumores  desagradveis  que  circulavam  sobre  sua pessoa,
mesmo que aquilo demorasse ainda algum tempo.
Ela prpria achava difcil acreditar que o Marcus que agora conhecia e o
marqus tido como irresponsvel e libertino fossem a mesma pessoa.
O  marqus  havia sido  extremamente  cuidadoso  com  o  tio,  tornara as
providncias  necessrias  junto  ao  primeiro-ministro  e,  devia	admiti-lo,


72




preocupara-se at com o andamento dos afazeres domsticos no solar.
Para no sobrecarregar seus criados,  ele arranjara-lhe uma ajudante de
cozinha, um criado, uma arrumadeira e um homem para tarefas diversas.
Este ltimo, Jacob, mostrara-se eficiente no deixando faltar carvo para
o  fogo,  na  cozinha,  carregando  gua para cima  e  para baixo   hora dos
banhos, alm de outros servios.
Se  o  marqus  no  fosse  quem  ,  se  ele  fosse  um  homem  comum,
Lucille seria muito feliz com ele, Delia pensava.
Mas  sua famlia,  principalmente  as  mulheres,  iriam  tornar  a vida de
Lucille  insuportvel.  Elas  fariam  questo  de  vigiar  a jovem  marquesa para
descobrir-lhe faltas e a envolveriam em toda a sorte de intrigas.
Olhando  para o  retrato  da me  sobre  a cornija  da lareira,  ela pediu-lhe
que a inspirasse, que a conduzisse a fazer o que fosse melhor para a irm.

Ao fim da tarde, quando o sol declinava no horizonte e as gralhas calvas
voltavam  para seus  abrigos,  lorde  Kenyon  abriu  os  olhos.  Pela primeira vez
sentia que sua mente estava clara, e desaparecera a estranha sensao de ter
a cabea cheia  de  algodo.  Olhou  ao  redor  e  viu  sobre  a cornija da lareira o
retrato  a leo  de  uma mulher  lindssima.  Ela era to  linda que  lhe  deu  a
impresso de o artista ter exagerado a beleza da modelo. Mas no conhecia a
mulher do retrato.
Em seguida lembrou-se de que aqueles olhos eram-lhes familiares. J os
vira fitando-o, muito zangados.
Sob o retrato, um estojo coberto com vidro, cheio de medalhas, algumas
delas ele reconheceu e ficou intrigado, querendo saber a quem pertenciam.
Naquele  instante  algum  entrou  no  quarto.  Era uma mulher  que  parou
para conversar  em  voz  baixa  com  um  homem  que,  apesar  de  se  achar  no
quarto, ele ainda no havia visto.
 O jantar ser servido dentro de vinte minutos, capito Ludlow. Como
deve querer trocar-se, ficarei com nosso paciente.
Delia aproximou-se e ficou parada perto da lareira, esperando o capito
passar  por  ela.  Lorde  Kenyon  ficou  surpreso;  podia parecer  impossvel,  mas
aquela jovem era ainda mais adorvel do que a mulher do retrato.
Ele permaneceu calado, esperando que o capito Ludlow, ou quem quer
que fosse, sasse e fechasse a porta.
Vendo  que  Delia fazia meno  de  voltar  para junto  da janela,  lorde
Kenyon chamou-a.
	Srta. Winterton!
Ela parou, surpresa, e veio depressa para perto dele.
	Espero que no o tenha acordado.
	J estava acordado e sinto-me como o velho Kenyon novamente.
	Fico  feliz,  muito  feliz!  Estivemos  bastante  preocupados,  mas  Higgins
nos garantiu que a pancada no lhe prejudicou o crebro e que voltaria a ficar
bom em pouco tempo.
	Sinto-me  bem  agora.  Mas  gostaria de  saber  o  que  aconteceu  e  por
que me encontro nesta casa.
	Sente-se com foras?
	Sinto-me  forte  o  bastante  para tornar-me  desagradvel  se  no  me
disser toda a verdade!


73




	Muito bem  disse Delia, rindo.  Mas, se achar aborrecido o que lhe
vou contar, sempre ter o recurso de voltar  inconscincia!
Lorde Kenyon estendeu a mo e tocou a dela, apertando-a ao dizer:
	Sou todo ouvidos.
Sentada  beira da grande  cama,  Delia comeou  a contar-lhe  toda a
histria.  S  no  soube  dizer-lhe  como  os  dois  homens  conseguiram  entrar  no
quarto dele, na manso, e golpear-lhe a cabea enquanto dormia.
Lorde  Kenyon  ouviu  interessado  toda  a narrativa,  deliciando-se  com  a
voz maviosa de Delia e sem deixar de fit-la um instante sequer.
	Sinto muito ter-lhe causado todo esse trabalho  ele disse ao fim da
histria.
	Fiquei  muito  feliz  em  podermos  chegar  a tempo  de  evitar  que
desaparecessem com voc.
	Admirei-me bastante da coragem e da habilidade que voc e sua irm
demonstraram ao atirar nos homens que me seqestraram.
	Papai  ensinou-nos  a atirar  quando  ramos  ainda  adolescentes.
Tivemos  muito  cuidado  em  no  atirar  para matar,  o  que  nos  causaria
problemas.
	Agiram  muito  corretamente  e  meu  sobrinho  tambm  foi  muito
prudente  em  deixar  os  dois  miserveis  na estrada principal.  Eles  que  fossem
contar, a quem estivesse disposto a ouvi-los, a histria que inventassem sobre
aqueles ferimentos a bala.
	O  primeiro-ministro  mandou-nos  dois  oficiais  para garantirem  sua
segurana.  O  capito  Ludlow  encontra-se  nesta  casa,  e  o  major  Dawson  tem
ficado na manso.
	Mas nada aconteceu, alm do que me contou, no  mesmo?
	Nada! Confesso que no gosto de esperar.
Lorde Kenyon sorriu.
	Concordo com voc. Prefiro a ao  espera paciente.
	E no temos outro remdio seno esperarmos pacientemente?
	Receio que no. Mas sabe o quanto lhe estou agradecido.
S  ento  Delia percebeu  que  ele  ainda segurava sua mo  e  retirou-a
delicadamente.
	Vamos ter muito o que falar sobre essa histria to logo ela termine.
Mas  agora ser melhor  dar  ordens  para que  lhe  sirvam  o  jantar.  No  tem
comido h bastante tempo; espero que tenha fome.
	Pensando bem, estou mesmo faminto! Permita-me dizer que me sinto
um homem afortunado em ter uma anfitri encantadora!
Delia olhou-o de relance, temendo que ele talvez zombasse dela. Depois
de  tocar  a sineta,  voltou  a sentar-se   beira  da cama,  e  lorde  Kenyon
perguntou-lhe:
	Voc j me perdoou?
Delia no  quis  fazer-se  de  desentendida  e  respondeu  depois  de  uma
breve pausa:
	Durante  estes  dias  no  tenho  pensado  a no  ser  em  v-lo  bem  de
sade e receando que o inimigo pudesse atacar novamente.
	Marcus contou-me quem voc era e percebi o grave engano que havia
cometido.  Agora s  tenho  a dizer-lhe  que  sinto  muito  e  peo-lhe  que  me
perdoe.


74




	Acho que compreendi sua atitude.
Delia sentia-se  embaraada;  jamais  conseguiria dizer-lhe  que  ansiava
por v-lo saudvel e por ter a oportunidade de conversar com ele sobre tantos
interesses que sabia terem em comum.
A  porta	abriu-se,  e  Lucille  deu  apenas  uma	olhada	no  quarto,
perguntando baixinho:
	Est a, Delia?
Naquele instante ela viu a irm de p, junto  cama, e lorde Kenyon de
olhos abertos.
	Est acordado!  ela exclamou.
Ele olhou para aquele lindo rosto que se assomara  porta e observou:
	Mas no estarei no cu, afinal?
	Deve ter ouvido muito bem a minha voz.
	Ouvi voc e, ao v-la, imaginei que devia ter morrido e que um anjo,
exatamente como sempre sonhei encontrar no outro mundo, viera me receber.
	Pensou mesmo isso?  indagou Lucille.  Preciso contar a Marcus.
	Contar-me  o  qu?    perguntou  Marcus,  que  acabava  de  chegar.  
Ouvi  a conversa de  vocs  e  mal  pude  acreditar  que  tio  Kenyon  tomava parte
dela.
	Bem,  conforme  pode  constatar,  aqui  estamos  os  trs.  A  srta.
Winterton contou-me sobre a aventura que vocs viveram, a qual jamais supus
que pudesse ter Little Bunbury como cenrio!
	Tambm pensei isso  observou Lucille.  Mas os habitantes da vila
imaginam  que  voc  foi  acometido  de  um  ataque  sbito  de  malria.  Portanto,
no  estranhe  e  prepare-se  para ouvir  dezenas  de  pessoas  descrevendo  os
sintomas da doena ou querendo contar-lhe o que sentiram durante uma crise
da febre.
	Se  tiver  mesmo  que  passar  por  essa	prova,  vou  continuar
inconsciente!  exclamou lorde Kenyon.
Todos riram; em seguida, Delia aconselhou:
	Ser melhor no ficarmos cansando o paciente. Isso deixaria Higgins
furioso.
	J chega de  tantos  mimos!    replicou  lorde  Kenyon.    Quero  sair
deste quarto amanh.
	Ainda  cedo  protestou Delia.
	Ora, no  mais necessrio ficar aqui, confinado!  disse o marqus.
 Ele poder acompanhar-nos  exposio e ter a oportunidade de ouvir meu
discurso de abertura.
Lorde Kenyon olhou surpreso para o sobrinho.
	Pelo  que  vejo,  est levando  a srio  suas  obrigaes  de  senhor  de
terras!
	Espero  ter  a sua aprovao.  Foi  idia de  Lucille  que  eu  conhecesse
meu povo, que se tem mostrado curioso a meu respeito. Nada melhor do que
encontr-los todos de uma vez, na exposio.
O  marqus  dirigiu  a  Lucille  um  olhar  significativo,  e  Delia sups  que  ele
estava reservando-lhes alguma surpresa.
Higgins  entrou  no  quarto  reclamando  que  havia muita  gente  ali  e
anunciando tambm que o jantar ia ser servido.
	Vossa Senhoria est se  excedendo!    ele  admoestou.    Se  no  me


75




ouvir, ter uma recada, e isso  to certo como dois e dois so quatro!
O valete ia saindo do aposento, e Delia disse:
 Vou ordenar que tragam o jantar de Sua Senhoria imediatamente e se
lhe for permitido, mandarei servir-lhe uma taa de champanhe.
	Duas, no mnimo!  protestou lorde Kenyon.  Se algum tentar me
proibir, eu mesmo descerei para buscar uma garrafa.
	Ter tudo o que desejar.
Dizendo  aquilo,  Delia olhou  desafiadoramente  para Higgins  e  seguiu
depressa os outros, que j desciam as escadas.
	Como  v,  milorde,    esse  o  resultado  de  termos  mulheres  dando
ordens. Ou se mostram cheias de cuidados, ou resmungam o tempo todo.
	Qra, Higgins! Achei muito agradvel ficar aqui esses dias.
	  verdade,  milorde.  So  pessoas  muito  agradveis.  Todos  na vila
elogiam a srta. Delia.
Lorde  Kenyon  ficou  em  silncio,  mas  teve  a desagradvel  sensao  de
que  Higgins  ficara sabendo  que  ele  e  Delia Winterton  j haviam  discutido
seriamente.
Como  ele  arrependia-se  de  haver  insultado  aquela jovem  adorvel  na
primeira vez em que viera quela casa!
Podia ser  que  Higgins  no  soubesse  nada  sobre  o  assunto,  mas  era
incontestvel  o  fato  de  que  os  criados,  de  um  modo  ou  de  outro,  sempre
ficavam a par do que acontecia numa casa.







































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CAPTULO VII



Delia entrou  no  salo  para verificar  se  as  flores  nos  vasos  estavam  em
ordem  ou  se  havia necessidade  de  trocar  algumas  que  se  encontravam
murchas.
A  casa estava muito  quieta;  Lucille  ainda no  voltara do  costumeiro
passeio a cavalo e ela no vira sinal do capito Ludlow.
Instantes  depois  Lucille  veio  ao  encontro  da irm,  mas  no  usava seu
traje de montaria e sim um lindo vestido de vero.
	Desculpe-me por ter levantado to tarde.
Delia olhou para ela, surpresa.
	Pensei que estivesse cavalgando.
	No, eu estava muito cansada, alm disso, Marcus vai passar por aqui
para darmos uma volta em sua carruagem.
Lucille  falava com  naturalidade,  sem  a nota desafiadora na voz.  Depois
ela perguntou:
	O que aconteceu com o capito Ludlow? Higgins disse-me que ele no
desceu para o caf da manh, e lorde Kenyon tambm no o viu.
Delia olhou para a irm, atnita.
	Ele deixou lorde Kenyon desprotegido? No posso acreditar!
	Ele deve ter sado ou ento foi seqestrado!
	No acho nada engraado  replicou Delia.  No vou suportar mais
confuses.
	No  vejo  a hora de  encontrar-me  com  Marcus  para  dizer-lhe  que
esteve  timo  ontem,  na exposio.  Fl  contou-me  que  na vila todos  s  tm
palavras elogiosas  para o marqus e que acharam-no muito bonito, simptico
e encantador!
	Muito diferente do que andavam falando dele at a semana passada!
 disse Delia, rindo.
	Oh,  ele  est chegando!    exclamou  Lucille  entusiasmada,  ao  ouvir
passos.
No  entanto,  quem  entrou  no  salo  foi  lorde  Kenyon.  As  duas  irms
olharam para ele, e Delia perguntou-lhe:
	Sente-se bem? No  cansativo vestir-se e vir aqui para baixo?
	Estou  timo!  E,  decididamente,  recuso-me  a responder  a quaisquer
perguntas sobre minha sade de agora em diante!
Lucille riu.
	Deve admitir que ontem tentou levantar-se e sentiu uma forte dor de
cabea.
Aquilo  era verdade,  Delia  pensou;  censurando  o  amo  e  todo  cheio  de
cuidados, Higgins pusera lorde Kenyon de volta na cama.
	Eu  avisei-o  de  que  isso  iria acontecer,  mas  ele  no  me  ouve.  Sua
Senhoria  assim: prefere aprender pelo modo mais difcil!
Delia ficara muito preocupada com lorde Kenyon e sentira-se culpada por
ter permitido que duas noites atrs todos conversassem muito com ele.
Felizmente a exposio fora um sucesso, e o barulho no jardim no havia
perturbado o descanso do convalescente. Delia fora dizer-lhe boa-noite depois
de todo o cansao e a excitao daquele dia agitado.

77




O  capito  Ludlow  achava-se,  como  ele  mesmo  dizia  em  tom  de
brincadeira,  cumprindo  seu  dever  de  co  de  guarda.  Ela dissera algumas
palavras a lorde Kenyon e fora para seu quarto.
Agora, naquela linda manh, ia contar a lorde Kenyon que o discurso do
marqus havia sido brilhante, quando ouviu passos vindos do hall.
A  porta do  salo  abriu-se  de  repente,  e  o  marqus  entrou  no  salo,
dizendo, triunfante:
	Vencemos!  Conseguimos!  Apanhamos  o  terceiro  homem  ontem  
noite, e agora os trs encontram-se atrs das grades.
	Sobre  o  que  est falando?  O  que  aconteceu?    perguntou  Lucille,
aproximando-se de Marcus.
Ele passou o brao ao redor dos ombros dela e dirigiu-se ao tio.
	Mal  posso  acreditar  que  tudo  tenha  corrido  exatamente  segundo  os
planos do major Dawson.
	Suponho  que  nos  vai  contar  o  que  aconteceu    disse  lorde  Kenyon
calmamente.
	Sabe que estamos morrendo de curiosidade  completou Lucille.
Lorde Kenyon sentou-se em uma poltrona, Delia em outra e o marqus,
ainda abraado a Lucille, disse:
	Desde a vinda do major Dawson para a manso, eu tenho dormido no
quarto antes ocupado pelo meu tio.
	Certamente estava arriscando-se demais!  exclamou Lucille.
	No  era arriscado,  porque  o  plano  do  major  era muito  bom.  Ns
fizemos um boneco com as roupas de lorde Kenyon e o deixamos todas estas
noites na cama, dando a impresso de que era meu tio quem ali se encontrava
dormindo. Eu dormia atrs de um biombo, e o major, no cho, escondido pelas
cortinas.
Delia ouvia a narrativa muito  interessada e  cruzara  as  mos.  Era
inacreditvel que a tenso daqueles dias havia terminado.
	Ento,  na noite  passada   continuou  o  marqus  ,  como  o  major
esperava, um homem entrou sorrateiramente no quarto. Eu j estava deitado,
achando  que  nada iria acontecer,  quando  ouvi  um  estalido  na porta.  Algum
entrava no  quarto.  O  homem  carregava uma  lanterna e  iluminou  a  cama,
supondo que tio Kenyon dormia profundamente.
	O que ele fez?
	Aproximou-se  da cama e  deu  trs  punhaladas  no  boneco,  antes  que
sassemos de nossos esconderijos.
	Trs punhaladas?  gritou Delia, horrorizada.
	No havia dvidas de que ele pretendia mat-lo, meu caro tio.
	Os  russos  no  aceitam  derrotas    observou  lorde  Kenyon.    O  que
aconteceu depois?
	Ns o amarramos, o colocamos em uma carruagem e viemos buscar o
capito Ludlow.
	No o ouvimos sair  disse Delia.
	Nem  mesmo  eu    admitiu  lorde  Kenyon.    Mas  nessa profisso
aprende-se a andar sem fazer rudos e at a ser invisvel.
	O  major  Dawson  e  o  capito  Ludlow  interrogaram  o  russo  enquanto
me levavam de volta para a manso.
	Mas ele falou?  perguntou lorde Kenyon, surpreso.


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	Acabou  confessando,  pois  sabia que  no  tinha como  escapar;  havia
sido pego tentando cometer assassinato.
	O que ele confessou?
	Acabou  contando  uma longa histria.  Disse  que  viu  voc  tomar  um
navio em Bombaim e que o reconhecera; voc participara de um incidente na
fronteira noroeste  da ndia.  Ento,  ele  e  mais  dois  homens,  os  mesmos  que
seqestraram  tio  Kenyon,  sendo  depois  baleados  por  Delia	e  Lucille,
embarcaram  tambm  nas  acomodaes  mais  baratas  e  seguiram  meu  tio  at
Londres e em seguida at Shaw.
Lorde  Kenyon  ouvia atentamente,  imaginando  o  quanto  o  inimigo  era
tenaz. Graas  sensibilidade de Delia ele no estava morto.
	Os  russos  pretendiam  mesmo,  como  supusemos,  interrog-lo,  meu
tio,  para conseguirem  informaes  importantssimas  e  depois  mat-lo.  Mas
agora quem  vai  perder  a vida so  eles.  Como  o  assunto    de  segurana
nacional, o julgamento ser realizado in camera.
Sorrindo, o marqus concluiu sua narrativa.
	Ningum  jamais  saber o que aconteceu aqui  nem que lorde Kenyon
pode considerar-se um homem afortunado por estar vivo.
	Estou  muito  grato  a voc,  Marcus    disse  lorde  Kenyon  ,  e  tenho
certeza de  que  o  primeiro-ministro  e  o  ministro  de  Estado  pela ndia,  que
sero informados do que aconteceu, iro agradecer-lhe tambm.  Olhou para
Delia,  acrescentando:    Naturalmente,  devo  tambm  expressar  meus
agradecimentos   minha anfitri,  a quem  muito  molestei  Alm  de  ter  sido
uma	excelente  anfitri,  ela	foi  responsvel  por  ter  deixado  um  dos
seqestradores fora de ao.
	Todos foram esplndidos!  disse o marqus.
	Incluindo  voc    acrescentou  lorde  Kenyon.    E  ouvi  dizer  que  seu
discurso foi um sucesso e que cativou todo o pessoal da vila.
	No  nego  que  eu  mesmo  gostei  do  som  de  minha voz.  Na verdade,
vou seguir o conselho de Lucille e ocupar o lugar que me cabe na Cmara dos
Lordes.
Ele  olhou  para Lucille  com  tanto  carinho  que  Delia  sentiu-se  at
embaraada. Ento o marqus disse:
	Lucille  e  eu  temos  um  compromisso,  sobre  o  qual  falaremos  quando
voltarmos. Enquanto isso, tenho certeza de que Delia ficar feliz em saber que
voc  poder voltar  para a manso,  tio  Kenyon,  quando  quiser,  sem  temer
intrusos durante a noite.
Os  dois  saram  do  salo,  deixando  Delia e  lorde  Kenyon  a ss.  Este,
percebendo que ela mostrava-se tmida, foi o primeiro a falar.
	Sua irm est pondo idias corretas na cabea de meu sobrinho e s
posso lamentar que eles no se houvessem conhecido antes.
Delia no  respondeu,  achando  que  no  era o  momento  apropriado  para
falar sobre Lucille e seu futuro. Ento, mudou de assunto.
	Estou  contente  em  saber  que  no  h mais  perigo  de  ser  atacado
pelos russos. Acredita que ao deixarem a ndia os russos no contaram sobre
seus planos a ningum?
	Acredito. Nenhum espio fala sobre suas atividades. Eles embarcaram
naquele navio sem falar sobre seu destino com pessoa alguma. Quando os trs
desaparecerem,  no  haver nem  perguntas,  e  eles  sero  esquecidos  pelo  seu


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prprio povo.
	Tudo isso parece to cruel!
	So  as  regras  do  jogo.  Cada homem  tem  de  agir  por  sua prpria
iniciativa e  para todos  os  fins  e  propsitos,  ele    responsvel  por  seus  atos  e
por sua vida.
	Papai tambm dizia isso.
Lorde Kenyon olhou surpreso para ela, e Delia explicou:
	Meu pai fazia parte do regimento dos Lanceiros de Bengala e contou-
me alguma coisa sobre O Grande Jogo, do qual participou apenas uma vez.
	Fiquei  impressionado  pela	quantidade  e  pela	importncia	das
medalhas recebidas por seu pai, que vi no quarto que ocupo.
	Papai  orgulhava-se  delas.  Ele  tambm  costumava falar-me  sobre  a
ndia,  pas  que  muito  amou.  Confesso  que  tenho  ansiado  por  uma
oportunidade de podermos falar sobre essa terra distante e cheia de mistrios.
	Estou  disposto  a  responder  a quaisquer  perguntas  que  deseje  fazer.
Mas  por  que  se  interessa por  esse  pas,  sem  contar  o  fato  de  seu  pai  ter
servido no mais importante regimento da ndia?
	Aprendi a amar a ndia com papai.  Ns conversvamos sobre o pas,
seus  costumes,  suas  religies,  e  eu  achava tudo  fascinante.  Mas  isso  no    o
mesmo que ter estado no pas.
Lorde Kenyon notou o entusiasmo de Delia e perguntou-lhe:
	Ento  se  interessa pelas  belezas,  costumes  e  religies  da ndia?  Mas
qual a razo desse interesse?
	Creio  que  na ndia h  uma espiritualidade  que  no  se  encontra em
outro  pas.  Encanta-me  a sabedoria milenar.  Sei  que  os  manuscritos  em
snscrito  remontam  a um  passado  perdido  no  tempo  e  muito  do  que
conhecemos como civilizao veio da ndia.
	Voc  me  surpreende,  mas,  ao  mesmo  tempo,  devia ter  esperado
isso    Delia olhou  para ele,  um  tanto  intrigada e  lorde  Kenyon  explicou:  
Ao v-la, notei que seus olhos me diziam que voc no era apenas uma linda
jovem,  mas  havia uma beleza extraordinria que  vinha de  algo  muito  mais
profundo e fundamental.
Delia sorriu.
	Acredito estar recebendo o elogio mais maravilhoso que algum j me
possa ter feito. S desejaria que fosse verdade.
	 verdade! E ponho-me  sua disposio para responder s perguntas
que me queira fazer.
Delia inclinou-se um pouco para a frente e ia falar quando a porta abriu-
se e o criado que viera da manso, anunciou:
	O visconde Cross deseja ver Vossa Senhoria, lorde Kenyon.
Lorde Kenyon e Delia olharam-se, surpresos.
Um cavalheiro de aparncia muito distinta adiantou-se em direo a eles.
Delia levantou-se e estendeu a mo.
	Deve  perdoar-me,  srta.  Winterton,  por  estar  aqui  a esta hora da
manh, mas tenho uma mensagem do primeiro-ministro para lorde Kenyon, e
fico muito feliz em ver que ele encontra-se bem novamente.
	Que  bom  ver  voc!    respondeu  lorde  Kenyon,  cumprimentando  o
visconde.
Muito discretamente, Delia fez meno de sair para deixar os dois a ss e


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ofereceu:
	Vossa Senhoria gostaria de  tomar  um  copo  de  vinho,  ou  apreciaria
caf?
 Prefiro um caf, sendo ainda to cedo, se no for incmodo.
Delia sorriu  e  saiu,  fechando  a porta,  e  recomendou  ao  criado  que  se
achava no  hall  para servir  imediatamente  o  caf  aos  dois  cavalheiros  que  se
encontravam no salo.
Enquanto caminhava para a sala de estar, Delia ia pensando em como a
casa havia ficado  diferente  com  todo  aquele  movimento.  Com  pesar  lembrou-
se de que lorde Kenyon logo partiria e a casa voltaria  antiga quietude.
Com ele, naturalmente, iriam os criados vindos da manso, apenas para
ajudar durante o perodo de maior atividade.
Nem a companhia de Lucille ela teria, uma vez que esta passaria a maior
parte do tempo com o marqus, com ou sem sua permisso.
Delia tentou  convencer-se  de  que,  tendo  tanto  o  que  fazer,  como  no
passado, no sentiria solido.
Todavia, no ignorava que aquilo no era verdade. Precisava ser honesta
consigo mesma e admitir que iria sofrer com a ausncia de lorde Kenyon.
Ento deu-se conta de que desejava a companhia de lorde Kenyon, mais
do  que  tudo  o  que  j desejara na vida.  Era para ela  um  desespero  saber  que
jamais o veria assim que ele partisse para Londres.
Ah,  iria privar-se  das  conversas  interessantes,  da presena dele,  to
marcante  e  nem  mesmo  iria v-lo  adormecido  nem  admir-lo,  achando-o  to
bonito.
Lorde  Kenyon  era  to  diferente  de  qualquer  outro  homem  que  ela j
conhecera!
Inesperadamente, sentiu que brotavam lgrimas em seus olhos.
Amo-o!,  confessou  a	si  mesma.  Mas  nada	posso  fazer  para
demonstrar esse amor!
Com  desalento  ela pensou  que  seu  amor  por  lorde  Kenyon  era sem
esperanas, da mesma forma que seu anseio por um dia conhecer a ndia.
Ela amava o homem que viera  sua casa para reprovar o envolvimento
do  sobrinho  com  Lucille.  Sendo  um  cavalheiro,  naturalmente  mostrar-se-ia
agradecido e educado pelo que ela fizera, mas seu orgulho falaria mais alto e
ele ergueria sempre uma barreira entre ambos.
Assim  que  lorde  Kenyon  deixasse  o  solar,  certamente  no  voltaria a
pensar em Delia Winterton novamente.
Agora as  lgrimas  desciam  copiosas  pelas  faces  de  Delia,  e  ela anteviu
seu  futuro:  um  penoso  caminhar  na  escurido,  sem  ao  menos  um  raio  de  luz
para dar-lhe alento.

Muito  mais  tarde,  Delia achava-se  de  p,  junto    janela,  fitando  o  belo
jardim, quando ouviu o som de passos no hall. O visconde partia.
Talvez  devesse  ir  despedir-se  dele,  mas  tinha o  rosto  manchado  pelas
lgrimas.
Poucos minutos depois, a carruagem do visconde descia pela entrada do
solar, coberta de cascalho.
Lorde  Kenyon  estaria sozinho  no  salo  e  seria bom  no  perder  a ltima
oportunidade de ficarem ambos a ss.


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Olhando-se  em  um  espelho  com  moldura dourada que  estava em  uma
das paredes, ela limpou o rosto e ajeitou-se um pouco. No queria demonstrar
que estivera chorando.
Abriu a porta, atravessou o hall e voltou para o salo. Viu lorde Kenyon
de costas, de p junto a uma janela, olhando para o jardim; exatamente o que
ela estivera fazendo.
Se ele estivesse no mesmo estado de esprito que ela, no poderia ver as
coloridas  borboletas  adejando  sobre  as  flores,  nem  admirar  os  raios  do  sol
enfeitando a manh.
Quem  sabe  ele  pensasse  na ndia  naquele  instante.  Mais  precisamente
na regio rida e rochosa da fronteira noroeste.
Ele,  que  j enfrentara tantos  perigos  e  que  diversas  vezes  escapara da
morte por um fio, talvez ainda no estivesse totalmente seguro.
Delia aproximou-se da janela junto  qual ele estava e perguntou:
	Seu visitante j partiu? Espero que no lhe tenha trazido ms notcias.
S ento lorde Kenyon deu pela presena dela e respondeu:
	No  foram  ms  notcias.  Ele  disse  estar  contente  pelo  sucesso  do
plano de Marcus e  do major Dawson.  Os dois mostraram-se eficientssimos e,
graas aos dois, foi apanhado um homem que constitua uma ameaa  paz na
ndia.
	Ento ele era importante?
	Sim,  mas  h ainda muito  o  que  descobrir  sobre  ele.  Por  enquanto
sabe-se  tratar-se  de  um  agitador  que  h no  muito  tempo  foi  o  responsvel
por uma rebelio que custou a vida de muitos soldados.
	Pelo menos isso ele no poder fazer mais.
Naquele instante Delia pensou que por pouco lorde Kenyon tambm no
perdia sua vida. Ela ergueu a cabea e os olhos de ambos se encontraram.
Ela no  conseguiu  entender  a estranha expresso  que  viu  nos  olhos  do
homem a quem amava.
Durante algum tempo ambos se fitaram em silncio.
A atmosfera de magia desfez-se ao abrir-se a porta e entrarem no salo
Lucille e o marqus.
Delia voltou-se,  notando  que  a irm usava o  chapu  mais  lindo  que  ela
possua; ele havia sido comprado para uma festa oferecida pelo governador do
condado. Pareceu-lhe estranho que Lucille o usasse para ir dar um passeio de
carruagem com o marqus.
Os recm-chegados vieram ao encontro deles de mos dadas, parecendo
ter algo importante para dizer.
Por  alguns  segundos  fez-se  um  estranho  silncio,  logo  quebrado  pelo
marqus.
	Queremos  que  voc,  tio  Kenyon,  e voc,  Delia,  sejam  os  primeiros  a
saber que Lucille e eu estamos casados!
	No  possvel!  exclamou Delia.
	No  me  sentia disposto  a ficar  discutindo  sobre  o  que  devia ou  no
fazer.  Estava determinado  a fazer  de  Lucille  minha esposa e  no  tinha a
inteno  de  esperar  que  ela tirasse  o  luto  por  completo.  Tambm  no  quis
saber da opinio de parentes, pois isso no me interessa.
	Mas  esto  mesmo  casados?    perguntou  Delia  quase  sem  poder
falar, to surpresa estava.


82




	Acabamos  de  nos  casar  na pequena igreja,  em  Shaw,  pelo  velho
pastor.
	O mesmo que me batizou  acrescentou Lucille.  Foi uma cerimnia
comovente; s senti que voc no estivesse presente, Delia.
	Eu  sugeri  a  Lucille  que  seria melhor  no  falarmos  nada sobre  a
cerimnia,  pois  vocs  poderiam  hesitar  ou  mesmo  desaprovar  nossa unio  
explicou o marqus com simplicidade.  E agora, antes que vocs comecem a
achar  que  agimos  erradamente,  Lucille  e  eu  vamos  partir  para nossa lua-de-
mel!
	J notei que voc tinha tudo muito bem planejado!  observou lorde
Kenyon.
O marqus sorriu.
	Vamos  a Paris  para comprar  o  enxoval  de  Lucille;  a seguir,
embarcaremos  para	Veneza,  e  ento  pretendo  alugar  um  iate  para
explorarmos o Mediterrneo e talvez o Mar Vermelho.
Lorde Kenyon viu a alegria nos olhos do sobrinho e disse calmamente:
	Se tiverem inteno de chegar at a ndia, vo visitar-me.
	Volta logo para l, tio Kenyon?
	Dentro de poucas semanas.
	Se decidirmos ir to longe, onde poderemos encontr-lo?
	Permanecerei em Calcut por bastante tempo.
Lucille ps delicadamente a mo no brao de lorde Kenyon, ao dizer:
	Ento no est zangado? Parece que aprova nosso casamento!
	Considero  Marcus  um  homem  extremamente  afortunado!  Ele
encontrou a esposa perfeita: no apenas linda, mas sensata.
Lucille  deu  um  pequeno  grito  demonstrando  o  quanto  estava exultante.
Ficando na ponta dos ps, deu um beijo no rosto de lorde Kenyon.
	Sabia que  iria compreender,  mas  Marcus  receava que  pudesse  fazer
alguma objeo. Prometo-lhe que serei uma tima esposa e ele ser, por sua
vez, o melhor marqus de Shawforde que j existiu!
	Acredito em tudo o que est dizendo. Confio em Marcus e imagino que
ele ser to bom na ao, como, segundo ouvi dizer, na oratria.
Lucille riu, e o marqus disse:
	Nem  pense  mais  nas  minhas  aventuras  e  irresponsabilidades  do
passado. Tendo Lucille ao meu lado para estimular-me ou censurar-me se fizer
algo errado, no terei outra sada seno alcanar a perfeio que ela espera de
mim.
Marcus  olhava para o  tio,  e  Lucille,  para a irm.  Aproximando-se  de
Delia, Lucille disse baixinho:
	Sei  que  compreende  agora,  querida,  que  eu  no  poderia mesmo
perd-lo.
	Claro que no.
Lucille abraou a irm e beijou-lhe o rosto; ficaram ainda abraadas por
algum tempo, como o faziam na infncia. Depois Delia perguntou:
	Vo mesmo partir logo?
	Partiremos  agora   disse  o  marqus  com  firmeza.    Faremos  um
longo trajeto de carruagem e amanh  tarde pretendemos atravessar o Canal
da Mancha.
	Como  podem  ver,  ele  planejou  tudo  e  s  me  diz  o  que  vai  fazer  


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observou Lucille, risonha.  No se admirem se eu voltar de nossa lua-de-mel
mais  parecida com  uma esposa oriental,  andando  uns  trs  passos  atrs  do
meu marido e concordando com tudo o que ele disser!
	Duvido!    disse  lorde  Kenyon.    Mas,  se  forem    ndia,  voc  ver
que as mulheres l no so assim submissas. Em casa elas so mandonas; na
verdade  voc  sentir mais  pena dos  maridos  tiranizados  do  que  das  esposas
dominadoras.
	Ora,  meu  tio,  no  ponha essas  idias  na  cabea dela!    reprovou  o
marqus.    Amo  Lucille  por  ser  exatamente  como  !  Ao  mesmo  tempo,  em
minha casa desejo ser o patro!
	Vou permitir que seja assim, desde que no haja outra em sua vida, a
no ser eu.
	Vai  ser  muito  difcil  achar  outra mulher  mais  adorvel  do  que  voc
mas nunca se sabe
Percebendo  que  o  marido  a provocava,  Lucille  fez  beicinho,  simulando
estar amuada, e o marqus disse animadamente:
	Venha! Devemos partir agora. Os cavalos esto impacientes.
Lucille atirou-se nos braos da irm.
	Adeus,  querida.  Desculpe-me  por  t-la enganado  pela  ltima vez,
arrumando s escondidas alguma coisa que vou levar. Marcus vai comprar-me
lindos vestidos em Paris.
	Cuide-se bem, querida.
	Creio  que  no  terei  tempo  de  pensar  em  mim;  estarei  bastante
ocupada tentando  evitar  que  Marcus  se  interesse  por  alguma francesa
deslumbrante!    Voltando-se  para lorde  Kenyon,  Lucille  pediu-lhe:    Diga 
sua famlia que no sou to ruim quanto eles imaginam; estou muito feliz por
t-lo conosco e por estar vivo.
	Obrigado  respondeu lorde Kenyon, beijando-a.  E sejam felizes!
Todos  encaminharam-se  para a porta da frente;  a carruagem  do
marqus, puxada por quatro cavalos, esperava pelos recm-casados.
Lorde Kenyon estendeu a mo e apertou a do sobrinho.
	Adeus,  Marcus.  Apoiarei  voc  em  tudo  que  puder.  E  faa o  possvel
para ir visitar-me, na ndia.
	Estou ansioso para fazer isso.
Tomando  a mo  de  Lucille,  o  marqus  ajudou-a a subir  na carruagem;
segurando  as  rdeas  esperou  apenas  o  tempo  suficiente  para o  cavalario
saltar ligeiro para o banquinho de trs e ps os cavalos em marcha.
Com  lgrimas  nos  olhos,  Delia esperou  a carruagem  sumir  de  vista,  j
prxima  estrada principal.
Ela voltou em silncio para o salo, mal acreditando que a irm tornara-
se a marquesa de Shawforde.
Lorde Kenyon acabava de entrar e ela ouviu-o fechando a porta.
No desejando que ele a visse chorando, Delia foi novamente para junto
da janela, ficando de costas para ele, mas ouvindo-o aproximar-se.
Ainda voltada para o jardim, ela disse em voz baixa:
	Por favor ajude-os! Sei que no ser fcil para Lucille conviver com
sua famlia.
	J prometi  que  os  ajudaria;  alm  disso,  j pensei  em  algo  para
convencer meus parentes de que Lucille  a esposa perfeita para Marcus.


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	E o que ?
Lucille  mostrara-se  to  radiante!  E  tanto  ela quanto  Marcus  confiavam
plenamente  no  futuro.  Seria doloroso  demais  ver  tanta felicidade  e  esperana
destrudas  pelas  irms  de  lorde  Kenyon  ou  por  qualquer  pessoa da famlia
Shaw.
Depois de um instante, Delia insistiu:
	Voc  disse  que  havia pensado  em  um  modo  de  convencer  sua
famlia Qual ?
	Que Lucille seja irm da vice-rainha da ndia!
O  que  lorde  Kenyon  acabava de  dizer  parecia no  ter  sentido.  Delia
voltou-se.
	No compreendo.
	 simples. Estou pedindo que se case comigo, minha querida!
Delia pensou estar sonhando. Mas j se viu nos braos de lorde Kenyon e
sentiu  incidir  sobre  ela um  olhar  abrasador.  Seu  corao  parecia no  caber
dentro do peito e batia num ritmo alucinado.
Vagarosamente, quase como num ritual, lorde Kenyon, foi estreitando-a
mais e mais junto a seu peito, e seus lbios encontraram os de Delia.
Ele  sentiu  a maciez  daqueles  lbios  jamais  tocados  e  ela viu-se  envolta
por uma luz fulgurante que, ao mesmo tempo, tomou conta de todo o seu ser.
E ambos foram transportados para um mundo de magia, um paraso que
Delia jamais sonhara existir.
A  luz  ofuscante  afastava as  trevas  do  desespero  em  que  se  encontrara
antes, ao supor que seu amor por lorde Kenyon era sem esperanas.
Uma luminosidade, como uma aura, tremeluzia ao redor de seus corpos
transfigurados pelo amor.
Lorde  Kenyon  abraou  Delia mais  fortemente,  enquanto  continuava a
beij-la de  modo  incontido,  apossando-se  de  seu  corao  naquele  beijo
imperioso.
Delia entregou-se,  cativa,   fora daquele  sentimento  glorioso  que
imaginou ser impossvel encontrar mas com o qual havia sonhado.
Amo voc! Amo voc!, ela desejava gritar.
Delia sabia que  lorde  Kenyon  tambm  se  sentia  arrastado  por  aquele
mgico turbilho de emoes, por aquele maravilhoso frenesi.
Eles  continuaram  unidos  naquele  beijo  at  que,  enlevados,  flutuavam
nas nuvens.
	Minha adorada, minha querida! Como pode fazer-me sentir toda esta
gama de  emoes?  Amo  voc  e  nunca  imaginei  que  o  amor  pudesse  ser  um
sentimento to perfeito, to absolutamente invencvel e to dominador.
	 mesmo verdade que me ama?
	Amo-a demais e desejo voc s para mim. Mesmo quando me achava
inconsciente sabia que estava ao meu lado e podia sentir o perfume de violetas
que vinha de seu corpo. Quando vi seus olhos cinzentos fixos nos meus, soube
desde ento que seria impossvel viver sem voc.
	Voc poderia estar morto  murmurou Delia.
	Graas a voc, s a voc, estou vivo, e deve continuar, de agora para
a frente, a olhar por mim, a salvar-me pelo resto de nossas vidas.
	  tudo  o  que  eu  mais  quero,  mas  pensei  que  estivesse  sonhando
com algo inatingvel.


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	Voc me ama? Diga que me ama!
	Amo-o tanto que tenho medo
	Medo de mim?
	No!  Medo  de  acordar  e  ver  que  tudo  isto  no  passou  de  um  sonho
glorioso e que voc me despreza.
	Nunca fiz  isso.  Desde  a primeira vez  em  que  a vi,  achei-a
inacreditavelmente  adorvel.  S  depois  compreendi  que  era voc  o  ideal  de
perfeio que eu sempre sonhara encontrar em uma mulher.
	Oh, querido no posso acreditar no que est acontecendo.
	Ento vou precisar convenc-la, e o primeiro passo nesse sentido ser
faz-la minha esposa.
 Como Lucille e Marcus?
	Exatamente! Eles deram um timo exemplo e vamos segui-lo.
	Mas no escandalizaremos sua famlia?
	No importa o que pensem, nem estaremos aqui para ouvir a opinio
dos meus parentes.
	Vai levar-me para a ndia?  perguntou Delia, maravilhada.
	Acha que eu poderia partir sem lev-la comigo? Embarcaremos daqui
a trs semanas, tempo suficiente para a nossa lua-de-mel.
	Vai ser emocionante estar na ndia ao seu lado. S receio que algo lhe
acontea.
Lorde  Kenyon  compreendeu  o  que  ela sentia e  o  que  estava querendo
dizer e tranqilizou-a com sua voz suave:
	Tudo  terminou.  Meus  dias  na  fronteira noroeste  pertencem  ao
passado. Como lhe disse h pouco, minha querida, serei o prximo vice-rei da
ndia e necessitarei de sua ajuda na tarefa difcil, mas gratificante,  qual me
empenharei.
Delia compreendeu  a importncia do  cargo  e  disse,  depois  de  respirar
profundamente:
	No me sinto  altura.
	Sendo  minha esposa ser uma pessoa muito  importante,  e  minha
famlia a respeitar.  Nada receie,  nem  se  preocupe  com  Lucille,  pois  tais
receios so infundados.
Com os olhos brilhando, ele explicou que j conhecia a histria da famlia
Winterton,  da qual  Delia podia orgulhar-se.  Ele  havia lido  um  grande  volume
sobre os ancestrais do coronel e analisara a rvore genealgica includa no fim
do livro, descobrindo que havia uma ligao entre a famlia dela e a dele!
	Portanto,  se  houver  qualquer  discusso  sobre  seu  sangue  azul,
mandarei  copiar  sua enorme  rvore  genealgica e  enviarei  aos  contestadores
para que a assimilem em seus momentos de lazer.
O tom brincalho com que ele falou fez Delia rir.
	Voc  faz  tudo  parecer  to  divertido,  mas  continuo  receosa quanto  a
Lucille  afinal,  fizeram  tanta resistncia  por  desejarem  outra esposa para
Marcus.
	Marcus  certamente  a defender,  e  ningum  desejar ficar  mal
relacionado com o  marqus de Shawforde, ou no ser bem-vindo na manso.
No  se  esquea de  que  meu  sobrinho    o  chefe  da nossa famlia e
extremamente rico. Acabo de provar-lhe, mais uma vez, que seus receios no
tm razo de ser.


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Delia sorriu.
	E certamente sua famlia tambm sentir-se- orgulhosa de voc!
	Espero que sim. Para dizer a verdade, minha adorada, eu tambm me
sinto orgulhoso.
	Suponho  que  lhe  ofereceram  a posio  de  vice-rei  para,  de  certa
forma,  recompens-lo  por  tudo  o  que  j fez  pelo  pas  alm,  claro,  de
reconhecerem a sua capacidade.
	Voc    uma jovem  observadora e  muito  inteligente!    disse  lorde
Kenyon,  puxando  Delia para mais  junto  de  si.    Mas  no  se  aborrea com
esses assuntos; trate de pensar s em mim. Quero todo o seu amor! Quero-o
sem restries, completo e absoluto!
	Sou toda sua, meu querido!
Ele beijou-a novamente, segredando-lhe depois, ao ouvido:
	Adoro  voc!  Adoro  tudo  em  voc!  Quero  que  sejam  para mim  cada
batida de seu corao, cada um de seus suspiros e cada pensamento.
	  exatamente  o  que  tambm  desejo.  Eu  no  tinha  idia de  que  o
amor fosse to excitante, to sensacional e to poderoso!
	O  amor    invencvel;  Marcus  descobriu  isso,  e  sei  que  ele  tomaria
Lucille por esposa mesmo que ela fosse uma pessoa de origem mais humilde.
Ele e eu somos dois homens incrivelmente afortunados porque encontramos as
duas  mais  encantadoras  jovens  do  mundo!  Sem  contar  que  o  pai  delas
comandou  um  regimento  que  admiro  mais  do  que  todos!  Ah,  e  que  a me
delas foi to linda quanto as filhas!
	Gosto  de  ouvi-lo  falar  assim.  Lucille  e  eu  no  suportaramos  maridos
que  no  se  orgulhassem  de  ns,  que  nos  obrigassem  a  ser-lhes  submissas  e
agradecidas por termos sido elevadas por eles a uma posio melhor.
	No a quero humilde e submissa. Quero-a num pedestal para colocar-
me aos seus ps, louvando-a, minha querida!
Lorde Kenyon beijou-lhe suavemente o pescoo e sussurrou:
	Adoro-a, meu amor; amo tudo que existe em voc, tudo o que voc ,
e sem voc minha vida ser vazia.
Delia apenas emitiu um murmrio de pura felicidade e encostou a cabea
no peito de lorde Kenyon. Ele beijou-lhe os cabelos, dizendo depois:
	Teremos muito pouco tempo para ficarmos sozinhos em nossa lua-de-
mel  e,  como  desejo  fazer  amor  com  voc  a cada momento  que  for  possvel,
mandarei algum buscar o pastor para nos casar. 	A voz dele era pouco mais
do que um sussurro e estava cheia de paixo quando ele disse: 	Marcaremos
nosso casamento para amanh cedo.
	J se sente bem disposto?
	Tenho  tudo  muito  bem  planejado  para no  me  cansar  e  poder
demonstrar-lhe todo o meu amor e todo o meu desejo por voc.
Havia fogo em seu olhar, e Delia susteve a respirao.
	Portanto  ficaremos  na sute  nupcial,  em  Shaw,  durante  dois  ou  trs
dias.  Acredito  que  no  conhece  esses  aposentos,  pois  no  foi  mais   manso
depois do desentendimento de seu pai e meu irmo.
	Tudo me parece to excitante.
	Ser mais do que isso, minha adorada. Prometo. Iremos depois para
minha propriedade em Somerset e faremos uma viagem calma, sem qualquer
atropelo.


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Delia a tudo  ouvia,  no  cabendo  em  si  de  felicidade  e  com  os  olhos
brilhantes.
	Herdei essa propriedade de minha av. Ela gostava muito de flores, e
a casa acha-se no meio de um grande jardim.
	Sabe o quanto amo as flores.
	Voc    uma flor.  Na ndia h muita beleza,  mas  os  deveres,  as
cerimnias  e  o  protocolo  impediro  que  fiquemos  juntos  o  dia todo,  por  mais
que eu o deseje.
	Se eu puder pelo menos v-lo, ou ouvi-lo, dar-me-ei por feliz. Saberei
compreender que no devo ser muito vida.
	Mas  acredito  que  no  me  contentarei  apenas  em  v-la;  quero  dizer-
lhe o quanto  linda, quero beij-la, toc-la e saber que  s minha.
	Sou sua completa e absolutamente sua!
Lorde  Kenyon  fitou-a,  admirando  a ternura e  o  brilho  de  felicidade  que
havia em seus olhos.
	O  que  aconteceu  com  a linda jovem  que  desejava  jamais  ter  a
infelicidade de ver-me novamente?
	Tornou-se  cativa  foi  conquistada  e  agora   prisioneira  de  seu
amor!
Os lbios de lorde Kenyon tocaram os dela, e ele disse:
	J lhe  disse  que  o  amor    invencvel  e  no  adianta lutarmos  contra
ele.
Ele beijou-a, no suavemente, mas com ardor, loucura e paixo; como o
conquistador que era, o vitorioso, aquele que conseguia tudo o que desejasse.
Delia nada mais  temia;  seus  receios  haviam  desaparecido.  Tinha tudo;
era onipotente,  pois  encontrara o  amor  que  sempre  havia buscado.  O  amor
forte,  avassalador,  poderoso  e,  como  dissera o  homem  a quem  amava,
invencvel.
Ela entregou-se completamente  fora daqueles braos que a envolviam
e  insistncia daqueles lbios famintos.
Mais uma vez ambos se viram transportados para o paraso, um mundo
feito s para os verdadeiros amantes, um reino onde h a msica das esferas,
o perfume das flores, o brilho e a alegria dos raios do sol.
Aquilo  era a  glria,  o  esplendor  do  amor  que  vem  de  Deus  e    uma
parcela do prprio Deus; aquele amor que seria deles para sempre, por toda a
eternidade!

* * *
fim.
